A Ongoing, proprietária do "Diário Económico" e detentora de mais de 20% da Impresa (Expresso, SIC, "Visão"), está a negociar a entrada na Media Capital, dona da TVI.
O negócio tem estado a ser concretizado nos últimos dias, depois de o Governo, no meio de uma tempestade política, se ter visto obrigado a impedir a Portugal Telecom (PT) de comprar aos espanhóis da Prisa 30% da Media Capital (MC).
As negociações estão ainda a decorrer. Mas em cima da mesa, segundo apurou o Expresso, está a aquisição de cerca de 30% da Media Capital, com uma opção de compra no futuro de até 49,9% do capital. O investimento seria de €112 milhões, menos que os €150 milhões que, segundo a imprensa, iriam ser pagos pela PT. O financiamento será, em princípio, assegurado pela Caixa Geral de Depósitos (CGD) e o BES, um banco com o qual a Ongoing - accionista da Espírito Santo Financial Group (2%) - costuma trabalhar.
José Eduardo Moniz, ao que tudo indica e tal como estava previsto na versão inicial do negócio entre a Prisa e a PT, deverá sair da direcção-geral da TVI. Moniz, um trunfo do canal de Queluz, será no entanto puxado para a administração da Ongoing, e pode mesmo vir a representar a empresa da família Rocha dos Santos na MC e em outros negócios internacionais do grupo liderado por Nuno Vasconcellos.
A Ongoing, 5º maior accionista da PT (6,7%), está a estudar o lançamento de um jornal económico no Brasil e tem mostrado interesse em Angola, onde o grupo Económica estabeleceu algumas parcerias de conteúdos com grupos de imprensa locais. Aliás, contratou recentemente Fernando Maia Cerqueira, ex-director da Lusa e fundador da JLM & Associados, para administrador da Ongoing Media, com o pelouro do internacional.
Contactada pelo Expresso, a Ongoing garante que não está a negociar qualquer financiamento para a compra da MC, e sublinha que sobre a questão da TVI mantém a mesma posição que tinha há cerca de um mês. "Para a Ongoing não faz sentido ter uma participação financeira na MC, uma vez que já temos 20% na Impresa", disse então ao Expresso Rafael Mora, vice-presidente da Ongoing.
"Só estaríamos interessados em discutir a eventual entrada na MC se estivesse em causa uma posição de controlo (+ de 50%), se o preço fosse aceitável e se tivéssemos capital para investir", acrescentou. Ontem, sexta-feira, remeteu de novo para esta declaração, dizendo que nada se alterou desde essa altura. O grande interesse da Ongoing, esclarece, seria ter uma posição mais activa numa parceria com a Impresa. "Não nos desinteressámos da Impresa. É um investimento importante. A Impresa tem um dono, o dr. Balsemão, que respeitamos muito. Por isso, não podemos aspirar a ter o controlo, mas apenas uma parceria de controlo", esclareceu.
Sobre eventuais futuros conflitos de interesse entre a manutenção simultânea de participações em dois grupos de media (Impresa e MC), Mora afirma que a questão não se coloca neste momento e que não vale a pena especular.
Com graves problemas financeiros às costas - uma dívida de quase €5 mil milhões -, a espanhola Prisa há muito que revelou o seu interesse em reduzir a exposição ao mercado português, mostrando, porém, intenção de manter uma posição de controlo na Media Capital.
O negócio com a PT, conhecido nos circuitos restritos do Governo desde o início do ano, acabou por morrer às mãos do primeiro-ministro, no final de Junho passado, depois da oposição ter acusado o Executivo de querer controlar editorialmente a TVI e afastar Moniz e Manuela Moura Guedes do canal.
"O Governo não quer que haja a mínima suspeita de que a compra de parte da TVI se destina à alteração da sua linha editorial", disse José Sócrates, quando justificou que iria pedir aos representantes do Estado na PT para chumbar o negócio.
A entrada da PT na TVI seria uma pirueta de 180 graus na estratégia da operadora face aos media. Mas justificada pelo presidente da empresa, Zeinal Bava, como um investimento estratégico, devido à aposta do grupo no MEO.
Texto publicado na edição do Expresso de 1 de Agosto de 2009