Passaram oitenta anos desde o grande crash bolsista, uma das principais causas da Grande Depressão de 1929. Dez anos depois, deu-se início à Segunda Guerra Mundial. O mundo ficou dividido em dois grandes blocos. Um apoiado nos EUA. Outro na URSS. Tanto no bloco comunista, por ideologia, como no da economia de mercado, pelas destruições causadas pela guerra, a intervenção do Estado foi fundamental. Durante cerca de 25 anos, a teoria económica de Keynes, que tanto sucesso teve na fase pós-Grande Depressão, reinou.
Na década de 70, a forma de pensar economia no mundo ocidental alterou-se. Friedman defendeu uma interpretação diversa da de Keynes. Para ele, "a Grande Depressão, tal como outros períodos de acentuado desemprego, foi responsabilidade mais da má gestão de governos do que da instabilidade do sector privado". O free market encontrara um profeta. Reagon e Thatcher foram dois dos seus apóstolos. Desregularam mercados. Reduziram impostos. Atacaram sindicatos. A felicidade dos povos passou a assentar no consumismo gerado por uma iniciativa privada deixada a funcionar com o mínimo de regras. Crédito enfiado em doses industriais pelas goelas dos incautos, mas gulosos, cidadãos.
Muita coisa mudou nestes oitenta anos. A mais significativa foi a queda do Muro de Berlim, que celebra vinte anos. No BERD constatei como a "venda apressada", às vezes despudorada, do free market aos completamente impreparados países além-muro, produziu verdadeiras catástrofes económicas, financeiras, ambientais e sociais.
Oitenta anos depois da Grande Depressão e vinte após a queda do Muro, o mundo, diferente e menos fechado, vive deprimido com os efeitos de uma nova grave crise. PIB com reumatismo. Investimento privado engripado. Bancos falidos. Poupanças destruídas. Desemprego galopante. Famílias na miséria. Défices públicos e endividamentos preocupantes. Assustados, os liberais políticos e agentes empresariais, como de costume, aconchegaram-se à protecção do Estado. Falou-se novamente de Keynes. Prometeram-se mudanças na forma de gerir e controlar a economia e supervisionar as empresas. Mas tardam.
No que se refere ao tecido empresarial, a actual crise ainda não provocou mudanças visíveis nas formas de gerir, avaliar e supervisionar. Nem apareceram pensadores com novas ideias. A avaliação da performance das empresas não conseguiu desligar-se da montanha-russa do curtíssimo prazo diário do sobe e desce das cotações. A supervisão interna continua com dificuldades em meter a mão onde quer e deve. Os modelos de governo não alteraram o paradigma actual da genuína independência e efectiva actuação dos denominados membros independentes. As exigências dos supervisores são pouco acarinhadas. O trade-off entre a manutenção de empresas sem futuro, mas pesadas em postos de trabalho, e a utilização desses recursos para uma verdadeira modernização de um tecido empresarial voltado para o século XXI, nem sempre é privilegiado.
Sem mudanças nas verdadeiras áreas prioritárias da economia, finanças e gestão, nem todas simpáticas, geradoras de votos e manutenção de lugares, dificilmente se conseguirá o objectivo de um crescimento sustentado. Mas cuidado, pois uma nova e mais violenta crise não esperará oitenta anos. Nem vinte.
Texto publicado na edição do Expresso de 14 de Novembro de 2009