O banqueiro que tem o toque de midas
Passou pela Goldman Sacks, foi o melhor aluno do INSEAD e convenceu Emilio Botín a abrir o Banco Santander de Negócios em Portugal, a que presidiu antes dos 30 anos. Seguiu-se a compra e presidência do Banco Santander Totta. Mas a prova de fogo foi quando em 2006 aceitou a presidência do Abbey em Inglaterra, uma espécie de Montepio. Em três anos, o Abbey passou de sexto para terceiro maior banco inglês, para o que contou com a compra do Alliance & Leicester e do Bradford & Bingley. Num ano em que a banca inglesa registou uma quebra média de receitas de 11%, o Abbey está a caminho de, pelo quinto ano consecutivo, crescer acima dos dois dígitos, tendo ganho o prémio de melhor banco em Inglaterra atribuído pela Euromoney (pela segunda vez) e por "The Banker". Por isso, António Horta Osório foi nomeado administrador não-executivo do Banco de Inglaterra e emerge como o melhor banqueiro português em 2010.
Como nadar com os tubarões e sobreviver
Há 14 anos, só havia uma pessoa que acreditava que uma empresa sediada em São Mamede do Coronado podia vir a produzir um medicamento comercializável a nível mundial. Chama-se Luís Portela, preside à Bial e após ¤300 milhões de investimento, viu amplamente recompensada a sua aposta. A agência norte-americana FDA autorizou a venda do antiepiléptico Zebinix nos EUA e no Canadá. Ainda em 2008, a norte-americana Sepracor ficou com o exclusivo da distribuição para aqueles mercados por 75 milhões de dólares. Seguiu-se este ano um acordo por ¤95 milhões com a nipónica Eisai para comercializar, promover e distribuir o fármaco em 36 países europeus. A facturação da Bial deve passar de ¤150 milhões para ¤450 milhões. E até 2020 o objectivo é lançar no mercado cinco novos fármacos de raiz nacional. Num sector dominado pelas multinacionais, Luís Portela mostra como se pode nadar com os tubarões - e sobreviver.
30 anos depois, eles fintaram o destino
Foram três décadas em que, a cada dia que passava, se tornava mais evidente a necessidade do patronato português ter uma só voz e apresentar-se unido perante o poder político e sindical. Mas foram também três décadas de falhanços sucessivos, em que os protagonistas se foram sucedendo (Pedro Ferraz da Costa, Ludgero Marques, Francisco Van Zeller) e o desânimo também (a última tentativa de criação da CEP - Confederação Empresarial de Portugal envolveu José Roquette e Alexandre Soares dos Santos, mas também falhou). Finalmente, os presidentes das duas maiores associações deram esse passo. Jorge Rocha de Matos, pela AIP, e José António Barros, pela AEP, negociaram discretamente, concordaram na fusão das duas associações a concretizar ao longo de 2010 e convidaram a CIP a aderir. Esta, claro, pôs-se de fora - da decisão e do futuro. Mas os presidentes da AIP e AEP vão passar à história pela decisão que tomaram.
O futuro não é do Ocidente
Uma das mais emblemáticas marcas suecas, a Volvo, foi comprada pelo grupo chinês Zhejiang Geely. Zhejiang quê?! E a Jaguar e Land Rover, marcas que eram o orgulho dos ingleses, pertencem agora à poderosa Tata Motors, um grupo indiano com múltiplos interesses. Por exemplo, Tetley é marca de chá britânico, mas o dono, desde 2000, é a indiana Tata Tea. E a Grundig, essa grande marca alemã? Pois está nas mãos de uma companhia turca, a Koç Holding. Por cá, a angolana Sonangol é o maior investidor do BCP. E a empresária angolana Isabel dos Santos é accionista de referência do BPI, da Galp e, desde a semana passada, da ZON. A cerveja Budweiser é propriedade da brasileira InBev. Os exemplos podem multiplicar-se, mas marcam claramente uma mudança do poder económico a nível mundial. O eixo do poder está a deslocar-se dos Estados Unidos e Europa para os países emergentes como a China, Brasil e, a uma escala bem menor, Angola. A China, como se sabe, é o maior investidor em títulos de Tesouro norte-americanos. O Presidente brasileiro, Lula da Silva, foi eleito o homem do ano pela revista "Time". Na cimeira do clima em Copenhaga foram os representantes da China e Brasil que pontificaram. Os sinais estão por toda a parte e só não vê quem não quer.
