11/02/2012 atualizado às 16:25
Página Inicial » Opinião » Nicolau Santos » Os melhores pessimistas

Os melhores pessimistas

Nicolau Santos (www.expresso.pt)
0:01 Quinta feira, 17 de dezembro de 2009

Portugal está na cauda da Europa em muitos indicadores económicos e sociais, mas há um onde estamos seguramente entre os primeiros: na qualidade dos nossos pessimistas. Na verdade, todos temos de reconhecer que os nossos pessimistas são do melhor que há no mundo. Um pessimista português é uma autoridade: quando fala sobre o país não fica pedra sobre pedra. Não há passado que nos salve, presente que se veja e futuro que nos acalente. É claro que os nossos pessimistas nos poderiam dar sugestões de como sairmos desta apagada e vil tristeza. Mas nessa não caem eles. Pessimista que se preza demonstra que isto está péssimo - mas acrescenta que não há salvação.

Vem isto a propósito da recente entrevista de António Barreto ao "i", cujo título é desde logo arrasador: "Portugal está à beira da irrelevância, talvez do desaparecimento". A entrevista não é, contudo, tão negativa. Mas o recado está dado. Ora eu não cometo a injustiça de equiparar as críticas de António Barreto às de Medina Carreira ou de Vasco Pulido Valente, cujas profecias, se se cumprissem, deveriam ter conduzido já há muito à extinção de Portugal e dos portugueses.

Com efeito, há três anos assisti a uma conferência onde Barreto traçou a evolução da sociedade portuguesa desde 1974, onde começou logo por afirmar que "o sentido de mudança dos primeiros 20/30 anos deste período foi sempre de progresso e no sentido positivo". Ora quais foram, segundo Barreto, as mais notáveis mudanças na sociedade portuguesa neste período? Elencou vinte pontos.

1) População: Portugal conheceu um fenómeno de miscigenação e de pluralidade étnica, religiosa e de costumes (saíram 2,5 milhões de pessoas mas vieram 1,5 milhões);

2) A esperança de vida registou "um aumento incrível" (nos homens passou de 60 para 64 anos, nas mulheres de 65 para 80);

3) o ritmo de envelhecimento foi o mais rápido da Europa (tínhamos o maior número de jovens e o menor número de idosos; hoje é o contrário);

4) A mortalidade infantil e materna "desceram inacreditavelmente" (tínhamos 80 mortos por mil nascimento; hoje temos quatro por mil, a quarta mortalidade infantil do mundo e terceira da Europa);

5) Portugal tinha as mais altas taxas de natalidade e fecundidade - hoje são das mais baixas da Europa;

6) houve uma fortíssima alteração das estruturas familiares (divórcios, segundos casamentos, uniões de facto, famílias unipessoais);

7) há 30 anos havia 15% de mulheres na vida activa; hoje são 50%;

8) as mulheres não podiam ter passaporte ou alugar casa sem autorização do marido; hoje têm direitos iguais;

9) fortíssimo e muito rápido declínio do sector primário (de 30% para 5% da população activa na agricultura); explosão do sector dos serviços e estagnação do sector secundário;

10) litoralização do país;

11) despovoamento de grande parte do interior;

12) universalização dos cuidados de saúde pública;

13) universalização da educação e o fim do analfabetismo ("nos anos 60/70, Portugal tinha a taxa de analfabetismo da Inglaterra do séc. XIX";

14) universalização da segurança social ("800 mil pessoas, rurais e empregadas domésticas, entraram na Segurança Social no tempo de Marcelo Caetano";

16) décadas de melhoria constante dos padrões de consumo, de rendimento e de bem-estar das famílias;

17) estabelecimento dos valores e regras de cidadania ("nos últimos 30 anos existe um real consenso à volta do regime democrático";

18) Portugal, que era uma sociedade muito homogénea, tornou-se plural, a nível das raças, religiões e ética;

19) Portugal tornou-se uma sociedade mais igual que há 30 anos; "todas as classes sociais viram aumentar os seus níveis de conforto", embora ao mesmo tempo nos tenhamos tornado o país mais desigual da União Europeia;

20) Portugal tornou-se um país como os outros - uma sociedade europeia sem analfabetismo, ditadura, trabalho infantil, etc.

Depois de ouvir tudo isto, ficamos com a certeza absoluta de que o país progrediu extraordinariamente nos últimos 30 anos, embora tenha havido apostas que correram bem e outras mal, como na justiça e educação. Mas o balanço global é francamente positivo - António Barreto dixit.

