O dedinho que fez disparar o obturador foi o do seu companheiro, o fotógrafo Pedro Palma. O dedinho, em trabalhos artísticos, também serve para accionar a objectiva.
A arte da fotografia consiste na produção de imagens através da fixação da luz reflectida pelos objectos numa superfície penetrada por um produto sensível. A fotografia digital do nosso tempo dispensa o produto sensível. Mas não dispensa o dedinho.
A fotografia não existiria sem a descoberta da "câmara obscura" do Renascimento. A razão obscura da utilização da câmara filia-se também no Renascimento. A pessoa expõe-se e renasce. Vem-se e revive. Revem-se. Revê-se no seu umbigozinho, escondido, tamanho do mundo. Mas, plagiando Lord Byron, que andou por Sintra a espreitar Cascais, a recordação do prazer já não é o prazer.
Não sei se a exposição tem banda sonora a acompanhá-la. Mas uma melopeia de suspiros e ais lúbricos, lubrificados, em fundo estereofónico, valorizava o objecto artístico, quero dizer, o sujeito artístico.
Estranhamente a bióloga partilha com o público as suas experiências. E a sua vida. No texto de apresentação de "Sexpressions", mais interessante que os esgares orgásticos das fotografias, ficamos a saber que a exposta tem cinquenta anos. Que os filhos "estão longe, longe" e, por consequência, devem desconhecer as "sexpressions". Que vive sozinha com o cão. Que a companhia íntima dos homens já a desiludiu "que chegue". E a das mulheres não lhe interessa "absolutamente nada".
Espanta o desabafo intimista. O público não entenderá por que, no meio tão explícita misantropia, de tanto desprezo pelos indivíduos e pela mole, a professora resolva partilhar com milhares de voyeurs, perdão, de espectadores, as suas intimidades. Exibindo a sua prótese extática, perdão, a sua pose extática, em diferentes ângulos, de forma tão crua e nua. Parafraseando a escritora - a minha alma está parva. É talvez por isso que estou a cometer tantos lapsos linguísticos. Perdão.
Este projecto artístico, que Cascais acolhe, obedece a grandes planos. Não sei se houve champagne e ostras na vernissage. Mas esta exposição, mais do que nenhuma outra, merecia.
A professora gosta de exposição. Dá-lhe gozo dar nas vistas de olhos bem fechados. Como Stanley Kubrick a gostaria de ter filmado em "Eyes wide shut". Fosse Clara, Nicole. E Pedro, Tom.
A filosofia do projecto merece ser desenvolvida. O mesmo conceito artístico (centrado no próprio fácies constrangido ou aliviado, em momentos íntimos, porventura ainda mais solitários) pode ser um filão criativo inesgotável.
"Peeexpressions" bem poderia ser um desses projectos. Palma, utilizando praticamente o mesmo instrumento de "Sexpressions", conseguiria, por exemplo, elevadíssima qualidade artística em fotografias de trejeitos, momices e caretas de um humano a fazer pontaria a qualquer réplica contemporânea da "Fontaine" de Marcel Duchamp - a escultura do urinol em porcelana - que a Sociedade dos Artistas Independentes, em Nova York, censurou na sua exposição de 1917.
A mensagem educativa é inequívoca. A arte da fisiologia do corpo está no rosto. O rosto revela o que esconde. O rosto oculta o que mostra. E quem vê caras não vê órgãos. A imagem estática de uma pose extática mexe mais com a cabeça do que com qualquer outra parte do corpo. E até faz remover as teias de aranha misóginas que se incrustam nas mentes dos homens de má vontade.
É bom para a humanidade que a professora continue a revelar-nos as suas (o)usadas experiências artísticas. Das que se colam à pele como uma tatuagem primitiva. Mas que não se iniba. Que se mostre mais. Que seja mais. Clara.