Portugal está na cauda da Europa em muitos indicadores económicos e sociais, mas há um onde estamos seguramente entre os primeiros: na qualidade dos nossos pessimistas. Na verdade, todos temos de reconhecer que os nossos pessimistas são do melhor que há no mundo. Um pessimista português é uma autoridade: quando fala sobre o país não fica pedra sobre pedra. Não há passado que nos salve, presente que se veja e futuro que nos acalente. É claro que os nossos pessimistas nos poderiam dar sugestões de como sairmos desta apagada e vil tristeza. Mas nessa não caem eles. Pessimista que se preza demonstra que isto está péssimo - mas acrescenta que não há salvação.
Vem isto a propósito da recente entrevista de António Barreto ao "i", cujo título é desde logo arrasador: "Portugal está à beira da irrelevância, talvez do desaparecimento". A entrevista não é, contudo, tão negativa. Mas o recado está dado. Ora eu não cometo a injustiça de equiparar as críticas de António Barreto às de Medina Carreira ou de Vasco Pulido Valente, cujas profecias, se se cumprissem, deveriam ter conduzido já há muito à extinção de Portugal e dos portugueses.
Com efeito, há três anos assisti a uma conferência onde Barreto traçou a evolução da sociedade portuguesa desde 1974, onde começou logo por afirmar que "o sentido de mudança dos primeiros 20/30 anos deste período foi sempre de progresso e no sentido positivo". Ora quais foram, segundo Barreto, as mais notáveis mudanças na sociedade portuguesa neste período? Elencou vinte pontos.
1) População: Portugal conheceu um fenómeno de miscigenação e de pluralidade étnica, religiosa e de costumes (saíram 2,5 milhões de pessoas mas vieram 1,5 milhões);
2) A esperança de vida registou "um aumento incrível" (nos homens passou de 60 para 64 anos, nas mulheres de 65 para 80);
3) o ritmo de envelhecimento foi o mais rápido da Europa (tínhamos o maior número de jovens e o menor número de idosos; hoje é o contrário);
4) A mortalidade infantil e materna "desceram inacreditavelmente" (tínhamos 80 mortos por mil nascimento; hoje temos quatro por mil, a quarta mortalidade infantil do mundo e terceira da Europa);
5) Portugal tinha as mais altas taxas de natalidade e fecundidade - hoje são das mais baixas da Europa;
6) houve uma fortíssima alteração das estruturas familiares (divórcios, segundos casamentos, uniões de facto, famílias unipessoais);
7) há 30 anos havia 15% de mulheres na vida activa; hoje são 50%;
8) as mulheres não podiam ter passaporte ou alugar casa sem autorização do marido; hoje têm direitos iguais;
9) fortíssimo e muito rápido declínio do sector primário (de 30% para 5% da população activa na agricultura); explosão do sector dos serviços e estagnação do sector secundário;
10) litoralização do país;
11) despovoamento de grande parte do interior;
12) universalização dos cuidados de saúde pública;
13) universalização da educação e o fim do analfabetismo ("nos anos 60/70, Portugal tinha a taxa de analfabetismo da Inglaterra do séc. XIX";
14) universalização da segurança social ("800 mil pessoas, rurais e empregadas domésticas, entraram na Segurança Social no tempo de Marcelo Caetano";
16) décadas de melhoria constante dos padrões de consumo, de rendimento e de bem-estar das famílias;
17) estabelecimento dos valores e regras de cidadania ("nos últimos 30 anos existe um real consenso à volta do regime democrático";
18) Portugal, que era uma sociedade muito homogénea, tornou-se plural, a nível das raças, religiões e ética;
19) Portugal tornou-se uma sociedade mais igual que há 30 anos; "todas as classes sociais viram aumentar os seus níveis de conforto", embora ao mesmo tempo nos tenhamos tornado o país mais desigual da União Europeia;
20) Portugal tornou-se um país como os outros - uma sociedade europeia sem analfabetismo, ditadura, trabalho infantil, etc.
Depois de ouvir tudo isto, ficamos com a certeza absoluta de que o país progrediu extraordinariamente nos últimos 30 anos, embora tenha havido apostas que correram bem e outras mal, como na justiça e educação. Mas o balanço global é francamente positivo - António Barreto dixit.
