13/02/2012 atualizado às 21:30

O Expresso no Afeganistão

Os comandos afegãos, o tenente Najibullah e um exército insustentável

Voltei a Pol-e-Charki, o enorme complexo militar das tropas afegãs em Cabul, e acompanhei um treino de assalto das forças especiais locais, a elite de um exército que no futuro terá sérias dificuldades em se sustentar.

Micael Pereira, em Cabul
19:26 Domingo, 19 de julho de 2009

Nas forças armadas, tal como em qualquer outro sítio onde trabalhe muita gente, há quintinhas e quintais. Da primeira vez que fui ao vasto campo militar afegão de Pol-e-Charki, nos arredores de Cabul, já tinha reparado neles, os homens das forças especiais, lá ao fundo, com umas instalações à parte, longe da confusão dos soldados do exército regular, que costumam se espalhar por todo o lado, encostados à sombra, mal têm oportunidade de sair da formatura. Arraia miúda, pensarão os outros.

Em frente aos pavilhões ocupados pelas forças especiais afegãs, outra coisa tinha-me chamado a atenção: uma fortificação temporária com um grande placar curvo sobre a entrada, onde está escrito "Commandos". Com dois "émes".

Os comandos portugueses que iam comigo (vão a Pol-e-Charki todos os dias fazer a protecção dos oficiais e sargentos portugueses que dão instrução à guarnição afegã) contaram-me que, ao contrário de outras instalações americanas dentro do complexo, aqueles senhores gostam de se manter a um canto e não deixam ninguém das tropas de outras nacionalidades entrar no seu reduto.

Dias depois, o tenente-coronel Costa Santos fez-me uma surpresa: falou com o comandante do batalhão de forças especiais afegãs e o tenente-coronel Asadullah Koshistani, pelas boas relações mantidas com as tropas portuguesas, anuiu em deixar o Expresso aparecer por lá.

As forças especiais afegãs usam também o nome de "commandos", com dois "émes", tal como os americanos com quem têm sido formados. Na sua confortável sala de trabalho, Koshistani impressionou o jovem tenente Brito, dos comandos portugueses (que me acompanhava), pelo seu percurso académico. Além de outros cursos superiores militares, o tenente-coronel de Pol-e-Charki fez o curso avançado de infantaria em Fort Knox, nos Estados Unidos e tem uma visão da guerra que vai além dos aspectos estritamente militares. "Esta não é uma guerra difícil, se for encarada globalmente, ajudando as pessoas a ter meios de subsistência".

Koshistani preparou um número em grande para mim. Fez dois pelotões alargados (estavam mais de 60 homens) alinharem numa parada com toda a pompa e ordenou-lhes que preparassem um pequeno exercício de assalto a um dos edifícios abandonados do complexo de Pol-e-Charki, para demonstrarem como se faz uma operação de cerco e busca.

Foi uma correria. Os homens das forças especiais são mais robustos do que os seus colegas do exército regular e estão mais bem equipados (com metralhadoras M4 oferecidas pelos americanos).

O batalhão de comandos de Cabul tem 750 homens e foi o primeiro a ser criado, há dois anos, estando operacional desde então. Koshistani fez-me o balanço do último ano: 34 acções de combate sem ajuda de tropas estrangeiras, outras 44 em operações conjuntas, 52 acções de cerco e buscas, 9 operações de inteligência militar, 17 suspeitos presos (7 deles bombistas-suicidas), 40 adversários mortos e apenas uma baixa.

Ao todo, o exército nacional afegão (que aqui chamam de ANA, Afghan National Army, em mais uma inspiração americana) tem seis batalhões de comandos, contando ao todo com 4500 homens, para um contingente global de forças armadas que ronda os 30 mil homens. Quando a estruturação do exército terminar, vão haver mais de 130 mil soldados no país, juntando-se a 82 mil polícias para a contabilidade das forças totais de segurança.

Pelo que me têm dito especialistas de vários países que cá estão integrados na ISAF e na ONU, a verdade é que os soldados regulares têm ainda um nível muito baixo de preparação e a esmagadora maioria dos polícias vive de esquemas de corrupção. O quadro não é famoso.

Os amigos ausentes de Najibullah


O tenente Najibullah parece-me fazer parte das boas excepções. Foi a segunda vez que estive com ele. Veio ter comigo, curioso por saber coisas e disponível para contar coisas. Najibullah tem 22 anos e estudou na academia militar. É filho de um coronel que trabalha no Ministério da Defesa. Em Pol-e-Charki, é responsável pela carreira de tiro onde os soldados afinam a pontaria das novas M16.

Todos os cinco amigos de infância de Najibullah abandonaram o Afeganistão e não regressaram mais. Foram para Inglaterra, Canadá, Paquistão. O tenente ficou, mas tem consciência das adversidades que essa opção implica. Não tem muita esperança nas mudanças prometidas pelo governo e pela comunidade internacional. E explica porque é que as pessoas gostam cada vez menos de americanos: "Atiram indiscriminadamente. Há pouco tempo feriram uns civis aqui na estrada em frente".

Como oficial, Najibullah ganha 200 dólares por mês, o dobro de um soldado raso mas menos de metade de um tradutor que trabalhe para a NATO.

Um investigador afegão de ciências sociais que fez os seus estudos em Cambridge, Timor Shaavar, explicava-me horas mais tarde, já depois do jantar num dos restaurantes mais concorridos de Cabul (só com clientes da comunidade internacional), que há contas que ninguém está neste momento interessado em fazer.

Segundo Timor, as receitas anuais do estado afegão não ultrapassam uns parcos mil milhões de dólares. "Multiplique 200 mil salários do exército e da polícia por 100 dólares e veja a que número chega". Dá 240 milhões de dólares por ano, um quarto das receitas do estado. "Como é que vamos poder pagar a tanta gente quando os americanos e os outros todos se forem embora? Digo-lhe uma coisa: quando deixarem de receber, os polícias serão os primeiros a se tornarem criminosos". Foi uma conversa inquietante. No Afeganistão, para um velho problema que acaba, parece haver um novo problema que começa.


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soldados portugueses Cabul
amutenha (seguir utilizador), 1 ponto , 9:58 | Segunda feira, 20 de julho de 2009
Que dignifiquem o nome de Portugal,já que os politicos pouco fazem para isso.QUE Deus os proteja,por-que os
bons
  portugueses rezam por eles.cumprindo o dever que lhe impuseram cheguem sãos e salvos ao aconchego do lar,aos braços dos familiares.
 
 Regras da comunidade
    Re: soldados impuseram???    Ver comentário
kchato (seguir utilizador), 1 ponto , 15:49 | Terça feira, 21 de julho de 2009
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