13/02/2012 atualizado às 1:11
Página Inicial » Opinião » Nicolau Santos » Os gordos somos nós?

Os gordos somos nós?

Nicolau Santos (www.expresso.pt)
0:00 Quinta feira, 18 de março de 2010

Em 2009, houve milhares de empresas que fecharam as portas. As que sobreviveram tiveram a sua facturação reduzida em 20% ou mais. Quase 600 mil pessoas estão no desemprego e muitas famílias viram o seu rendimento disponível diminuir significativamente. Há jovens com cursos superiores e mestrado que só conseguem empregos precários, quando conseguem, a receber entre 100 e 500 euros.

Pois perante tudo isto, é agora pedido a todos os contribuintes uma nova dieta fiscal para reequilibrar as finanças públicas. Em contrapartida, o Estado não fará o mesmo esforço. Quando muito, vai tentar não engordar mais, ou seja, tentará conter o crescimento da despesa corrente primária e não contrair novos encargos, suspendendo alguns dos grandes projectos de investimento público. Mas a dieta do Estado será suave e a redução do défice virá sobretudo do ambíguo congelamento salarial dos funcionários públicos, dos cortes no investimento do Estado e de algumas medidas moralizadoras mas que não contam para o défice, como o congelamento dos salários dos administradores e trabalhadores das empresas públicas, algumas das quais, aliás, já disseram que não cumprirão essa directiva.

A verdade é que o grosso do contributo para reduzir o défice do Estado para 2,8% em 2013 virá sobretudo do aumento da carga fiscal sobre a classe média, não através do aumento de impostos directos ou indirectos, mas da redução dos benefícios fiscais em saúde e educação e de outras deduções à colecta. Vai dar ao mesmo. Os que estudaram mais, os que se prepararam melhor para a vida activa, que investiram no futuro, são os que serão de novo penalizados. O trabalho, a competência, o talento estão a ser convidados a sair do país.

O Governo reconhece aliás isso, mesmo que moderadamente, ao admitir que os contributos para reduzir o défice virão em 51% do aumento da receita (!), 22% das despesas com pessoal, 11% das despesas sociais, 7% das despesas de capital e 9% de outras despesas. O problema é que nestas matérias o aumento da receita é sempre para ficar; a contenção da despesa é sempre provisória e sobe de novo logo que há um pequeno alívio fiscal.

Depois, apertado pelas dificuldades, o Governo lança a mão aos anéis e trata de os vender. O pequeno problema é que a decisão tem que ver com a situação aflitiva em que estamos e não com convicções ou um programa com coerência mínima. Ora há aspectos que talvez valham uma boa discussão. O Estado não deve ser o dono da rede infra-estrutural de energia? O Estado não deve manter uma posição na petrolífera portuguesa? E os correios, podem ser privatizados sem problema? E porque se privatiza tudo mas o sector dos transportes públicos, aquele de onde vem a esmagadora maioria das responsabilidades do Estado (mais de 22 mil milhões), passa sem um programa que o reduza drasticamente?

O PEC foi saudado pela OCDE, provavelmente receberá o ámen da Comissão Europeia e deve ser apoiado internamente. Mas é sobretudo um antibiótico para combater a grave doença de que padecemos. Não só não se atacam os desequilíbrios estruturais do Estado, como não existem nenhumas medidas para apoiar o crescimento económico. E esse é um erro fatal que, se não for corrigido, torna inútil o enorme esforço fiscal que vamos suportar.

O futuro governador


Não quero acreditar que o Governo queria nomear um ex-ministro para governador do Banco de Portugal. Não quero acreditar que o Presidente da República teve de intervir para a ideia ser reavaliada. Não quero acreditar que agora o Governo quer colocar o ex-ministro no banco público e o presidente do banco público como governador, para assim calar a oposição e o Presidente. Não quero acreditar que o Governo não perceba que está a brincar com o fogo. Não quero acreditar que o Governo não saiba que os mercados internacionais têm os olhos postos em nós e que a nossa credibilidade externa passa pelo Programa de Estabilidade e Crescimento, mas também pela autoridade e independência de quem for nomeado para futuro governador do Banco de Portugal. Não quero acreditar que o Governo não saiba que há pessoas que cumprem estas funções muito melhor do que outras. Exemplos: Artur Santos Silva, Miguel Cadilhe, Vítor Bento, António Borges, Sérgio Rebelo, João Salgueiro. Bem sei que o Governo não gosta de algumas destas pessoas. Não gosta sobretudo da sua independência. Mas é bom que perceba o que os observadores externos esperam: um governador independente e prestigiado à frente do Banco de Portugal.