Baterias: os sins e os mas

A fábrica de baterias de iões de lítio da Renault-Nissan para carros eléctricos vai ficar em Cacia. É sempre de saudar um investimento estrangeiro, para mais nesta altura, que vai criar 200 empregos qualificados e cuja produção se destina à exportação. Cumpre, no entanto, fazer algumas ressalvas. A primeira é a de que terá de ser importada a quase totalidade dos produtos necessários para produzir as baterias, em particular as células de iões de lítio, que serão exclusivamente fabricadas no Japão - o que quer dizer que o valor acrescentado nacional será muito pequeno. A segunda é que a fábrica de Cacia será monofornecedor e monocliente, o que a torna extremamente vulnerável a flutuações de mercado. E a terceira é que a fábrica vai ficar instalada numa unidade já existente, o que pode querer dizer que pelo menos parte dos postos de trabalho criados pode ser apenas reconversão dos já existentes. Contudo, é sempre melhor ter este investimento que não o ter, até porque nos coloca com um pé numa das indústrias do futuro. Em qualquer caso, um grande projecto nacional seria a reconversão dos nossos 7 milhões de veículos convencionais para veículos eléctricos, uma ideia de Pedro Sena da Silva. Aí sim, quem saía a ganhar era a inovação indústria nacional, o que faria toda a diferença.

A Aerosoles e os sapatos do defunto

Depois da ascensão, a queda. A Aerosoles, que já foi uma marca internacional de sucesso de uma empresa portuguesa (ainda a semana passada vi uma loja em Milão), vai desaparecer. As razões do insucesso terão sido uma estratégia comercial sobredimensionada. Mas não é isso que se pede às empresas portuguesas? Que criem marcas próprias e que as vendam por canais autónomos no exterior? Parece que não. Para salvar a Investvar, que produzia aquela marca, foi delineado por parte do Estado e dos principais credores uma estratégia que passa por deixar cair a marca Aerosoles, meter no congelador a marca Move On, que a ia substituir, pela alienação da área comercial e por apostar na subcontratação. Ou seja, sem marca própria, sem as 115 lojas que detém em 12 países, incluindo Portugal, e apostando apenas na área industrial, o grupo espera sobreviver melhor do que até agora, contrariando tudo o que qualquer guru de pacotilha recomendaria a uma empresa de calçado. No final, hão-de sobrar os sapatos do defunto.

Arquitectura e Liberdade

Em 2008, a polémica em torno da demolição do mercado de Kinanxixe, o mais emblemático da capital angolana, desenhado pelo arquitecto Vasco Vieira da Costa em 1950, veio mostrar a necessidade de uma reflexão sobre o valor do património construído em África pelos portugueses. Ao contrário das razões anticoloniais dos que foram a favor da demolição, o Kinaxixe e outros edifícios constituem expressões de liberdade criativa de um leque significativo de jovens arquitectos portugueses, formados nas Escolas de Belas Artes de Lisboa e Porto no final da década de 40 e início da década de 50, que afirmaram nas ex-colónias portuguesas uma modernidade que não era possível em Portugal continental, onde a ortodoxia dos modelos arquitectónicos oficiais veiculados pelo Estado Novo era esmagadoramente imperiosa. É a história de 12 obras emblemáticas construídas em quatro cidades africanas (Luanda, Lobito, Maputo e Beira) que são retratadas em "Moderno Tropical - Arquitectura em Angola e Moçambique 1948-1975", livro da autoria de Ana Magalhães (texto) e Inês Gonçalves (responsável pelas magníficas fotografias), das Edições Tinta da China. Para quem gosta de África, arquitectura e liberdade, um livro a não perder e que a memória de todos os que passaram por África agradece.

A Cosec ou outro recuo

Governo lá segue de recuo em recuo. Depois dos recuos na avaliação dos professores, nas taxas moderadoras, no subsídio de desemprego e nos chips nas matrículas, eis que surge o ministro da Economia a afirmar que a nacionalização da Cosec já não é indispensável. Recorde-se que a 13 de Maio, não na Cova da Iria mas no Parlamento, o primeiro-ministro anunciou a renacionalização da seguradora "para garantir às empresas exportadoras nacionais um acesso ao seguro de crédito". Não se percebeu a decisão, porque o negócio da Cosec é fazer seguros de crédito. Vieira da Silva diz agora que "o indispensável é que os empresários e exportadores tenham acesso a mecanismos de seguro das suas exportações, que estão a ser dificultados pela conjuntura" - uma verdade tão actual hoje como há sete meses, quando o Governo anunciou a renacionalização da Cosec.

