A conversa da lusofonia e dos países irmãos é algo de notável, justifica tudo e mais alguma coisa. Outros, não sendo irmãos, eventualmente primos, olham para o mundo e apercebem-se do modo rápido como ele se transfigura. E para não ficarem para trás trabalham. O caso espanhol relativamente a África parece-me não apenas bastante interessante como dando algumas lições. Historicamente, a relação colonial africana dos países ibéricos não tem comparação. Mas por estarem atentos, a Espanha começou por elaborar o primeiro Plano África 2006-2008 a que se seguiu o recente Plano África 2009-2012, considerado "uma prioridade estratégica e política da acção externa espanhola", acrescentando que "a política relativamente a África é uma marca identitária da nova acção externa de Espanha". Como se vê não fazem por menos... Este Plano, um documento com cerca de 130 páginas, está bastante bem elaborado, é claro e coerente e bastante informativo, mostrando transparência na divulgação do que se faz, do que se pretende fazer e como! E isto diz respeito praticamente a todos os países africanos considerados individualmente. A outra particularidade do documento prende-se com a diversidade de actores espanhóis, africanos e europeus que foram ouvidos.
Como atrás referi, a Espanha tem olhado atentamente para o continente. A aposta que tem feito no reforço quantitativo e em percentagem do PIB da sua ajuda pública ao desenvolvimento (APD) é digna de registo. Por exemplo, entre 2006 e 2007, a APD excluindo o perdão da dívida, aumentou 31% (6% no caso de Portugal), tornando-se o 5º país doador europeu (5 mil milhões de dólares contra 471 milhões de Portugal). Para África foram quase 40%, o que colocou este continente, pela primeira vez, no lugar cimeiro enquanto destino geográfico. O passado, a América Latina, continua lá, mas a diferença é que já não é só ela, dá para perceber? Mas este documento reserva outras surpresas. O objectivo terceiro refere-se à 'promoção das relações comerciais e de investimento entre a Espanha e África e do desenvolvimento africano'. Assim mesmo, sem tibiezas. Como é que isso será feito? Através do apoio a projectos de empresas espanholas em consórcio com africanas; apostando nos protocolos de cooperação financeira com Angola, Cabo Verde e Gana; fomentando a participação espanhola na exploração dos recursos energéticos com os países onde há relações (Nigéria, Gabão, Guiné-Equatorial, São Tomé e Príncipe e Angola); e etc. Em 2007, a Espanha exportou tanto quanto Portugal para a África Subsariana. Para o país vizinho é pouco mais de 1% e daí querer ter maior presença. Mas o curioso é que a diversidade de quotas de destino naquele espaço traduz-se, por exemplo, em 56% distribuídos por cinco países enquanto no caso português só Angola valeu 76% e se juntarmos Cabo Verde e Moçambique são 91% do total. Posto isto, a conclusão é óbvia: irmãos, amadorismo e visão de curto prazo vão de mãos dadas em direcção ao óbvio!
Manuel Ennes Ferreira
Professor do ISEG
Texto publicado na edição do Expresso de 27 de Fevereiro de 2010