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Os accionistas da nossa preguiça

Interessa menos a um bom português criar uma empresa que proponha um serviço útil do que tentar entrar, através de uma suave e ancestral 'dança com lobos', em algum lado que "dê segurança". 

Luís Carmelo
11:49 Terça feira, 2 de março de 2010

Daniel Oliveira , com o generoso empenho que se lhe conhece de querer desinflamar os males do mundo através de uma justiça quase pura e sem remoques, tem tendência a criar um adversário que simboliza a fonte de todos os males e um conjunto tácito de razões que explicam os aromas do inferno. Nada de mal neste modo de criar diagnósticos. A melhor ficção passeia-se por oposições fixas, guerras entre mundos antagónicos, efabulações carregadas de névoa e redenção. Nada a dizer, pois então.

No seu mais recente texto "Segurança é desemprego, trabalhador é explorador", Daniel Oliveira refere um estudo da OCDE que aponta Portugal como "o país com menor mobilidade social" e conclui, no final do segundo parágrafo, que, segundo os maus da fita ("os nossos liberais de algibeira"), o facto se fica a dever à "sobrevivência de alguns trabalhadores "privilegiados" que ainda têm direitos". Como se em Portugal existisse uma tentação liberal com poder, importância e tradição e como se alguém desejasse com afinco, determinação e sentido último de vida retirar os direitos a quem trabalha.

Não creio que esta fasquia pressuponha um critério sereno (o adjectivo é cordato!). Pressuporá um ambiente manifestatário e alegórico, cheio de curiosos "hossanas" ao norte da Europa (hoje uma sombra do que era, quando vivi na Holanda... nos anos oitenta) e de 'unhas de fora' face a tudo o que seja anglo-saxónico. O sul da Europa, coitado, esse, cheio de maus exemplos, é que estraga tudo. E se ligarmos a Grécia a Portugal a coisa dá choque. De qualquer modo, à parte alguns esquematismos, creio que a falta de mobilidade é muito mais uma questão "cultural" (explicação francesa, dir-se-á) que se poderia sintetizar através do facto de termos sempre sido (secularmente) accionistas da nossa própria preguiça e da nossa falta de iniciativa.

Explico melhor: para um bom português, interessa muito menos o risco de criar uma pequena empresa que proponha um serviço inovador e útil (só criei a minha depois dos cinquenta anos...) do que tentar entrar - através de uma suave e ancestral 'dança com lobos' - em algum lado que "dê segurança" (numa repartição, num politécnico, numa câmara municipal ou num esquema familiarmente assistido). Modos de sobrevivência particularmente estáveis que tanto valem para a filha de um ministro (o que disse eu?) como para o mais incauto morador da Madragoa ou do concelho de Góis. Era verdadeiro o axioma de Vico que referia, na sua Scienza Nuova de 1725, terem as "ideias uniformes, nascidas entre povos que não se conhecem, um fundo comum de verdade".

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