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O camarada João Mesquita

O João foi um dos homens sérios que conheci. Não conheço assim tantos, infelizmente. Foi sério até à sua própria exaustão, prejudicou-se de ser sério, foi inflexivelmente sério. O João foi um dos homens de carácter que conheci.

Henrique Monteiro
11:58 Quinta feira, 12 de março de 2009

Morreu o jornalista João Mesquita. Morreu o amigo e camarada que me acompanhou e que eu acompanhei desde os meus 17 anos. Primeiro numa luta juvenil contra a ditadura e a guerra colonial e por uma revolução impossível com uma ideologia esquerdista e irresponsável; depois, a partir do momento em que ambos rondávamos os 20 anos, no estágio e no primeiro emprego como jornalistas e, mais tarde, na direcção do Sindicato; por último, como profissionais, como homens com ideias diferentes, mas cumplicidades imensas. Como homens, que se respeitam como homens livres.

O João foi um dos homens sérios que conheci. Não conheço assim tantos, infelizmente. Foi sério até à sua própria exaustão, prejudicou-se de ser sério, foi inflexivelmente sério. O João foi um dos homens de carácter que conheci. Um carácter amistoso de bon vivant à mistura com uma humildade republicana e laica de revolucionário. O João era uma contradição, daquelas boas contradições que nos dizem que um ser é tão livre que derrota as prisões e os preconceitos. Não seria possível compreender inteiramente o João sem entender o seu percurso, uma vez que toda a sua vida breve (faleceu com 51 anos) foi feita de amizades e cumplicidades que o marcaram, ao mesmo tempo que de acções suas que marcaram os que o foram rodeando.

Comecei a trabalhar no mesmo dia e no mesmo jornal - 'A Voz do Povo' - que o João Mesquita. Aliás fôramos os dois convidados, após o jornal romper com a UDP, para reforçar os quadros redactoriais. Experiência? Tínhamos a do Movimento Associativo. Andáramos os dois a fugir da polícia (e a ser uma vez presos por ela) e a fazer conspirações mais ou menos pueris - de que fizeram parte a tentativa de raptar um informador da PIDE no movimento estudantil, ou a libertação de um estudante preso, comité onde ambos servimos às ordens de Nuno Crato. O Director do Jornal era, na altura, João Carlos Espada, que o comandava com 24 anos, e os chefes de redacção eram José Manuel Fernandes e Nuno Pacheco. Somos todos amigos, hoje, e sei bem como todos sentimos a morte do João.

Claro que o jornal faliu. Mais tarde, consegui um emprego na delegação em Lisboa de um vespertino do Porto, propriedade do 'Jornal de Notícias' - o 'Notícias da Tarde'. Passados uns meses, quando soube que o meu chefe - e mestre da tarimba, Fernando Antunes - , precisava de um repórter parlamentar, propus-lhe o Mesquita. Ele desempenhou essas funções com qualidade e originalidade e penso que foi aí que, verdadeiramente, ele foi reconhecido como bom e sólido jornalista que foi.

Passámos ambos para o 'Jornal de Notícias', de onde eu segui para 'O Jornal' e ele, anos depois, para o 'Público'. A sua carreira passou, ainda, pelo 'Independente' e por colaborações em diversos jornais, as últimas das quais aqui no Expresso, onde ainda há um mês (14 de Fevereiro) publicara um texto no Actual. Hoje mesmo, iria fazer uma reportagem para o mesmo caderno...

Fui também eu que propus ao José Pedro Castanheira o nome do João Mesquita para a Direcção do Sindicato. O João entrou como secretário e foi exemplar. Nessa época, como, anos depois, nos tempos em que ele próprio foi o presidente do SJ, o Sindicato ainda era uma força independente e irreverente comandada por jornalistas. O João, que presidiu de 1989 a 1993, vinha de uma tradição de presidentes como Cáceres Monteiro, Cesário Borga, José Pedro Castanheira, que conferiam respeitabilidade e responsabilidade à associação, muito longe da burocracia de jornalistas cinzentos em que se tornou hoje em dia.

