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Os melhores de 2009

Nicolau Santos (www.expresso.pt)
0:00 Quinta feira, 7 de janeiro de 2010

O banqueiro que tem o toque de midas


Passou pela Goldman Sacks, foi o melhor aluno do INSEAD e convenceu Emilio Botín a abrir o Banco Santander de Negócios em Portugal, a que presidiu antes dos 30 anos. Seguiu-se a compra e presidência do Banco Santander Totta. Mas a prova de fogo foi quando em 2006 aceitou a presidência do Abbey em Inglaterra, uma espécie de Montepio. Em três anos, o Abbey passou de sexto para terceiro maior banco inglês, para o que contou com a compra do Alliance & Leicester e do Bradford & Bingley. Num ano em que a banca inglesa registou uma quebra média de receitas de 11%, o Abbey está a caminho de, pelo quinto ano consecutivo, crescer acima dos dois dígitos, tendo ganho o prémio de melhor banco em Inglaterra atribuído pela Euromoney (pela segunda vez) e por "The Banker". Por isso, António Horta Osório foi nomeado administrador não-executivo do Banco de Inglaterra e emerge como o melhor banqueiro português em 2010.

Como nadar com os tubarões e sobreviver


Há 14 anos, só havia uma pessoa que acreditava que uma empresa sediada em São Mamede do Coronado podia vir a produzir um medicamento comercializável a nível mundial. Chama-se Luís Portela, preside à Bial e após ¤300 milhões de investimento, viu amplamente recompensada a sua aposta. A agência norte-americana FDA autorizou a venda do antiepiléptico Zebinix nos EUA e no Canadá. Ainda em 2008, a norte-americana Sepracor ficou com o exclusivo da distribuição para aqueles mercados por 75 milhões de dólares. Seguiu-se este ano um acordo por ¤95 milhões com a nipónica Eisai para comercializar, promover e distribuir o fármaco em 36 países europeus. A facturação da Bial deve passar de ¤150 milhões para ¤450 milhões. E até 2020 o objectivo é lançar no mercado cinco novos fármacos de raiz nacional. Num sector dominado pelas multinacionais, Luís Portela mostra como se pode nadar com os tubarões - e sobreviver.

30 anos depois, eles fintaram o destino


Foram três décadas em que, a cada dia que passava, se tornava mais evidente a necessidade do patronato português ter uma só voz e apresentar-se unido perante o poder político e sindical. Mas foram também três décadas de falhanços sucessivos, em que os protagonistas se foram sucedendo (Pedro Ferraz da Costa, Ludgero Marques, Francisco Van Zeller) e o desânimo também (a última tentativa de criação da CEP - Confederação Empresarial de Portugal envolveu José Roquette e Alexandre Soares dos Santos, mas também falhou). Finalmente, os presidentes das duas maiores associações deram esse passo. Jorge Rocha de Matos, pela AIP, e José António Barros, pela AEP, negociaram discretamente, concordaram na fusão das duas associações a concretizar ao longo de 2010 e convidaram a CIP a aderir. Esta, claro, pôs-se de fora - da decisão e do futuro. Mas os presidentes da AIP e AEP vão passar à história pela decisão que tomaram.

O futuro não é do Ocidente


Uma das mais emblemáticas marcas suecas, a Volvo, foi comprada pelo grupo chinês Zhejiang Geely. Zhejiang quê?! E a Jaguar e Land Rover, marcas que eram o orgulho dos ingleses, pertencem agora à poderosa Tata Motors, um grupo indiano com múltiplos interesses. Por exemplo, Tetley é marca de chá britânico, mas o dono, desde 2000, é a indiana Tata Tea. E a Grundig, essa grande marca alemã? Pois está nas mãos de uma companhia turca, a Koç Holding. Por cá, a angolana Sonangol é o maior investidor do BCP. E a empresária angolana Isabel dos Santos é accionista de referência do BPI, da Galp e, desde a semana passada, da ZON. A cerveja Budweiser é propriedade da brasileira InBev. Os exemplos podem multiplicar-se, mas marcam claramente uma mudança do poder económico a nível mundial. O eixo do poder está a deslocar-se dos Estados Unidos e Europa para os países emergentes como a China, Brasil e, a uma escala bem menor, Angola. A China, como se sabe, é o maior investidor em títulos de Tesouro norte-americanos. O Presidente brasileiro, Lula da Silva, foi eleito o homem do ano pela revista "Time". Na cimeira do clima em Copenhaga foram os representantes da China e Brasil que pontificaram. Os sinais estão por toda a parte e só não vê quem não quer.