Mais cedo do que se previa


Lá por ter escrito aqui na semana passada que a Galp seria a próxima Cimpor juro que não sou eu o culpado de entretanto se ter sabido que 1) a empresária Isabel dos Santos e a Sonangol estão disponíveis para comprar os 33,34% que os italianos da ENI detêm na petrolífera portuguesa; 2) o Estado tem intenção de vender a sua posição de 7%; 3) os três accionistas estrangeiros, segundo o "Jornal de Negócios", parecem desejar a escolha de um novo presidente-executivo para a empresa, afastando Ferreira de Oliveira, acusado de ser demasiado próximo do principal accionista, Américo Amorim. Ou seja, está montado o caldo para termos tempos turbulentos na petrolífera portuguesa, correndo-se o risco de a empresa passar a ser controlada por mãos estrangeiras. É claro que haverá sempre quem não se importe com isso. E é claro que haverá alguns que acham esse destino preocupante.

O BPI, o BCP e o poder do BES


Desde que tomou posse há cerca de dois anos, a actual administração do BCP não conseguiu inverter a situação em que o banco caiu. A prova está na evolução da cotação bolsista e na degradação da imagem da instituição, vista hoje como um banco tutelado indirectamente pelo Estado. Internamente, a estrutura não reconhece nem respeita a administração, com excepção de alguns dos seus membros. À desmotivação interna junta-se uma estratégia internacional de saída de mercados onde o banco tinha ganho posições. É um quadro que só pode conduzir à lenta mas contínua degradação da posição interna e externa do banco.

O afundamento do BCP desequilibrou o mercado financeiro português. O BES tornou-se o banco do regime, sempre com um pé no poder e outro na oposição (Durão Barroso, Manuel Pinho, Miguel Frasquilho...), parceiro e compagnon de route do Estado e dos governos de plantão, com uma enorme capacidade de influência na sociedade portuguesa, como o excelente trabalho de Cristina Ferreira esta semana no "Público" demonstra exemplarmente.

Esta situação não é boa para a democracia portuguesa. Para lá da actuação dos reguladores, é necessário que no mercado exista um contrapoder nacional ao BES. E ele só pode vir do banco que tem uma liderança completamente independente do poder político, altamente profissional e com provas dadas. É por isso que está na altura certa para voltar a colocar em cima da mesa a fusão amigável entre o BPI e o BCP.

Esta fusão é agora bastante mais fácil. A desvalorização accionista do BCP torna a operação muito menos exigente do ponto de vista financeiro. E as pessoas que estão actualmente à frente do banco não colocam os problemas de integração nessa futura grande instituição financeira que Jardim Gonçalves e os outros membros do seu conselho de administração levantavam.

É claro que não ignoro as dificuldades da operação, que são muitas. Desde há dois anos desconfia-se que os esqueletos nos armários do BCP aumentaram. Alguns accionistas, dependentes financeiramente do banco, vão resistir à operação, com Joe Berardo à cabeça, porque sabem que com os gestores do BPI não terão as facilidades de que hoje desfrutam. E o Governo (o actual e eventualmente os futuros) adora controlar em vez de um banco (a Caixa Geral de Depósitos), dois.

Por tudo isso, não tenhamos dúvidas: o país ganhava em vários tabuleiros se BPI e BCP se fundissem. Têm a palavra os accionistas do banco liderado por Fernando Ulrich.

Uma vez, na rua, cruzei-me
com um apanhador de conchas. Tinha
os olhos feridos pelo sal, as mãos abertas
pelo ácido das marés, os lábios gretados
por versos inacabados. Recitou-me fórmulas
do campo; anunciou-me a verdade de antigas profecias. Olhei para cima: e o céu
continuava azul como se nada se passasse.
Mas ele abriu o cesto das conchas e um movimento de caranguejos mostrou-me
o fundo da existência. Talvez eu estivesse
a falar com um morto; ou as suas palavras
me distraíssem do verdadeiro significado
das coisas. "Para que serve a poesia, afinal?"
E continuou o seu caminho,
para que eu seguisse o meu, como se nunca
nos tivéssemos encontrado.
Nuno Júdice, Coincidência

