As campanhas eleitorais valem o que valem. O investimento público esteve no centro do debate político antes das últimas eleições. Seria isso que dividiria a direita e o PS. Cá está o Orçamento de José Sócrates, com um corte no tão amado investimento do Estado. Mas há coisas em que a campanha vale a pena. Na última, os funcionários públicos viram, de forma surpreendente, o seu salário aumentado acima da inflação. Agora, que já votaram, devolvem o que receberam. Terão de esperar pelas próximas eleições.
Dirão, com razão, que é preciso ir buscar o dinheiro a algum lado. Algumas ideias. Mesmo depois do melhor ano da bolsa portuguesa dos últimos 12, ficou mais uma vez de fora dos objectivos do Governo a taxação das mais-valias bolsistas. Uma medida prometida pelo PS há quinze anos que esbarra sempre com interesses poderosos. São muitos milhões que ficam por pagar.
Outra boa forma de poupar seria reduzir drasticamente as parcerias público-privadas. Como garantiu ao "Jornal de Negócios" o juiz jubilado do Tribunal de Contas, Carlos Moreno, o Estado não tem, nem parece querer ter, força para resistir ao poder daqueles com quem negoceia. O truque, que empurra as despesas de hoje para o futuro, é quase sempre ruinoso. Um exemplo: o que já pagámos pela ponte Vasco da Gama daria para construir esta e mais duas. E, por fim, não seria mau reduzir a quantidade impressionante de ajustes directos que tantas vezes escondem relações opacas e reduzem a concorrência.
Sim, o rigor é necessário. Para começar, podia-se mudar regras de funcionamento que desbaratam dinheiros públicos. O que já começa a fartar é ver que, na hora de pagar, a factura chega sempre aos mesmos endereços. E isentos de qualquer sacrifício ficam também os do costume.
O véu e a liberdade
O Parlamento francês resolveu nomear uma comissão para debater o uso de véu integral no espaço público. Assunto fundamental, tendo em conta que o niqab e a burka são usados por menos 0,1% das muçulmanas em França. Conclusão: proibir o uso destas vestimentas em edifícios e transportes públicos. Segundo a comissão, não se pode permitir que as mulheres sejam obrigadas a tapar a cara. Sendo impossível determinar as que são obrigadas e as que querem mesmo usar, o Estado determina o que pode e não pode vestir a mulher.
Não tenho qualquer esperança de que aqueles que se dizem amantes da liberdade percebam a contradição de pôr o Estado a determinar como cada um se pode vestir. Espero apenas que percebam qual é, tendo em conta o reduzidíssimo número de mulheres que em toda a França usa o véu integral, o objectivo desta encenação. Não se queixe dos resultados dos seus actos quem faz de uma prática que é excepção entre as mulheres muçulmanas a sua bandeira política pela intolerância. Muito provavelmente muitas muçulmanas que nunca usariam tal coisa terão agora um pouco mais de vontade de o fazer.
É provável que Sarkozy tente ir mais longe e proíba o uso do véu integral em todas as circunstâncias. Será inconstitucional. Um ataque a esse valor que eu gostava de acreditar que ainda é europeu: o da liberdade individual. E essa liberdade individual inclui o direito a ser conservador. Gosto? Nem por isso. Mas a liberdade dos outros é mesmo para defender aquilo que eu não gosto nos outros.
Texto publicado na edição do Expresso de 30 de Janeiro de 2010