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Os pobres velhos e os novos-ricos

Os pedintes de porta são diferentes. Têm vergonha e pedem desculpa de estarem ali de mão estendida.

Clara Ferreira Alves (www.expresso.pt)
8:00 Segunda feira, 16 de novembro de 2009

Estão de volta. Os pedintes de porta em porta. Aparecem pelas manhãs de domingo, com toques hesitantes na campainha. Muitos não lhes abrem a porta e enxotam-nos de dentro das casas com um seco 'o que quer?' E não esperam para ouvir a resposta. Ninguém diz 'tenha paciência', como dantes. Responder àquela pergunta é embaraçoso. Os pedintes deixaram de se usar. Estavam, como outras espécies, extintos. Ou convertidos em sem-abrigo e excluídos, para a estatística. Os sem-abrigo têm o seu poiso, as entradas dos bancos, das repartições do Estado, as calçadas das ruas, os bancos dos jardins, os becos da cidade. E não pedem à porta, ou porque estão para além do acto de pedir ou porque não têm tino para isso. Nem gostam que as pessoas se aproximem deles, e as pessoas, sentido o cheiro a urina e matéria suja, fogem a sete pés. Os pedintes de porta são móveis e são mais ou menos sãos, estão limpos, têm uma casa. São diferentes. Têm vergonha de pedir e a primeira coisa que fazem é desculpar-se de estarem ali de mão estendida. Explicam a situação. São reformados ou desempregados. São velhos sem reforma. São mulheres sem família. Se não precisassem de comer não estariam ali. Têm de comprar medicamentos.

Nos últimos meses vários me tocaram à porta. Um homem que tinha sido despedido. Outro que não tinha "apoios" e caíra fora da malha do sistema. Um terceiro que adoecera e não tinha dinheiro para se tratar. Apresentavam-se e pediam que lhes arranjassem um trabalho qualquer. Biscates, limpezas, oficinas. Ou uma esmola. Andar de porta em porta não é um meio fiável de arranjar emprego porque as pessoas têm medo de abrir portas a desconhecidos. Os que conseguem vencer a barreira da porta da rua e tocar nas campainhas dos andares sabem que os espera um berro ou o silêncio. Ninguém fica a ouvir a história e muito menos com ela se comove. Os mais ricos vivem isolados nos seus condomínios com garagens e seguranças e viajam com os vidros dos carros subidos. Nunca se cruzam com gente desta. Os novos pobres pedem aos remediados, que estão acima na cadeia de alimentação. Os remediados encolhem os ombros, têm os seus problemas, o Estado que se ocupe.

E as mulheres. Uma mulher diz que não tem quem a ajude. Depende da caridade de estranhos. Chora por trás de lentes tão grossas que não deixam ver os olhos. Umas calças de veludo coçado, que não lhe assentam bem, parecem emprestadas. E um casaco de fazenda demasiado curto. Uns sapatos de atacador. As calças foram dadas, parece que eram de um rapaz. O casaco também. Os sapatos? Não se lembra. Não tem reforma. Tem uma pensão "pequenina". Nunca tratou "dos papéis". Uma sobrinha tomava conta dela e a sobrinha morreu. O marido da sobrinha e os filhos acabaram com isso. É doente, doenças da velhice e da tristeza. Vê mal. Pega num saco de plástico com um nó nas alças e desata-o. Diz que tem fome. O saco tem dentro umas maçãs e uns pães velhos como ela. O que lhe vale é a igreja, onde às vezes lhe dão de comer e roupas usadas. Vive sozinha na cidade, uma "casinha que era dela e do falecido marido", renda antiga, não sabe como pagar os remédios que o médico receitou. A sobrinha é que tratava de aviar as receitas. É semianalfabeta. Não sabe para onde se há-de virar. E o dinheiro não chega. Disseram-lhe que se pedisse sempre ganhava algum. Não tem coração para aquilo. Aqui, na palavra coração, começa a chorar. Estreou-se há dias. As pernas doem. Se fosse mais nova ajudava. Há muitos anos que não via uma mendiga a mostrar um saco com pão lá dentro. A última vez que vi esta cena à porta acho que ainda se usavam sacos de pano para o pão.

Há mais histórias assim, monótonas. A mulher a quem tiraram a casa. Quando voltou do hospital, o senhorio disse-lhe que perdera o direito a ela porque não tinha pago a renda. A renda era paga em mão. Não sei o que fazer. Não sei onde dirigir-me. Não sei o que faço aqui, querem todos dizer. A incapacidade de perceber o mundo onde ainda vivem. Os computadores e os analfabetos coexistindo no mesmo espaço e tempo. Os mais novos andam a entregar publicidade à porta. Tocam à campainha agressivamente, atiram os folhetos para o chão em protesto contra as portas fechadas. Os mais velhos pedem e levam com a porta na cara. Outros andam de noite. O monte de lixo deixado junto dos contentores de reciclagem é passado a pente fino. Um homem revista com método os caixotes dos restaurantes, à cata de restos. Houve um tempo em que esta gente quase desapareceu, apanhada pela prosperidade, que é directamente proporcional à bondade. A crise não gera dadores. Isto está mal para todos, ouve.

