Durante anos queixámo-nos do atraso a que a ditadura de Salazar e Caetano conduziram o país. O 25 de Abril, que retomou a República - ou melhor, a res publica, a condução dos assuntos públicos nas mãos do povo, através dos seus representantes - tinha como desígnios não só descolonizar e democratizar, como também desenvolver.Com mais ou menos traumas, os dois primeiros cumpriram-se. Mas o desenvolvimento sempre foi o calcanhar de Aquiles da nossa democracia. Depois de anos a lastimar o estado em que recebemos o país - pobre, analfabeto, triste, do qual fugiam os melhores - que esperar, agora, do julgamento das gerações seguintes? Como olharão para os nossos tempos?Se forem justos, verão enormes melhorias nos indicadores de Saúde e nas redes viárias. Mas serão benevolentes quanto à Educação? No que respeita à Justiça? Sobre a criação e distribuição de riqueza?As gerações dos nossos filhos, e dos filhos dos nossos filhos, serão, sobretudo, severas em relação ao endividamento que lhes deixamos, dinheiro que, em boa parte, se esfumou em nada. Poderão ter a mesma sensação que historicamente nós temos quando olhamos para o tempo das Descobertas ou, mais recentemente, para o tempo do ouro no Brasil. No futuro, haverá também alguns Jerónimos e aquedutos das Águas Livres, mas a sensação dominante será a do desperdício. A menos que ainda queiramos e saibamos ser diferentes, ser melhores.
O véu francês
Proibir o uso do véu, chador e burqa é uma ideia peregrina. Infelizmente, há quem pense que o Governo de Paris age de acordo com o dever de um Estado laico.A proposta de proibição não passa de um ataque à liberdade individual intolerável. Uma sociedade que admite a maior pluralidade na moda, nos trajos, não pode proibir aqueles que são apenas sinais de diferença. À França pedia-se mais coragem contra o terrorismo e mais tolerância com os que apenas têm usos diferentes.
Governar em minoria
As anunciadas abstenções do PSD e do CDS no Orçamento acabou com o mito da impossibilidade de governar em minoria. O recado que Cavaco Silva dera, ao lembrar que tinha essa experiência, foi bem compreendido.O PS deve estar agora mais preocupado. Sem álibis, cabe-lhe governar, embora limitado pelas oposições. Ganha a estabilidade necessária em tempo de crise. E, se com isso ganhar a transparência, melhor ainda.
Texto publicado na edição do Expresso de 30 de Janeiro de 2010