Como nós, ocidentais, vamos lidar com esta nova realidade é a grande interrogação para a próxima década. E isto porque o que está em causa não é apenas o enriquecimento dos países emergentes; é também, em contrapartida, o empobrecimento dos países ocidentais.

Se estas duas tendências já conduzirão a tensões, que podem dar origem a conflitos armados, o cenário agrava-se quando a concorrência não é verdadeiramente justa. Ninguém tem dúvidas que muita da produção nesses países é feita em condições laborais que nada têm a ver com as que são estabelecidas por lei para os trabalhadores ocidentais; nem que nesses países o respeito pelos direitos humanos ou pelo ambiente está a milhas dos padrões europeus ou norte-americanos.

Contudo, aquilo que são conquistas civilizacionais de que a Europa e os EUA se orgulham, tornam-se, no quadro da globalização sem regras que vivemos, numa enorme desvantagem competitiva, que está a levar à erosão progressiva desses direitos que tanto custaram a conquistar. Por isso, ou se metem regras a esta globalização, que todos terão de cumprir, coisa que parece impossível; ou não tarda nada as opiniões públicas ocidentais, sob o peso do desemprego e da degradação dos níveis de vida, vão obrigar os governos a tornarem-se mais proteccionistas. Mas em nenhum caso, a próxima década será do Ocidente.

As ideias de Rui Vilar


Pensador desalinhado, politicamente incorrecto, estimulante: é este o retrato de Rui Vilar, presidente da Gulbenkian, entrevistado por Helena Garrido no "Jornal de Negócios". E que falta fazem pessoas assim a Portugal!

Três ideias fundamentais: a primeira é que vivemos inundados por informação mas temos muito pouca sabedoria sobre os problemas de fundo; a segunda é que todo o mundo tem de corrigir os padrões de consumo, incluindo a população chinesa; a terceira é que, mais cedo do que tarde, o barril de petróleo chegará aos 200 dólares, o que mudará radicalmente o tipo de mobilidade que hoje temos.

A primeira ideia é muito interessante. Informação não é conhecimento nem sabedoria. Organizar a informação há-de ser cada vez mais importante no futuro. E não por haver de menos, mas por haver em excesso. Os analistas e fazedores de opinião terão um papel cada vez mais acrescido no futuro - e os jornalistas também.

A segunda ideia vai contra todos os que defendem que não podemos dizer aos países emergentes para não adoptarem o padrão de desenvolvimento que os países desenvolvidos seguiram. O que Vilar afirma é precisamente que temos de dizer a esses países que, também eles, têm de mudar profundamente os seus padrões de consumo, porque o mundo não aguenta. É injusto? É. É quase impossível fazer com que os governos desses países adoptem essa posição? Também é. Mas não é por isso que se deve ignorar o alerta que Vilar sintetiza assim: "Mesmo que toda a gente no mundo tivesse os padrões de consumo de Portugal, eram precisos dois planetas". E, como bem lembra, Portugal é apenas o 37º país do mundo em rendimento per capita...

Finalmente, a terceira ideia tem que ver com o facto de que, apesar das energias renováveis, o modelo de desenvolvimento mundial continua a assentar sobretudo no consumo de combustíveis fósseis, com o petróleo à cabeça, cujo preço explodirá a curto prazo. Isso terá inevitavelmente um enorme impacto sobre o turismo de massas, sobre o sector de aviação, sobre o sector automóvel, limitará e encarecerá o comércio mundial, atingirá o sector de plásticos... As consequências serão brutais e não vão demorar um século, mas uma década. E ninguém está preparado para essa nova realidade.

