Os europeus gostam tanto de Obama que não tinham reparado que cada vez menos americanos gostam dele. Os conselheiros principais do Presidente e o próprio Presidente reparavam - as sondagens; as tea-parties; a perda do governo de Nova Jersey - mas achavam que muitos descontentes voltariam à razão antes das eleições de Outubro para o Congresso. Obama e os seus eram tão sabedores e bem intencionados que o povo com certeza lhes renovaria a confiança.
Na véspera do aniversário da posse de Obama a conquista por um republicano desconhecido da vaga de senador aberta pela morte de Ted Kennedy fez estremecer o Partido Democrático, desde a Casa Branca a obscuras Secções de província. Se no Estado mais à esquerda dos Estados Unidos, tal catástrofe era possível, que iria passar-se em lugares centristas que em 2008 haviam escolhido Obama e vão votar em Outubro? Dentro do partido as recriminações começaram, com a directora da campanha da candidata democrata batida no Massachusetts e a Casa Branca a acusarem-se mútuamente da culpa da derrota.
Os democratas, muito variados em raça, fé e ideias, são mais difíceis de focalizar e dirigir do que os republicanos, quase todos brancos cristãos de direita, mas, da mesma maneira que o responsável pelo triunfo de há dois Outonos foi Obama, é ele o principal responsável pela derrocada actual. A calma exemplar da sua campanha presidencial, pairando acima da agitação dos rivais, que tanto apreço dos eleitores lhe trouxe, não lhe tem valido nas guerras impiedosas da governação. Enquanto Reagan e Clinton culparam sem hesitação os respectivos predecessores pelo estado em que encontraram o país Obama não teve uma má palavra contra George W. Bush. Insistiu durante meses no Congresso em aliciar o Partido Republicano a fazer alianças que estreitassem o fosso aberto desde o fim da presidência de Bill Clinton mas fê-lo soltando demais a rédea ao seu próprio partido e nenhum republicano votou pelo plano de saúde democrático; a América continua rancorosamente dividida. Os americanos vêem nele um ser distante, à vontade entre élites intelectuais mas alheio ao que sente o geral das pessoas, que não cuidou de explicar o plano de saúde ao público; esperou três dias até falar aos país sobre o atentado da Al-Qaeda contra o avião de Detroit no Natal e por aí fora. Os seus muitos dons e virtudes são esquecidos. Por todo o país uma direita ignorante e racista difama-o e parte da esquerda, frustrada e raivosa, deixa-o cair.
Reagan e Clinton enfrentaram Congressos dominados pela oposição mas cada um à sua maneira soube vencê-la, fez da sua presidência um sucesso e deixou o país melhor do que o tinha encontrado. Há um ano Obama era imbatível. Hoje há quem duvide que tenha instinto que dê para governar os Estados Unidos. Mas há ainda muita gente com fé nele - e talvez o discurso do Estado da União na quarta-feira, eloquente, decente e sensato, tenha começado a repor a sua presidência na calha.
José Cutileiro
Texto publicado na edição do Expresso de 30 de Janeiro de 2010