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O sofisma da raça

8:00 Segunda feira, 3 de novembro de 2008

A tese mais recente de alguma esquerda europeia sobre as eleições americanas da próxima terça-feira é que elas vão revelar se a América está ou não preparada para eleger um Presidente negro. Trata-se de um sofisma curioso, a mais do que um título.

Que a América está preparada para eleger um Presidente negro (ou não-branco) está neste momento mais do que provado. Caso contrário, o partido democrático - que é um partido pragmático de governo - não teria seleccionado o senador Obama.

Isto é particularmente óbvio se for recordado que o processo de selecção americano é extremamente aberto, duro e prolongado - como todos, aliás, temos podido observar. Acresce que o senador Obama foi seleccionado contra outra candidata muito credível e capaz, a senadora Clinton.

Se, após estes factos, a América não estivesse preparada para eleger Obama, teríamos de concluir que o Partido Democrático era um partido suicida: depois de oito anos na oposição, tinha premeditadamente escolhido o candidato com menos hipóteses de ganhar.

Em contrapartida, se o senador Obama não vencer na próxima terça-feira - o que é agora altamente improvável, mas não impossível -, os analistas terão de pesquisar e discutir os motivos. Atribuir "a priori" uma hipotética derrota à cor da pele do senador Obama seria um sofisma grosseiro - e uma efectiva manifestação de racismo ao contrário: quem criticasse, ou discordasse, ou não votasse em Obama seria racista.

Não é assim que nós funcionamos em democracia - embora eu não me surpreenda por certa esquerda europeia ainda não ter percebido. Nós realmente discordamos uns dos outros, e criticamo-nos uns aos outros. Como diria o outro, "nothing wrong about that": já estava na Magna Carta de 1215. E, como diria ainda um outro, "old habits die hard": ao fim de oitocentos anos, continuamos habituados a discordar uns dos outros.

Quem merece crédito por ter evitado aquelas falácias de alguma esquerda europeia é o senador Obama. A sua candidatura evitou sempre a questão racial e acentuou uma postura vincadamente centrista - apesar do seu passado posicionamento à esquerda enquanto senador.

Tudo indica que, se Obama for eleito, alguma esquerda europeia vai ter mais uma decepção. Seria apenas uma questão de tempo: de quanto tempo precisariam para começar a atacar Obama, tal como fizeram com Bill Clinton, depois de o terem considerado a esperança da esquerda?

João Carlos Espada

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