O João não pensava como eu, nunca o escondemos um ao outro. Mas era tolerante como só pode ser tolerante quem vinha de uma família que pensava o contrário dele. Nascido em Coimbra (e exaltado adepto da Briosa, tendo escrito uma excelente história da Académica), veio cedo para Lisboa e, ainda rapazes, em casa dele, via coexistirem os posters de Mão Zedong com cartazes de Freitas do Amaral (o seu irmão era feroz apoiante do recém-criado CDS). O seu pai, o já falecido Conselheiro Costa de Mesquita, chegou a ser do Tribunal Constitucional, indicado pelos centristas. Mas nada disto atrapalhava o João, nem as minhas 'reaccionaradas', como ele lhes chamava. 'És um reaccionário porreiro', disse-me ele há uns anos... E eu respondi-lhe 'E tu és o melhor esquerdalho do mundo'.

Dávamo-nos bem. Éramos amigos, profundamente amigos, e hoje só lamento o tempo que tive para estar com ele e não estive, a possibilidade que tive de falar mais com ele e não o fiz.

A vida e a família (o João era casado com Clara Vasconcelos, também jornalista, e deixa uma filha com 10 anos) afastaram-nos, mas nunca quebraram os laços solidários dos conspiradores juvenis.

A morte tenta cortar esse nó, mas eu, que ao contrário do João sou crente, tenho esperança de ainda o encontrar algures.

Deus gosta muito mais de pessoas como o João, do que daqueles que apenas sabem utilizar o seu nome para pedir desculpa pelo mal que fazem aos outros.

E o João nunca, mas nunca, fez mal a ninguém. Pelo contrário, deixa um rasto de amigos em todas as latitudes possíveis.

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João Mesquita (1957-2009)

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João
felicidade (seguir utilizador), 1 ponto , 13:52 | Quinta feira, 12 de março de 2009
A voz do povo continua viva porque as sementes foram muitas e de boa qualidade. Obrigada.
 
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    Re: João    Ver comentário
Renato Albuquerque (seguir utilizador), 1 ponto , 14:01 | Quinta feira, 12 de março de 2009
Obrigado Henrique
pedro castano (seguir utilizador), 1 ponto , 14:05 | Quinta feira, 12 de março de 2009
Por tudo o que fizeste por ele e por estas palavras. Daqui de cabo Verde as lágrimas não param e sei que ele detestaria isso. De facto morreu o camarada João Mesquita e nada supera essa dor. Só lembrando-o como ele era é que podemos ser justos e os jornais não foram justos para com ele!
 
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    Re: Obrigado Henrique    Ver comentário
Henrique Monteiro (seguir utilizador), 1 ponto , 15:39 | Quinta feira, 12 de março de 2009
    Re: Obrigado Henrique    Ver comentário
enguiço (seguir utilizador), 1 ponto , 1:18 | Domingo, 15 de março de 2009
    Re: Obrigado Henrique    Ver comentário
pedro castano (seguir utilizador), 1 ponto , 1:38 | Domingo, 15 de março de 2009
Ainda existem homens sérios ...
CãodaRosa (seguir utilizador), 1 ponto , 14:41 | Quinta feira, 12 de março de 2009
Felizmente que ainda existem homens sérios e com carácter, a todos presto a minha homenagem. Sou da geração do jornalista João Mesquita, também me envolvi nas lutas estudantis contra a ditadura e contra a guerra colonial, por uma melhor justiça social, por isso um BEM HAJA ao autor pelo seu texto.
 
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Deixar boa memória
flyboy (seguir utilizador), 1 ponto , 15:06 | Quinta feira, 12 de março de 2009
Sou da geração do Fernando Antunes e ex-combatente na Guiné. Embora politicamente distante desse jornalista,que não conheci --embora também anti regime salazarista,mas nunca comunista --,aprecio pessoas que entendem e aceitam gente que pensa de maneira diferente.É o caso dele e destes comentadores..Bom seria que os actuais jornalistas seguissem esses preceitos.
 
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As palavras que tinham que ser ditas
Francisco Amaral (seguir utilizador), 1 ponto , 18:10 | Quinta feira, 12 de março de 2009
Obrigado Henrique.
Estas eram as palavras que tinham de ser ditas neste momento. E que sentidas são ... Por todos os que conhecemos e convivemos com o João e por aqueles que lamentam não terem tido mais tempo para o fazer.
 
