Os discursos inflamados são gostosíssimos, dignos de antologia. José Sócrates dizia no outro dia que tudo faria para lutar contra a corrupção existente e a porvir. Bonito. Uma pessoa quase confia. Claro que tudo não passa de um molhinho de intenções que raramente são verdadeiras porque a corrupção, infelizmente, é uma das principais fontes de rendimento e qualidade de vida da maioria daqueles que lhe poderiam colocar cobro. Não dá jeito fechar a torneira.
Pois, avançando um bocadinho além dos floreados que os corruptores e os corruptos querem dar à questão, há que dizer que um Estado sadio só virá quando os potenciadores de corrupção deixarem de existir, a saber: as golden shares, as nomeações para a administração pública feitas com critérios partidários e os concursos públicos pouco transparentes.
As primeiras, reluzentes aos olhos de todos aqueles que querem tomar nos braços os cordelinhos da nação, são o mais claro tumor da sociedade portuguesa. Uma golden share aqui, outra ali e temos a vida feita, fazendo a vida aos boys costumeiros. As segundas, tão malditas pelos partidos fora do arco e tão esquecidas por aqueles que lhe tomam o gosto, são fonte de corrupção e, além disso, de uma péssima administração pública: instável e incompetente. Se para os altos cargos da nação, nomeadamente direcções de institutos, observatórios e toda essa pantomina bem conhecida, fossem escolhidas pessoas com base no currículo, presentes a júris independentes e que fossem submetidas a verdadeiro escrutínio, lá se perdiam mais umas centenas de lugarejos bons para os senhores das corporações lambe-botistas. Os concursos públicos pouco transparentes são, simplesmente, o derradeiro salto para a promiscuidade entre políticos e empresários. Concursos públicos em que ganham as empreitadas empresas que apresentam orçamentos claramente desfasados da realidade e que, depois de ter o contrato assinado, vão sugerindo, com a aceitação de quem poderia recusar, "acrescentos". Vejamos toda a panóplia de Obras Públicas dos últimos anos, nomeadamente as que tiveram como causa esse grande avanço civilizacional que foi o Euro 2004.
Enquanto não se começarem a dar passos claros no caminho de tornar a máquina do Estado independente, verdadeiramente independente, das estruturas partidárias - à semelhança dos países anglo-saxónicos - e de tornar o Estado completamente livre dos polvos financeiros e das grandes empresas do regime (juro, querido leitor, que não tenho o punho erguido), toda a conversa sobre a corrupção não passará de um mero floreado. Com mais ou menos pinta, mas sempre floreado.