O novo Presidente americano perdeu uma oportunidade política de se comparar a Franklin D. Roosevelt na forma de combater uma Grande Depressão. "Obama
decidiu dar prioridade política à questão do plano de saúde - que não nego ser importante para a América - em vez de se concentrar, logo no começo do seu mandato, na questão da crise. Perdeu uma oportunidade", afirma o economista francês Jacques Sapir, que esteve, esta semana em Lisboa, para apresentar a tradução de um seu livro intitulado 'Os Buracos Negros da Ciência Económica'.
A inversão de prioridades por Obama permitiu ao sector financeiro "reorganizar os seus grupos de interesse" e paralisar a necessidade de uma regulação urgente. "Se compararmos com o que fez Franklin D. Roosevelt em seis meses, logo após ter tomado posse em Março de 1933, Obama sai mal na foto", enfatiza o economista, que reclama a falta de uma regulação rápida e cirúrgica do sector financeiro ligado à Wall Street.
Entre as medidas que deveriam estar na lista de prioridades americanas, Sapir coloca a reintrodução da Lei de 1933 conhecida por Glass-Steagall, o apelido dos seus dois proponentes, que disciplinou o sector financeiro saído da Grande Depressão de 1929/1932. Esta lei foi sucessivamente revogada nas suas partes fundamentais em 1980 (no mandato de Carter) e em 1990 (no mandato de Bill Clinton). Segundo muitos economistas, incluindo Sapir, a sua manutenção poderia ter evitado a germinação das crises financeiras posteriores a 1980 engendradas pela convergência de uma série de novos instrumentos e práticas financeiras, que levaram ao limite a alavancagem e especulação . Adicionalmente, Sapir advoga uma regulação em mercados de commodities invadidos actualmente pelos especuladores financeiros.
A gestão da crise foi ad hoc
O economista francês, na longa entrevista que concedeu ao Expresso, é demolidor sobre a forma como a emergência da crise e o pânico financeiro foi gerido em 2008 pela equipa responsável pela política monetária e orçamental no período da Administração W. Bush. "Eles geriram a crise ad hoc, no dia-a-dia. Perderam a oportunidade de agir estrategicamente desde o princípio. A estratégia dissolveu-se na táctica", critica duramente Sapir.
O economista aponta a dedo o duo gestor da crise, Ben Bernanke, Presidente da Reserva Federal (o banco central), e Henry Paulson, secretário do Tesouro (o equivalente ao nosso Ministro das Finanças). Não se aperceberam da gravidade do que se estava a passar desde o colapso da Bear Stearns e cometeram o erro capital de largar a Lehman Brothers, o que viria a gerar o pânico financeiro à escala global.
O economista francês escreveu logo a seguir a este acontecimento de um domingo de Setembro de 2008 um artigo arrasador avisando para as consequências da decisão de Paulson e Bernanke. Classifica mesmo a decisão de deixar cair o Lehman Brothers como uma "aposta" de Paulson, que se veio a revelar mal-sucedida.
Pico do pânico na Wall Street
Sapir foi dos poucos que, no meio do pânico e da confusão que se seguiu, prognosticou o que se seguiria. "Aqueles dez ou doze dias revelaram a total perca de liderança política em Washington sobre o que se estava a passar. A liderança esteve ausente num momento crítico!", acusa. Parte do problema radicava nas próprias convicções ideológicas de Paulson e na expectativa em que Bernanke, que conhecia perfeitamente a dinâmica das Grandes Depressões (ele próprio um académico estudioso da Crise de 1929/33), ainda se colocou no pico do pânico "quando a Wall Street sabia perfeitamente a gravidade do que se estava a passar ". E outra parte, sublinha o economista francês, foi politiquice durante a campanha eleitoral presidencial com a agravante de grande parte dos republicanos no Congresso chumbarem a condução "intervencionista" de Paulson.
De todo este processo de gestão da crise pelos bancos centrais, Sapir reforça uma convicção que já manifestava em 2000 no livro que, agora, veio apresentar a Lisboa. "A independência formal dos bancos centrais não sobreviveu à crise, provou ser uma falácia. E o afunilamento da sua política a uma única variável económica, a inflação, é um erro. Não pode haver, apenas, um alvo e uma única arma, as taxas de juro. Tem de ser uma política que lança mão de vários instrumentos, e que se centra em quatro alvos: a inflação, sem dúvida, mas também o nível de desemprego, a taxa de câmbio e a questão do risco sistémico".
A solução, defende, é reforçar o poder da política monetária, com capacidade de intervenção mais alargada, mas sem estar completamente na mão de banqueiros centrais independentes. Uma das suas propostas passa, por exemplo, por permitir ao Governo financiar-se junto do banco central à mesma taxa de juro dos bancos.