 

Um olhar furtivo
por certo sabiamente encaixotado procura-te por toda a parte
e é África que responde por ti
lá do ponto mais perigoso do labirinto
onde nem o Minotauro vem
aquecer com o seu bafo
o teu tiritar convulsivo(...)

(...)Nas extensas praias da foz
cada bago de areia era uma palavra
a que não sabíamos responder.

Artur do Cruzeiro Seixas

Nicolau Santos  

Texto publicado na edição do Expresso de 12 de Dezembro de 2009

 

Faça login pelo Facebook e comente este artigo!
Página 1 de 1   
ordenar por:
mais votados ▼
pessimista
AntiFar (seguir utilizador), 2 pontos (Divertido), 13:49 | Quinta feira, 17 de dezembro de 2009
!?
O articulista é muito pessimista quando fala dos pessimistas!...
 
 Regras da comunidade
De novo!
cjours (seguir utilizador), 2 pontos , 15:17 | Quinta feira, 17 de dezembro de 2009
De novo tenho que dizer que este homem é um senhor! Este e o Ferreira Fernandes são dois cronistas diferentes, mas do melhor que o burgo tem! Angolanos claro, como não podia deixar de ser!!....
Concordo plenamente com a análise ao Barreto e as deixas ao Medina Carreira que o moçambicano (brrrrrr) do Mário EnCrespado gosta de levar à chafarica dele mas que só sabe dizer mal e NUNCA apresenta UMA solução. Do VPV já nem digo nada que o homem tem a credibilidade do Alberto João...
E excelente referência para a arquitectura contruída na África 'portuguesa'. Do melhor que o país produziu! Muitos e grandes arquitectos se fizeram em Angola e Moçambique! Depois do 25A, claro, foram para o Brasil ou África do Sul que a única coisa que se constroi em Portugal há 40 anos são caixotes!!!! Vejam a Margem Sul.... como é possivel uma área de tão grande densidade populacional não ter um (1) edificio com valor arquitectónico construido nos últimos 40 anos??? UM!! Ser terra de comunas não explica tudo....
Até na herdade da Aroeira, supostamente lugar de gente fina, há montes de aberrações arquitectónicas!!!!! Que indigência estética, credo!!!! Que povo de parolos!
 
 Regras da comunidade
Os melhores pessimistas
Toni 2 (seguir utilizador), 2 pontos , 20:07 | Quinta feira, 17 de dezembro de 2009
Na verdade temos alguma razão no minímo para não ser muito optimistas. Começamos por estar na Cauda da Europa não só em termos de desenvolvimento económico e social, mas também em termos geográficos. No entanto também nos esquecemos que estamos no centro do Mundo e nem sempre temos capitalizado esse facto em nosso benefício. Pelos tais 20 pontos da autoria de Barreto se vê que na verdade algo vai mal na cabeça dos que afirmam cobras e lagartos do nosso passado recente e presente. Das duas uma isto leva-me a pensar que a idade não perdoa e só há uma conclusão a tirar de tudo isto. Atribuir a culpa à artereoesclerose, senilidade, xexés etc. Sabemos que bem não estamos, mas termos já chegado ao ponto do suícidio colectivo, já me parece de mais.
 
 Regras da comunidade
Vala Comum ?
Alfredino Cunha (seguir utilizador), 1 ponto , 1:19 | Quinta feira, 17 de dezembro de 2009
Onde somos melhores nem é em pessimistas.

Onde somos mesmo bons é em poetas e lirismos.

Em poetas líricos somos baris mesmo.

Cá vai poema:

"Oxalá que os poetas líricos do Porto

Sejam compreensivos a pontos de deixarem

Uma nesgazinha de cemitério florido

Que é para os poetas líricos de Lisboa não terem de recorrer à vala comum".

Cesariny

Assim seja.
 
 Regras da comunidade
Pessimismo fruto da realidade vivida!!!
costinha79 (seguir utilizador), 1 ponto , 11:02 | Quinta feira, 17 de dezembro de 2009
Não considero que o pessimismo "natural" do português seja algo congénito como o Sr. Nicolau Santos pretende transmitir!!!!