Texto publicado na edição do Expresso de 13 de Março de 2010

Faça login pelo Facebook e comente este artigo!
Página 1 de 1   
ordenar por:
mais votados ▼
Nicolau Santos
caprylm56 (seguir utilizador), 2 pontos , 10:34 | Quinta feira, 18 de março de 2010
Dieta é só para alguns, veja se a maior parte dos nossos politicos estão bem tratados e alguns até anafados isto de fisíco, porque na carteira isso bem é melhor nem falar.
Hoje constacto que o 25 de abril foi uma grande farsa para o povo, porque para os tubarões ficou bem e até alguns já se tornaram orcas.
Cumprimentos.
 
 Regras da comunidade
Talvez ajude...
lord byron (seguir utilizador), 2 pontos , 16:44 | Quinta feira, 18 de março de 2010
Existe em Portugal um problema na base da nossa economia e todos os outros daí advêm.
O problema é a falta de tecido empresarial!
Não temos empresários ponto final!
Temos merceeiros, micro-merceeiros, mini-merceeiros, e super-merceeiros.
Os últimos que sem dúvida têm dinheiro e posição social, a única ideia que tem de gestão não é boa (empregados mal pagos) nem é original (guerra de preços).
Os outros andam por aí a tentar sobreviver.
Naquilo que sai do âmbito da mercearia temos umas franjas que podem ser lindíssimas para encher artigos de jornal, com frases onde palavras como pró actividade, centros de decisão, ou como a minha favorita “parqueado em veiculo offshore”. Mas em termos de contribuição para o PIB são anedóticas.
Como tal não existe remédio possível!
Eu explico melhor…Quantas palavras é que os esquimós têm para neve?
E os havaianos têm para onda?
E o inglês para empresário?
Pois…nós chamamos ao Amorim e ao Belmiro a mesma coisa que chamamos a Richard Branson… devia dar que pensar…
Temos que decidir o que queremos…Se for turismo…temos que pensar mais longe que praias, sol e golfe. Temos que pensar em noite, jogo, espectáculo e sexo (e não é meia dúzia de brasileiras e uma dúzia de russas ou checas ou ucranianas)
Se queremos secundário temos que ir mais longe que a Autoeuropa.
Se queremos primário …esqueçam o primário. Ninguém em Portugal quer o trabalho, as dores de cabeça e os subsídios para Pageros e Patrol’s estão a chegar ao fim. ...
 
 Regras da comunidade
Independentes... do PSD
Wooden (seguir utilizador), 1 ponto , 10:57 | Quinta feira, 18 de março de 2010
Borges,Bento,Cadilhe ,Salgueiro independentes? Na sua lista nao ha nenhum independente do PS? Ja agora...
 
 Regras da comunidade
É que o
userEX50677 (seguir utilizador), 1 ponto , 11:52 | Quinta feira, 18 de março de 2010
caro Nicolau não faz a mais pequena ideia de quantos engenheiros e outros crânios estão espalhados por essa Europa.

Só na empresa onde eu trabalho aqui na Holanda, estão 5 eng. inf. Portugueses, eu incluído, e dos melhores com quem já trabalhei.

Ganhamos, em média, entre 4 a 5* mais do que em Portugal. Não seria preferível estarmos a contribuir para o nosso país?????

Agora, se contribuir para Portugal é andar mais 7 anos a recibos verdes, prefiro continuar por aqui.

Cumprimentos da terra das tulipas.
 
 Regras da comunidade
Página 1 de 1   
PUB
 
Email
O Expresso no
Arquivo
PUB




Estado, privados e empresas de TI
0:00 Sábado, 11 de fevereiro de 2012, 2
Uma energia feroz e nuclear contra as eólicas
0:00 Sábado, 4 de fevereiro de 2012,
Visões e delírios económicos
0:00 Sábado, 28 de janeiro de 2012,
A Standard & Poor's fez-nos um grande favor
0:00 Sábado, 21 de janeiro de 2012,
Boas e más notícias no reino de Gaspar
0:00 Sábado, 14 de janeiro de 2012,
Leia aqui toda a informação das últimas 24 horas | últimos 2 dias |  anterior »
MBA
Grupo ImpresaACAP