Algures em Alcântara existe uma mercearia de um imigrante que está aberta até à meia-noite. Nunca lá fui, mas a RTP achou que era relevante e deu espaço em notícia sobre os privilégios de se poder fazer compras até à meia-noite. Lisboa e outras cidades portuguesas são peritas em complicar a vida de quem lá vive. São agora 22 horas de quinta-feira e quando sair do Expresso se quiser ir às compras só tenho como opção sujeitar-me às escolhas absurdas e preços exorbitantes das estações de serviço.
O facto de não aparecerem espaços de comércio abertos 24 horas, ou pelo menos durante maior parte da noite, deveria ser explicado por uma razão: não haver mercado. Houve em tempos um sem-número de lojas 'Extra' que foram desaparecendo. Se houvesse procura em número suficiente haveria supermercados, mercearias e muito mais restaurantes abertos toda a noite. Mas neste caso não é uma questão de falta de procura, mas de destruição legal do mercado. Os impeditivos legais em termos de horários e os custos laborais exorbitantes para quem até arrisca são um exemplo perfeito de como certas leis servem apenas para nos complicar a vida.
As empresas de distribuição querem aproveitar a nova lei laboral para introduzir alterações no horário normal de trabalho para as 60 horas semanais. É possível fazê-lo desde que seja com o acordo da maioria dos trabalhadores. Os sindicatos respondem com greve. Nem lhes passou pela cabeça negociar contrapartidas... nada. Greve na véspera de Natal, que até dá jeito ir mais cedo para casa.
Já o comércio tradicional tem aquela aberração costumeira de fechar sábado à hora de almoço e abrir na segunda de manhã. Durante o fim-de-semana, quando as pessoas têm tempo para ir às compras fecham, ajudando a desertificar os centros da cidade e empurrando as pessoas para os centros comerciais.
E se não fosse suficiente, ainda existe uma lei que restringe os horários das superfícies comerciais com mais de 2000m2. Uma guerra que levou à demissão de um ministro da Economia nos anos 90 (Daniel Bessa), movida pelas associações de pequenos comerciantes. Esta atitude perante o fazer dinheiro é uma guerra geracional onde palavras como inovação e risco estão excluídas. O imigrante, que nada tem a perder e tudo tem a ganhar, está aberto mais umas horas e com isso ganha mais dinheiro.
Faz-se à vida. Outros preferem culpar a crise e os grandes centros comerciais pelas suas próprias escolhas. Felizmente algumas boas apostas vão devolvendo a cidade às pessoas.
Texto publicado na edição do Expresso de 19 de Dezembro de 2009