Como nós, ocidentais, vamos lidar com esta nova realidade é a grande interrogação para a próxima década. E isto porque o que está em causa não é apenas o enriquecimento dos países emergentes; é também, em contrapartida, o empobrecimento dos países ocidentais.
Se estas duas tendências já conduzirão a tensões, que podem dar origem a conflitos armados, o cenário agrava-se quando a concorrência não é verdadeiramente justa. Ninguém tem dúvidas que muita da produção nesses países é feita em condições laborais que nada têm a ver com as que são estabelecidas por lei para os trabalhadores ocidentais; nem que nesses países o respeito pelos direitos humanos ou pelo ambiente está a milhas dos padrões europeus ou norte-americanos.
Contudo, aquilo que são conquistas civilizacionais de que a Europa e os EUA se orgulham, tornam-se, no quadro da globalização sem regras que vivemos, numa enorme desvantagem competitiva, que está a levar à erosão progressiva desses direitos que tanto custaram a conquistar. Por isso, ou se metem regras a esta globalização, que todos terão de cumprir, coisa que parece impossível; ou não tarda nada as opiniões públicas ocidentais, sob o peso do desemprego e da degradação dos níveis de vida, vão obrigar os governos a tornarem-se mais proteccionistas. Mas em nenhum caso, a próxima década será do Ocidente.
As ideias de Rui Vilar
Pensador desalinhado, politicamente incorrecto, estimulante: é este o retrato de Rui Vilar, presidente da Gulbenkian, entrevistado por Helena Garrido no "Jornal de Negócios". E que falta fazem pessoas assim a Portugal!
Três ideias fundamentais: a primeira é que vivemos inundados por informação mas temos muito pouca sabedoria sobre os problemas de fundo; a segunda é que todo o mundo tem de corrigir os padrões de consumo, incluindo a população chinesa; a terceira é que, mais cedo do que tarde, o barril de petróleo chegará aos 200 dólares, o que mudará radicalmente o tipo de mobilidade que hoje temos.
A primeira ideia é muito interessante. Informação não é conhecimento nem sabedoria. Organizar a informação há-de ser cada vez mais importante no futuro. E não por haver de menos, mas por haver em excesso. Os analistas e fazedores de opinião terão um papel cada vez mais acrescido no futuro - e os jornalistas também.
A segunda ideia vai contra todos os que defendem que não podemos dizer aos países emergentes para não adoptarem o padrão de desenvolvimento que os países desenvolvidos seguiram. O que Vilar afirma é precisamente que temos de dizer a esses países que, também eles, têm de mudar profundamente os seus padrões de consumo, porque o mundo não aguenta. É injusto? É. É quase impossível fazer com que os governos desses países adoptem essa posição? Também é. Mas não é por isso que se deve ignorar o alerta que Vilar sintetiza assim: "Mesmo que toda a gente no mundo tivesse os padrões de consumo de Portugal, eram precisos dois planetas". E, como bem lembra, Portugal é apenas o 37º país do mundo em rendimento per capita...
Finalmente, a terceira ideia tem que ver com o facto de que, apesar das energias renováveis, o modelo de desenvolvimento mundial continua a assentar sobretudo no consumo de combustíveis fósseis, com o petróleo à cabeça, cujo preço explodirá a curto prazo. Isso terá inevitavelmente um enorme impacto sobre o turismo de massas, sobre o sector de aviação, sobre o sector automóvel, limitará e encarecerá o comércio mundial, atingirá o sector de plásticos... As consequências serão brutais e não vão demorar um século, mas uma década. E ninguém está preparado para essa nova realidade.
E Portugal? Pois por aqui vamos ter de poupar mais e consumir menos, de olhar com muito cuidado para o endividamento do Estado, das empresas e dos particulares. Mas também devemos acreditar que há uma nova geração bem mais preparada que a actual, capaz de fazer vingar novas ideias e ter uma abordagem diferente dos problemas. Palavra de Rui Vilar.
Texto publicado na edição do Expresso de 31 de Dezembro de 2009