Baterias: os sins e os mas
A fábrica de baterias de iões de lítio da Renault-Nissan para carros eléctricos vai ficar em Cacia. É sempre de saudar um investimento estrangeiro, para mais nesta altura, que vai criar 200 empregos qualificados e cuja produção se destina à exportação. Cumpre, no entanto, fazer algumas ressalvas. A primeira é a de que terá de ser importada a quase totalidade dos produtos necessários para produzir as baterias, em particular as células de iões de lítio, que serão exclusivamente fabricadas no Japão - o que quer dizer que o valor acrescentado nacional será muito pequeno. A segunda é que a fábrica de Cacia será monofornecedor e monocliente, o que a torna extremamente vulnerável a flutuações de mercado. E a terceira é que a fábrica vai ficar instalada numa unidade já existente, o que pode querer dizer que pelo menos parte dos postos de trabalho criados pode ser apenas reconversão dos já existentes. Contudo, é sempre melhor ter este investimento que não o ter, até porque nos coloca com um pé numa das indústrias do futuro. Em qualquer caso, um grande projecto nacional seria a reconversão dos nossos 7 milhões de veículos convencionais para veículos eléctricos, uma ideia de Pedro Sena da Silva. Aí sim, quem saía a ganhar era a inovação indústria nacional, o que faria toda a diferença.
A Aerosoles e os sapatos do defunto
Depois da ascensão, a queda. A Aerosoles, que já foi uma marca internacional de sucesso de uma empresa portuguesa (ainda a semana passada vi uma loja em Milão), vai desaparecer. As razões do insucesso terão sido uma estratégia comercial sobredimensionada. Mas não é isso que se pede às empresas portuguesas? Que criem marcas próprias e que as vendam por canais autónomos no exterior? Parece que não. Para salvar a Investvar, que produzia aquela marca, foi delineado por parte do Estado e dos principais credores uma estratégia que passa por deixar cair a marca Aerosoles, meter no congelador a marca Move On, que a ia substituir, pela alienação da área comercial e por apostar na subcontratação. Ou seja, sem marca própria, sem as 115 lojas que detém em 12 países, incluindo Portugal, e apostando apenas na área industrial, o grupo espera sobreviver melhor do que até agora, contrariando tudo o que qualquer guru de pacotilha recomendaria a uma empresa de calçado. No final, hão-de sobrar os sapatos do defunto.
Arquitectura e Liberdade
Em 2008, a polémica em torno da demolição do mercado de Kinanxixe, o mais emblemático da capital angolana, desenhado pelo arquitecto Vasco Vieira da Costa em 1950, veio mostrar a necessidade de uma reflexão sobre o valor do património construído em África pelos portugueses. Ao contrário das razões anticoloniais dos que foram a favor da demolição, o Kinaxixe e outros edifícios constituem expressões de liberdade criativa de um leque significativo de jovens arquitectos portugueses, formados nas Escolas de Belas Artes de Lisboa e Porto no final da década de 40 e início da década de 50, que afirmaram nas ex-colónias portuguesas uma modernidade que não era possível em Portugal continental, onde a ortodoxia dos modelos arquitectónicos oficiais veiculados pelo Estado Novo era esmagadoramente imperiosa. É a história de 12 obras emblemáticas construídas em quatro cidades africanas (Luanda, Lobito, Maputo e Beira) que são retratadas em "Moderno Tropical - Arquitectura em Angola e Moçambique 1948-1975", livro da autoria de Ana Magalhães (texto) e Inês Gonçalves (responsável pelas magníficas fotografias), das Edições Tinta da China. Para quem gosta de África, arquitectura e liberdade, um livro a não perder e que a memória de todos os que passaram por África agradece.
A Cosec ou outro recuo
Governo lá segue de recuo em recuo. Depois dos recuos na avaliação dos professores, nas taxas moderadoras, no subsídio de desemprego e nos chips nas matrículas, eis que surge o ministro da Economia a afirmar que a nacionalização da Cosec já não é indispensável. Recorde-se que a 13 de Maio, não na Cova da Iria mas no Parlamento, o primeiro-ministro anunciou a renacionalização da seguradora "para garantir às empresas exportadoras nacionais um acesso ao seguro de crédito". Não se percebeu a decisão, porque o negócio da Cosec é fazer seguros de crédito. Vieira da Silva diz agora que "o indispensável é que os empresários e exportadores tenham acesso a mecanismos de seguro das suas exportações, que estão a ser dificultados pela conjuntura" - uma verdade tão actual hoje como há sete meses, quando o Governo anunciou a renacionalização da Cosec.
Um olhar furtivo
por certo sabiamente encaixotado procura-te por toda a parte
e é África que responde por ti
lá do ponto mais perigoso do labirinto
onde nem o Minotauro vem
aquecer com o seu bafo
o teu tiritar convulsivo(...)
(...)Nas extensas praias da foz
cada bago de areia era uma palavra
a que não sabíamos responder.
Artur do Cruzeiro Seixas
Nicolau Santos
Texto publicado na edição do Expresso de 12 de Dezembro de 2009