Chegámos ao limite. A incompetência é aturável, a inabilidade para lidar com a crítica também. O que não é aturável em democracia é uma tentativa - e concretização em alguns casos - de silenciamento de opositores através dos instrumentos do poder. Se o conteúdo das escutas for verdadeiro, e até agora ele ainda não foi desmentido, foi isto que José Sócrates fez: utilizou os meios do Estado para calar quem ousava levantar-lhe a voz, num esquema nunca visto no Portugal democrático.
Podemos questionar se a forma como tomámos conhecimento de tudo isto foi a mais correcta. Mas não podemos, de todo, colocar a discussão sobre as questões formais acima da discussão sobre o conteúdo das escutas. A substância é assustadora. Um esquema como aqueles não seria para uma legislatura, não seria para um momento. Caso tivesse sido tudo concretizado e nunca tivéssemos tido conhecimento sério do que se passava, aquele esquema levaria a que toda a comunicação social relevante no país estivesse sob a alçada de um restrito grupo que dominaria toda a informação. Teríamos uma berlusconização de Portugal.
Não é tempo para complacências. Não sei como é que ainda temos comentadores a conseguir relativizar a questão e a conseguir dormir de noite. Cruzar os braços perante isto é desistir da Liberdade num país que a teve a muito custo e durante escassos períodos de tempo. Cruzar os braços significa legitimar a tentativa doentia de um homem controlar o pensamento de todos - opositores e apoiantes.
Cabe-nos a nós, cidadãos, agir dentro dos nossos meios. Através de textos como este, declarações públicas, manifestações de rua, cartas aos organismos internacionais, o que for. No entanto, enquanto cidadãos, não podemos cumprir a mais premente das tarefas: demitir o Primeiro-Ministro e o Governo que lhe foi cúmplice. Isso cabe ao Presidente da República. É tempo de Aníbal Cavaco Silva fazer aquilo para que foi eleito: garantir as liberdades do povo português. Se Aníbal Cavaco Silva não agir, se não demitir o governo, não será merecedor da confiança dos portugueses. Se o Presidente da República não demitir o Primeiro-Ministro, estará a legitimar o que ele fez, estará a ser igual a ele. Meço o peso de cada palavra que uso. Se Aníbal Cavaco Silva não demitir o governo, será um cobarde e um reles cúmplice desta gente que nem gente é.