Entidades internacionais (OCDE, FMI, UE) e nacionais (Banco de Portugal), e empresários nacionais e estrangeiros pediam há muito tempo uma reforma laboral que aproximasse a realidade portuguesa da média europeia. Portugal estava no mercado único europeu mas tinha uma lei laboral à la Havana. Ora, depois da troika e do acordo da semana passada, apenas duas entidades resistem a este facto: a nebulosa de extrema-esquerda (CGTP, PCP, BE) e as redacções. Não por acaso, o espaço público português continua a analisar este assunto através da vulgata marxista: se uns ganham, ora essa, outros perdem. No meio deste jogo de futebol, a malta esquece uma coisa: e a força das empresas portuguesas no quadro europeu? E como é que Portugal pode voltar a ser atraente para as Auto-Europa desta vida? No dia-a-dia mediático, este pensamento estratégico e patriota (que até está centrado na capacidade de atrair empresários estrangeiros) é sempre esmagado pelo jogo de futebol marxista aqui do burgo: os maus (patrões tugas) vs. os bons (os trabalhadores tugas).
As redacções deste jogo de futebol são as mesmas redacções que não conseguem criar uma linha de comparaçao entre as leis portuguesas e as leis de outros países europeus. Um exemplo: a média de indemnização na Europa está entre os 8 e 12 dias por ano de trabalho. E até existem países que nem sequer têm este limite mínimo. Nós, com a nova lei ultramegaliberal, ainda teremos 20 dias por ano (x12). Ora, como não existe este esforço pela busca de factos que comparem Portugal com outros países europeus, a narrativa dos nossos média fica presa num sufocante provincianismo, que nem sequer chega a Badajoz, quanto mais a Berlim, Amesterdão ou Copenhaga. Porquê? Bom, a julgar pelo que tenho lido e ouvido, parece que as leis laborais destes países do Norte são, ora essa, "retrocessos civilizacionais". E é aqui que está o provincianismo: a malta vê um regresso a Salazar onde existe apenas uma europeização de Portugal. É assim a esquerda portuguesa, sempre dependente do fantasma de Salazar.
Depois, as redacções que não comparam as leis de Portugal com as leis de outros países europeus são as mesmas redacções que se calam perante as acções dos partidos de extrema esquerda e dos sindicatos. Por exemplo, ninguém quis ver que o BE já aplicava um dos princípios do novo código laboral. Sim, é verdade
. Em 2011, o BE conseguiu metade dos votos de 2009, logo, está a receber metade da subvenção anual (menos 68 mil euros por mês). Resultado? O BE teve de despedir pessoas. Dos 80 funcionários, 20 foram despedidos, porque simplesmente deixaram de ser necessários, porque o seu posto de trabalho desapareceu (há menos deputados). Ora, é precisamente esta elasticidade que está presente na nova lei laboral. Perante uma mudança económica ou tecnológica que acaba com posto de trabalho x, a empresa deve ter a liberdade para dispensar o funcionário de x. Como é que as coisas eram até hoje? Se aquela pessoa fosse do famoso "quadro", mais valia deixá-la estar, porque era demasiado caro despedi-la. Resultado final desta história? As empresas e o próprio Estado começaram a recorrer aos recibos verdes como forma de contornar esta rigidez de fundo. É assim tão difícil perceber isto? É assim tão difícil pensar como um empresário? Ou pensar como um empresário é fascismo intrínseco? Ok, se não conseguem pensar como um empresário, então pensem como a direcção do BE, que foi uma precursora do novo código laboral.