Texto publicado na edição do Expresso de 14 de Novembro de 2009

 

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Portugal no seu melhor - O regresso
CM84 (seguir utilizador), 2 pontos (Interessante), 17:21 | Segunda feira, 16 de novembro de 2009
A CFA devia focar este assunto constantemente. Até a odiarmos de morte, por não suportarmos mais a culpa. Sim, porque os responsáveis da situação somos nós. Não fomos activos, mas somos passivos.

Não me interessa quais os Partidos ou políticos, interessa que os devíamos ter mantido com a "rédea curta".

Não somos estúpidos.Nenhum de nós. Somos subservientes.

Assistimos aos desmandos, como um direito adquirido do Poder.

Ameaçamos que os substituimos? Não! Porque os outros podem ser piores. Ainda por cima não são dos "nossos", são dos "outros".

Quando os "outros" tomam o poder, nada se pode fazer. Se os "outros" fizeram?...

Então "uns" e "outros" saqueiam à vontade. E riem-se, por assistirem à guerra constante e alternada dos servos defensores deles contra os servos defensores dos "outros".

A "uns" e "outros" convém avivar o o conflito, pois o problema para eles, é os servos pararem para pensar e deixarem de agir movidos por emoções básicas.

Neste momento problema não é político, é roubo, é fraude, é corrupção. Um político na situação actual só tem duas hipóteses: ser refém ou parceiro.

Quem é refém e quem é parceiro?

- Os "outros"! - respondem os servos em uníssono.

Enquanto "nós" não mudar-mos nada muda. Só nos resta, com a alma envergonhada, sempre que nos batam à porta, dizer: tenha paciência.

O futuro...O futuro, será quando formos bater às portas dos outros

cumprimentos

PS. CFA, obrigado pelo artigo
 
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Os pobres velhos e os novos-ricos
naif (seguir utilizador), 1 ponto , 12:29 | Segunda feira, 16 de novembro de 2009
Pois é C.F.A., estes são os que já perderam a dignidade, são os que estendem a mão. Já pensou o acto contrário que é estender a mão para dar a um semelhante, seja o que for. Ai somos superiores, mas ofensivos!
Deixai-os revoltarem-se contra o sistema é a nossa obrigação.
Mas, o que mais me preocupa é os que não batem á porta, não andam pelos lugares públicos a pedir.
É a vergonha escondida dos seus vizinhos, dos seus conhecidos, é a vergonha dos que passam fome mas não dizem, são os dignos que são em número superior aos que descreveu.
Cumprimentos
 
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    Re: Os pobres velhos e os novos-ricos    Ver comentário
yourmag (seguir utilizador), 1 ponto , 12:42 | Segunda feira, 16 de novembro de 2009
    Re: Os pobres velhos e os novos-ricos    Ver comentário
naif (seguir utilizador), 1 ponto , 13:17 | Segunda feira, 16 de novembro de 2009
Estender a mão à caridade
CãodaRosa (seguir utilizador), 1 ponto , 12:57 | Segunda feira, 16 de novembro de 2009
Estender a mão à caridade, pedir de porta a porta é consequência de uma situação económica que atirou para a miséria muitos cidadãos que em nada contribuiram para a sua degradação. É o recurso de alguns, que infelizmente foram apanhados pela crise sem terem a possibilidade de pôr as mãos na massa como fizeram outros a quem foi, de mão beijada, dada essa oportunidade, estes são os novos e rápidos ricos. Os que por formação e carácter não alinharam em esquemas foram empobrecendo e engrossando a fileira dos velhos pobres, enquanto viam e sentiam os sem vergonha que tomaram o poder a enriquecer a toda a velocidade, sem olhar a meios e violando todas as regras éticas e morais. Os novos pobres são aqueles que foram atirados para o desemprego por empresários enriquecidos à custa dos dinheiros públicos, dos favores de uma classe política que os subsidiou de uma classe política que aproveitou para encher pela "surra" os seus bolsos. Aos desempregados, juntam-se os reformados com pensões miseráveis, porque os dinheiros públicos são para salvar BPN, PPP, Berardos e afins, não importam os milhões que se gastam com estes ricalhaços, importam os tostões que se gastam com o POVO. CFA aborda um tema que mexe com qualquer cidadão, mas a miséria existente é muito mais vasta, ainda recentemente me contaram que um trabalhar que não recebe ordenado vai para cinco meses, está ameaçado de despejo e a um amigo contou que é dramático o regresso diário a casa e olhar o filho com fome.São mais pobres.
 
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Santa Clara, Padroeira da Televisão
Cisneros (seguir utilizador), 1 ponto , 15:38 | Segunda feira, 16 de novembro de 2009
Para comentar o seu artigo fui ao Google tentar saber de que era Santa Clara Padroeira e saiu-me esta agradável surpresa.