Considero que seja consequente da realidade vivida pelo povo português pela miséria e os tempos difíceis vividos antes do 25 Abril e pelas desigualdades ainda presentes na nossa sociedade!!!!

É claro que muito evoluímos desde a implantação do Estado Democrático mas também é visível que muito ainda está por fazer para sermos uma sociedade mais próspera, mais desenvolvida e mais equitativa!!!

Julgo que a principal fonte de pessimismo é mesmo essa!!!! A vontade e a ânsia de ambicionar melhor e de prosperar!!!

Cabe a todos nós, sem excepções, modernizarmo-nos e desenvolvermo-nos como povo e como sociedade!!!!
   
 
 Regras da comunidade
I) Os pessimistas ambiciosos, minam como o cancro.
PIANINHO (seguir utilizador), 1 ponto , 0:45 | Sexta feira, 18 de dezembro de 2009
Os antídotos para os pessimistas de estilo, que põem as suas elevadas capacidades de inteligência ao serviço do botabaixismo militante, é haver quem tenha a coragem e boa fé de desmistificar esses "sortudos" - sempre com fácil acesso à comunicação social - que os mantêm regularmente nas 1ªs. páginas ou horário nobre, para agradar a opinião dos que acham tudo péssimo e que não tem fé na melhoria das actuais condições sociais.

Reconheço que é mais fácil vender o que no íntimo as pessoas acham e sentem que só diz mal de tudo e de todos, estilo Correio da Manhã, jornal mais vendido na região de Lisboa, do que quem invista numa imprensa livre da canga dos grupos económicos, com jornalismo de investigação (que hoje não existe ou não conheço) com ética e deontologia profissional, que sirva não só para as elites, mas sim que abranja um público leitor generalista.

Os conteúdos da critica devem ser balizados também, em função das tendências do pensamento social ou político dos seus autores, porque hoje jornalistas, cronistas, comentadores, politólogos, directores de órgãos da Comunicação Social, já não precisam de usar emblema na lapela, para mostrarem as cores que defendem, porque o mercado é pequeno os "actores" estão fixos, mas por convites rodam todos com demasiada frequência entre si e entrevistadores e entrevistados, conhecem-se profundamente e sabem até onde podem ir, sem causar feridas profundas nas suas opções políticas.

Continua ...
 
 Regras da comunidade
II) Os pessimistas ambiciosos minam como a cancro
PIANINHO (seguir utilizador), 1 ponto , 1:18 | Sexta feira, 18 de dezembro de 2009
.... Continuação ...

O último Prós e Contra da RTP1, foi paradigmático e sensacional, uma demonstração cabal ao vivo de que o êxito é possível em tempos de crise, nas mais variadas actividades económicas nacionais, que conseguem vencer em muitos países e em concorrência aberta nos mercados internacionais.

Os exemplos favoráveis mostrados tem normalmente pouca visibilidade e os pessimistas omitem conscientemente não só vocação tremendista de genes, mas por todas as ordens de razão, que os ajudam a estar sempre na linha da frente, dos ecrãs da Comunicação Social que avalizam o estilo que esses Senhores se propõem “vender”.

Nicolau Santos continue a lutar, parabéns pele sua crónica, o positivismo em meu entender é sempre salutar, na província coloca-se o melhor prémio, no cimo de uma simples vara ensebada e quem quiser ganhá-lo tem de se esforçar muito para chegar ao topo, sem escorregar, apesar de todos esforços contrários dos adversários, só é vencedor, quem conseguir chegar cimo do pau, é simples e no fim todos os concorrentes festejam sem azedume,
apesar de terem perdido.
 
 Regras da comunidade
Página 1 de 1   
PUB
 
Email
O Expresso no
Arquivo
PUB




Estado, privados e empresas de TI
0:00 Sábado, 11 de fevereiro de 2012,
Uma energia feroz e nuclear contra as eólicas
0:00 Sábado, 4 de fevereiro de 2012,
Visões e delírios económicos
0:00 Sábado, 28 de janeiro de 2012,
A Standard & Poor's fez-nos um grande favor
0:00 Sábado, 21 de janeiro de 2012,
Boas e más notícias no reino de Gaspar
0:00 Sábado, 14 de janeiro de 2012,
Leia aqui toda a informação das últimas 24 horas | últimos 2 dias |  anterior »
MBA
Grupo ImpresaACAP