O mais recente filme do realizador Jonathan Mostow ("Os Substitutos"), em exibição nas salas de todo o país, permite desfrutar de uma boa hora e meia de entretenimento, embora não sendo um fenómeno de qualidade requintada, do ponto de vista cinéfilo. Ainda assim, há detalhes subtis que o valorizam, como o toque de artificialidade que os efeitos digitais dão aos substitutos com faces semelhantes a actores conhecidos (tornando o guião mais credível), e a entrada, com imagens reais de sistemas robóticos dos nossos dias, que existem e parecem de facto ser os percursores do futuro imaginado pelo autor. É o caso, entre outros, do andróide que Hiroshi Ishiguro
, da Universidade de Osaka, no Japão, desenvolveu à sua própria imagem.
O filme e o seu guião são também um bom pretexto para os investigadores e outros profissionais da Robótica, bem como cidadãos comuns apixonados das novidades desta área, reflectirem sobre os aspectos éticos da Robótica. Será que queremos chegar a um futuro em que robôs nos substituem no dia-a-dia, enquanto permanecemos nas nossas casas, "protegidos" numa gaiola dourada, sem riscos nem paixões? Ou será melhor desistirmos de desenvolver máquinas artificiais que nos possam levar a uma tal alienação que não nos demos conta que esse dia já chegou, como vai acontecendo nos dias de hoje, em alguns aspectos, quando as relações sociais são melhor estabelecidas por meios virtuais do que pelo contacto directo?
A Ciência enfrenta sempre estes dilemas: qualquer inovação traz más e boas utilizações da descoberta. O desenvolvimento de dispositivos diversos no âmbito da invetsigação em Robótica, como as câmaras artificiais ou os manipuladores que reagem a interpretações de ondas cerebrais e/ou musculares, são já uma realidade que permite, nalguns casos, substituir a visão ou membros naturais. Mas podem ser usados na criação de "super-homens" que permitem grande vantagem sobre o inimigo em cenários militares. Na verdade, eu não me importaria que fossem robôs a lutar as guerras do futuro, permitindo aos militares divertirem-se sem perturbarem a paz dos cidadãos pacíficos e generosos - mas só garantindo que ambos os lados disporiam de máquinas, caso contrário a tragédia do pior flagelo da humanidade (as guerras) seria ainda maior.
Também os robôs ajudantes dos humanos (em casa, na fábrica, nas ruas das cidades, nos campos em agricultura) são hoje intenso objecto de investigação e certamente daí resultarão máquinas capazes de nos substituir em tarefas duras e pouco criativas. Mas, se a investigação criar andróides realmente inteligentes, quem sabe se eles nos substituirão em mais situações, sem que nos demos conta da perda do prazer do pôr do sol ao pé do mar?
Como em tudo, está nas mãos de todos, profissionais e leigos, manter a vigilância ética sobre o efeito dos nossos actos, e tomar as medidas para procurar evitar a má utilização das boas ideias. Mas não se preocupem os mais ansiosos relativamente à dominação dos humanos pelas máquinas: ainda estamos longe de poder escolher ter um substituto robótico.
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