E Portugal? Pois por aqui vamos ter de poupar mais e consumir menos, de olhar com muito cuidado para o endividamento do Estado, das empresas e dos particulares. Mas também devemos acreditar que há uma nova geração bem mais preparada que a actual, capaz de fazer vingar novas ideias e ter uma abordagem diferente dos problemas. Palavra de Rui Vilar.

 

Texto publicado na edição do Expresso de 31 de Dezembro de 2009
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cjours (seguir utilizador), 2 pontos , 16:03 | Quinta feira, 7 de janeiro de 2010
Excelente, como sempre!
Só não concordo com a 2.ª ideia do Rui Vilar. E não concordo, justamente, por causa da sua 3.ª ideia...
Não é com boas intenções que os países em desenvolvimento vão alterar padrões de consumo, nem acharia bem que o fizessem (os EUA são 5% da população mundial e consomem 25% do petróleo por isso, antes de pensarem nos países em desenvolvimento, pensem neles!!!)
Mas acho que é o aumento do preço do petróleo que vai OBRIGAR todos, desenvolvidos e não desenvolvidos a repensarem o seu desenvolvimento.
Sim, que com teorias a coisa não vai lá!
Felizmente que daqui a meia dúzia de anos vai jorrar petróleo no Algarve e e a minha reforma vai ser dourada....
ehehehheheheheheheheheheheheeheheh
 
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caprylm56 (seguir utilizador), 1 ponto , 10:49 | Segunda feira, 18 de janeiro de 2010
O tal Banqueiro falso amigo
CM84 (seguir utilizador), 1 ponto , 1:47 | Quinta feira, 7 de janeiro de 2010
Caro Nicolau Santos, a minha intervenção deve-se a algo que recordei. O tal Banqueiro, quando presidia ao Totta, mereceu um comentário bastante critico da sua parte, sobre o facto de não "conhecer" os amigos nas horas de aflição.

Na altura, li e pensei ser um comportamento típico de Banqueiro.

Hoje, com as comprovadas amizades, mantidas pelos Banqueiros, mesmo em momentos de "infortúnio", é que vejo como correcto o comportamento de Horta e Costa.

Era só isso. Recordar.

Cumprimentos

 
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O melhor de 2009
CãodaRosa (seguir utilizador), 1 ponto , 9:51 | Quinta feira, 7 de janeiro de 2010
O melhor de 2009 é o cidadão com altura, idade e peso médios, que trabalha todos os dias, ou está desempregado, recebe o ordenado mínimo ou o subsídio de desemprego. Homem de coragem, determinado, ainda tem de pagar os impostos e as multas que os agentes do trânsito e da ASAE lhe aplicam para alcançarem os objectivos que os chefes e os cofres públicos lhe impõem. Outro feito deste português médio é não contribuir, porque é obrigado a consumir pouco, para a necessidade de dois planetas, apontada pelo tal Vilar que deve ser um dos que mais contribui para isso. Os banqueiros, industriais e outros que tais que o autor elegeu, salvo as excepções que confirmam a regra, fazem parte do lote daqueles que nasceram em berço "doirado", ou com o rabo virado para a Lua, como dizem na minha aldeia.
 
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Bravo!
Marco de Salvaterra (seguir utilizador), 1 ponto , 14:47 | Sábado, 16 de janeiro de 2010
BRAVO!!! Nicolau Santos, como sempre.

Que alguém se distinga no "pardieiro" em que transformou a CS.

Continuo a pensar que tem a cabeça a prémio. Os competentes e isentos nunca foram reconhecidos como tal pelos frustrados que proliferam em todos os sectores e, reconhecidamente, no seu que embora corporativo não deixa de olhar de lado para os bons profissionais que não alinham no "bota abaixo".

Apesar disso. quero acreditar que o reconhecimento da sua competência profissional virá um dia ao de cima...

Há alguns directores na CS que o são sem os leitores perceberem porquê, ou melhor: "percebendo"!

Bravo!
 
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