Achei engraçado e aproveito para lhe dizer que nunca se canse de "desancar nos que andam cá só para explorar os pobres", porque o que os novos e velhos ricos tem a mais - está a faltar aos outros...

O Aleixo -outro pobre envergonhado -dizia:

A ninguem faltava o pão
Se este dever se cumprisse
Ganharmos em relação
Com o que se pruduzisse...

Parabens Clara F Alves mesmo sem ser Santa...
 
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    Re: O erro não foi do Iletrado Aleixo..Foi meu    Ver comentário
Cisneros (seguir utilizador), 1 ponto , 15:52 | Segunda feira, 16 de novembro de 2009
E se não chove cada vez mais fome
Limes (seguir utilizador), 1 ponto , 0:07 | Terça feira, 17 de novembro de 2009
Se você só conhecer o mundo embarcando e desembarcando nos seus luxuosos aeroportos é normal que na sua Lisboa profunda encontre mais contrastes sociais. Mas se você descer as profundezas da continente mais rico do mundo que é a Europa, vai de certo encontrar muita pobreza, falhados, e desorganizadas igual ou pior a aqueles que acaba de descrever.

Lá por não conhecer-mos não quer dizer que eles não existem. E ao contrario se aplica a mesma observação.
 
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    Re: E se não chove cada vez mais fome    Ver comentário
CM84 (seguir utilizador), 1 ponto , 13:05 | Terça feira, 17 de novembro de 2009
Revelador
lineu (seguir utilizador), 1 ponto , 9:22 | Terça feira, 17 de novembro de 2009
como já esperava nem uma linha sobre a corrupção que dizem os entendidos é um factor de desigualdade social como nos alerta o proprio artigo . Esta Sra. nada diz sobre escutas pois o conteudo nao interessa mas sim a forma como foram obtidas , já não se incomoda com afastamento de jornalistas ou processos crime contra os mesmos ( Jorge Sampaio ) no caso Casa pia ..já esqueçeram??? pois mas como FREEPORT , OBRAS PUBLICAS e CASA PIA toca aos amigos . nem uma linha ...interesante e revelador o tipo de comentadores que temos .
 
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    Revelador de um drama humano    Ver comentário
CM84 (seguir utilizador), 1 ponto , 13:36 | Terça feira, 17 de novembro de 2009
    Re: Revelador de um drama humano    Ver comentário
lineu (seguir utilizador), 1 ponto , 21:39 | Terça feira, 17 de novembro de 2009
    Re: Revelador de um drama humano    Ver comentário
CM84 (seguir utilizador), 1 ponto , 22:48 | Terça feira, 17 de novembro de 2009
    Re: Revelador ,NÃO SABES A QUEM SERVE?    Ver comentário
AUGUSTO ROSA (seguir utilizador), 1 ponto , 14:08 | Terça feira, 17 de novembro de 2009
CADA POVO SÓ TEM OS GOVERNANTES QUE MERECE.?.
Tibiriçá.... (seguir utilizador), 1 ponto , 14:08 | Terça feira, 17 de novembro de 2009
Ao ler o artigo de santa clara;e os comentários dos meus colegas e amigos desta mesa virtual;portugal está caminhando para uma gerra civil.Se não forem tomadas medidas urgentes;para evitar essa guerra civil. CUM.ROBESPIERRE
 
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É muito triste
user177255 (seguir utilizador), 1 ponto , 11:14 | Sábado, 21 de novembro de 2009
Bom bom artigo!!
É realmente muito tocante ver estas situações. Sempre que uma idosa me aborda é de partir o coração!!! E penso que o fazem mesmo por necessidade. Parecem perdidos...
  Como é que o Estado não vê isto???? Estas pessoas deviam ser encaminhadas pelos agentes policiais para assistentes sociais de modo a serem apoiados.
E em Portugal esta situação é muito visivel mais do que qualquer país no Norte da Europa.
Que tenhamos humildade porque isto pode acontecer a todos nós.
 
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Não percebi bem...
CMCRF (seguir utilizador), 1 ponto , 17:34 | Segunda feira, 23 de novembro de 2009
Primeiro quero referir que sou um admirador de algumas opiniões escritas e faladas da CFA, por isso mesmo tenho que comentar o seguinte:
Muitas das pessoas que não abrem as portas, fazem-no com receiro de serem mais uma vítima de assalto, regra geral é esse o motivo!!! Acabei por não perceber de que forma é que a CFA ajudou todos os que lhe bateram à porta e especialmente, porque se alongou mais na descrição do momento, a senhora das calças de veludo emprestadas!!! por amor de senhor, seja lá ele quem for, emprestadas??? as calças devem ter sido dadas!!! um "piqueno" (como você gosta de dizer nabrincadeira) deslize que é demonstrativo de que não vive inteiramente no plebeu mundo que a rodeia .
Sem mais de momento.
Com os melhores cumprimentos deste, por vezes, seu admirador.
Carlos Ferreira
 
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