Violando todas as regras europeias, Sarkozy continua o repatriamento dos ciganos romenos e búlgaros. Em tempo de crise, há que encontrar alvos fáceis. E eles tanto podem ser ciganos, os imigrantes ou apenas os mais pobres dos mais pobres. É dos livros: atiçando o povo contra os desgraçados se salvam os poderosos.
Eternos perdedores, expulsos vezes sem conta dos seus próprios países, os 'romas' tiveram direito ao mesmo tratamento dado aos judeus nos campos de concentração nazis. Mas nem a história recorda o seu meio milhão de mortos durante o Holocausto. Párias de sempre, foram sendo, como os judeus, bode expiatório de todos os males. Como todos os povos sem terra, foi sempre o isolamento que os salvou. Com algumas diferenças: ao contrário dos judeus não têm uma religião própria, ao contrário dos arménios e dos curdos não têm uma origem territorial clara e ao contrário dos beduínos o seu modo de vida desapareceu sem remédio. Nada, a não ser as suas leis arcaicas e os seus estranhos costumes, os protegem da assimilação que não lhes reservaria mais do que o fundo do fundo da pirâmide social. Hostilizados por todos os regimes, aprenderam a desconfiar dos estranhos e a recusar qualquer contrato social. Mas eles são, desde a Idade Média, tão europeus como qualquer europeu.
Não fujo ao problema: conviver com os costumes ciganos não é fácil. Porque para conviver com a diferença não chega boa vontade. E a coisa piora porque as suas regras são de um tempo que acabou. A esmagadora maioria dos ciganos já não é nómada. As atividades a que se dedicavam foram industrializadas e eles perderam o seu lugar nas nossas sociedades. Restam-lhes duas possibilidades: ou se integram e desaparecem enquanto comunidade ou resistem numa tensão permanente com tudo o que os rodeia. Não é uma escolha fácil.
Do nosso lado, a alternativa ao ódio não deve ser negar a dificuldade. Depois de tantos séculos, talvez seja altura de perceber que, mesmo que a integração se vá fazendo, ela não deixará de ser dolorosa. A resposta europeia aos que preferem escarafunchar na ferida para ganhar vantagem política é ir resolvendo conflitos. E isso demora tempo. Séculos. A eternidade. Porque, já se sabe, o inferno são os outros. E os ciganos sempre foram os outros.
Jogada perigosa
O cenário das presidenciais era o ideal para o PCP. Com a estratégia de unidade à esquerda seguida pelo Bloco, podia finalmente ir buscar-lhe votos descontentes. E com uma figura credível, como Octávio Teixeira ou Carvalho da Silva, tinha a oportunidade de crescer em eleitorado indiferenciado. Mas o PCP preferiu escolher um obscuro dirigente - que apesar de pouco conhecido é o homem atrás de Jerónimo -, sem qualquer carisma e de uma ortodoxia perturbante. Esta opção só pode ter duas explicações: ou a linha dura, que dirige o PCP há meia dúzia de anos está cega pelo seu próprio dogmatismo e não corre o risco de ter menos do que indefetíveis a representá-la, ou esta candidatura é o primeiro passo para substituir o simpático e inofensivo Jerónimo de Sousa. Seja como for, trata-se de uma jogada perigosa: um mau resultado, bem possível para um ilustre desconhecido numa eleição muito personalizada, pode pôr em causa a sucessão pretendida e, mais importante, abalar o poder do grupo que, de limpeza em limpeza, foi tomando a direção do PCP.
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Texto publicado na edição do Expresso de 28 de agosto de 2010