Um mau desempenho da economia pode ter várias origens. É irrelevante. Na hora de julgar, o julgador ignora as causas e reage às consequências: se estas são más, a culpa é da governação. Este veredicto abrange um grupo heterogéneo de pessoas: os que não vêem, os que não querem ver e ainda os que vêem o que lá não está. Incluo neste grupo os chamados 'bota-abaixo', estejam na oposição ou fora dela. Sócrates que se cuide. A avaliar por amostras recentes, a partir de agora é sempre a abrir.
É notório que o desempenho económico não está a ser bom. E o mais provável é que venha ainda a piorar. As fragilidades da procura interna são óbvias: o consumo, que depende da riqueza disponível, afectada pelo endividamento, não tem espaço para crescer; e o investimento, que depende da produção e das taxas de juro, entrou numa espécie de multiplicador ao contrário - sobem as taxas, investe-se menos, diminui o produto, cai o investimento ainda mais. A culpa? Do Governo, claro.
Mas é do lado da procura externa que o problema se agudiza. É hoje claro que, independentemente da produção, não conseguimos escoar o que produzimos porque não há mercado comprador. As exportações baixam. Mas há produtos de que, qualquer que seja o preço, não podemos prescindir, como é o caso do petróleo. As importações sobem. De tudo isto resulta um défice acrescido, que afecta negativamente a economia. É aqui que surgem as perguntas inteligentes: então e o Governo não faz nada?
Se a actividade económica diminui, devemos preparar-nos para que o desemprego aumente, já que a alternativa seria manter trabalhadores inactivos. E presumo não haver dúvidas de que, num cenário destes, aumentará o défice corrente e de capital, que arrastará o endividamento do país face ao exterior. Não sei se já sabiam, mas as crises têm custos... Enfim, sejamos realistas: há um inimigo que nos entrou em casa sem convite e não temos alternativa a lidar com ele. Que fazer?
Vejamos as respostas tradicionais. Desvalorizamos a moeda, para aumentar as exportações? Não podemos. Baixamos as taxas de juro, para estimular o investimento? É impossível. Reduzimos os impostos, para dar ânimo a empresas e particulares? O défice não permite. Lançamo-nos num vasto programa de despesas públicas, à boa maneira keynesiana, para que seja o Estado a oferecer à economia aquele safanão que os privados não conseguem dar? Seria o estoiro definitivo. Então o quê?
Há um ponto essencial: o Governo tem de manter a cabeça fria. Depois, há pelo menos três coisas que devem ser feitas. Deve ser mantido, até ao limite do possível, o processo de consolidação orçamental. Se, ainda assim, subsistir alguma folga, os recursos devem ser afectados a situações de emergência social.
E, quanto ao tal safanão à economia, só vejo uma hipótese: seleccionar os investimentos reprodutivos, aproveitar os fundos comunitários e desenvolver parcerias público-privadas.
Lamento desiludir os 'bota-abaixo'. O que deve ser feito, no essencial, é aquilo que o Governo está a fazer.
Daniel Amaral