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O João, a Académica e a sensatez
popos (seguir utilizador), 1 ponto , 18:48 | Quinta feira, 12 de março de 2009
Fui um dos muitos jornalistas que tiveram a honra de ser amigo do João Mesquita. Trabalhei com ele n´O Independente e com ele aprendi muito. Sobretudo a gostar da Académica. Mas aprendi algo que me serviu, muitas vezes, de orientação - a sensatez.
Creio que nunca lhe disse isto, mas o João era um exemplo de profissionalismo e de sensatez. Admirava-o muito e todos vamos sentir muito a sua falta. Sim, porque há pessoas que são mesmo insubstituíveis.

Pedro Guerra
 
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Homenagem sentida
Malekas (seguir utilizador), 1 ponto , 21:38 | Quinta feira, 12 de março de 2009
Partiu um dos poucos Jornalistas. Sim, escrevi bem. Poucos. Íntegro, sério, vertical, fiel aos príncipios que devem reger a vida em comunidade, solidário, mesmo com aqueles que ideologicamente se encontravam nos antípodas. Hoje o panorama é bem mais sombrio e tristonho. Vivemos na época dos free lancers, dos miuditos e miuditas instrumentalizados e manipulados a que tudo se sujeitam por uns míseros cobres que, a bem dizer, nem um prato de lentilhas conseguem comprar. Deixo aqui a minha singela homenagem ao Homem que não só dignificou a sua profissão, como também a condição Humana. Até sempre João. E bem hajas por tudo o que nos transmitiste.
 
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O camarada João Mesquita não vai pró céu.
ilumimado (seguir utilizador), 1 ponto , 22:01 | Quinta feira, 12 de março de 2009
Jornalista que lutou contra a ditadura e contra a guerra colonial, por uma melhor justiça social, não vai para o céu, porque aí está gente de maus fiados. Tipos, que com dinheiro pagaram bulas, e compraram lá um lugar. Não, ele não merece ir para o céu, deve ficar connosco, dentro dos nossos corações: No coração da sua família, dos seus amigos e dos seus admiradores. Só depois de todos nós morrermos é que ele parte. Não me perguntem para onde, porque eu também cá não estarei.
 
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O João Mesquita
cbarros (seguir utilizador), 1 ponto , 10:05 | Sexta feira, 13 de março de 2009
Conheci o João sendo ele membro da Direcção do MAEESL, eramos todos idealistas convictos, com sede de Justiça e Liberdade. O tempo e as mudanças organizacionais geográficas e políticas foram-nos afastando, nunca deixei de acompanhar o sucesso destes meus camaradas, como o João Mesquita, o António Costa Pinto o Rui Gomes, confesso que não me lembro do Henrique...., que todos merecem pois a todos a sociedade deve algo.
Hoje todos nós ficamos mais pobres, um homem sério amante da Liberdade e da Justiça deixou-nos . Que descanse em paz. A todos os familiares apresento as minhas condolências.
Ao Henrique o muito obrigado pelo exclente artigo
 
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Até sempre, querido amigo
enguiço (seguir utilizador), 1 ponto , 1:13 | Domingo, 15 de março de 2009
E que consolo?! - um dia depois do enterro - ver o João retratado por alguém que, apesar da discordância ideológica, parece apreciá-lo como jornalista, como ser humano. Ao Henrique Monteiro - a quem invejo a sorte de ter privado com o João bem antes de mim - o obrigado de uma camarada de profissão (no desemprego!) mas sobretudo de uma amiga do João, para quem todas as omenagens são poucas e tardias!!!
 
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CENSORES!!!
GUERRILHEIRA (seguir utilizador), 0 pontos (Despropositado), 22:29 | Quinta feira, 12 de março de 2009
Ja nao se pode ter opiniao contraria à do Expresso!!!

A censura do Balsemao funciona!

AI ESTA ABRILADA QUE NOS SUFOCA!!!!

Que venham mais prejuizos para o BALSÂMICO CENSOR!!!!
 
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    Re: CENSORES!!!    Ver comentário
felicidade (seguir utilizador), 1 ponto , 0:08 | Sexta feira, 13 de março de 2009
    Re: CENSORES!!!    Ver comentário
GUERRILHEIRA (seguir utilizador), 1 ponto , 14:42 | Sexta feira, 13 de março de 2009
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