Primeiro Episódio
Há quarenta anos, os raros programas de TV que faziam o balanço do ano apareciam carregados de fascínio. Arrastavam o imponderável caudal das imagens a preto e branco, durante uma hora, e desse modo passavam em revista o que se sentia já como distante, inocente, fotogénico e único. A compulsão criada pelos media era quase nula. Hoje, esses mesmos programas aparecem carregados de uma redundância enjoativa. Mobilizam o que já havia sido desenterrado reiteradamente, cortando ou alargando partes do fluxo de imagens durante uma hora, como se quisessem anestesiar a nossa memória através de uma banalização galopante. E sem fim. A felicidade poderá assim confundir-se com o estado puro de zapping, com o vaivém, com o torpor.
Segundo Episódio
Nas últimas semanas, o menino Jesus apareceu bordado numa bandeira de cores cardinalíceas em muitas varandas e janelas das nossas cidades. Não são muitas as casas que ostentam estas figurações ternas, pois o povo deixou de ligar às militâncias, mesmo católicas, e prefere o Pai Natal made in China com barbas de nylon a cambalear nos corredores iluminados dos Shoppings. Mas a lição ficou dada: este é o tempo para celebrar o nascimento do menino Jesus, os reis magos e a impoluta manjedoura e não o tempo para apenas consumir os muitos ópios liofilizados do povo. A felicidade poderá assim confundir-se com a alegoria de um menino que passou de deus a humano, passando a dar sentido a tudo. Até mesmo ao belo calor proporcionado pelo calorífero Amstrad que, por acaso, é tipo alogéneo.
Terceiro Episódio
No próprio 25 de Abril também há dedos em riste. O PCP, sobretudo, também decora o país com as suas bandeiras e os seus muitos meninos Jesuses para dizer ao povo que há coisas com que não se brinca. Só que o povo, tão malcriado na Primavera como no Natal, gosta é de saborear os feriados revolucionários com uma bela "ponte" a caminho do Algarve das mil praias e dos Shoppings de segunda classe. Mas a lição fica dada: o PCP imagina que a liberdade é uma coisa que se dá - de cima para baixo - aos pobres mortais e há, portanto, que agradecer aos libertadores o sacrifício e a redenção. O que é que se há-de fazer? A felicidade poderá assim confundir-se com uma nuvem que alguns carregam às costas, como se todos os outros tivessem que nela reparar. Como se todos os outros tivessem, além disso, que a adular.
Quarto episódio
O sol - muito tímido - a esquecer tudo o resto. E há ainda, nestes últimos suspiros de 2009, a buganvília amarelada e, mesmo ao lado, a ameixoeira que agora vive apenas da nudez dos troncos e dos ramos. É como a escrita no osso, tão depurada, sem letras, tão esquecida de si que quase se confunde com tudo o resto. Bom ano novo a todos!