Há vitórias com mais significado do que outras, e há vitórias que deixam dúvidas quanto ao seu significado. Mas a vitória de Pedro Passos Coelho na corrida à liderança do PSD pertence à categoria das vitórias inequívocas, e inequivocamente significativas. Significativa desde logo pela própria votação: 61%, 27 000 votos, é a maior vitória jamais obtida em eleições directas no PSD. Este resultado mostra que os militantes quiseram escolher com clareza um caminho e colocar uma pedra sobre divisões e conflitos do passado. Mas significativa sobretudo pelo seu conteúdo político. E esse conteúdo lê-se em três estratos cuja sobreposição é fundamental para conferir coerência a um projecto de poder.
O primeiro estrato é o partidário-político. Esta vitória foi um duro golpe numa concepção transviada de elitismo que tinha tomado conta do PSD. As sociedades e os partidos políticos precisam de élites, e produzem-nas - melhores ou piores - em qualquer circunstância. Mas em democracia, não é élite quem quer, quem herda ou quem se auto-proclama como tal. Numa democracia a élite é composta por aqueles que a cada momento têm a capacidade de assumir o papel e a função que uma élite deve ter na sociedade. Ontem, saíram derrotados os que confiaram na lógica de casta, e venceram os que apostaram no trabalho, na vontade e no mérito. E isso tem um imenso significado naquilo que vai ser a reconfiguração das élites políticas no PSD.
A este sobrepõe-se um segundo estrato político-metodológico. Esta foi a vitória de uma forma renovada de fazer política. Renovada desde logo pelo profissionalismo assumido com que procurou fazer passar as suas mensagens, dirigindo-se aos militantes e aos portugueses. Já era tempo de o PSD perceber que a autenticidade não desculpa o amadorismo, e que se a mensagem é o mais importante a primeira obrigação do político é saber transmiti-la com eficácia. Mas renovada também pela aposta na abertura das ideias e pela desfulanização do discurso.O PSD deixou-se intoxicar ao longo dos anos pelo carácter pessoal das suas lutas intestinas, o que veio até a repercutir-se na forma excessivamente centrada na pessoa do primeiro-ministro de fazer oposição ao PS. Pedro Passos Coelho, que se manteve durante estes anos afastado dessas más práticas, demonstrou já que pretende um PSD mais respirável, mais acolhedor para o debate de ideias, mais capaz portanto de construir uma alternativa confiável.
O estrato superior do significado desta vitória é o posicional-ideológico. Esta eleição teve o mérito de permitir ao PSD optar com clareza entre dois caminhos distintos, um de pendor liberal-conservador e outro de pendor liberal-democrata. Era para mim evidente, já há meses,
que era este último o caminho que melhor reproduzia a fórmula que permitiu ao PSD ter sucesso no passado: promover profundas mudanças na economia, procurando encontrar um equilíbrio nos valores sociais. E não é por acaso que esta fórmula teve, e deverá voltar a ter, sucesso. A sociedade portuguesa está hoje cada vez mais consciente de que necessita de mudar muito daquilo que é a sua estrutura produtiva e material. Mas para ter a energia de o fazer, terá também de saber impedir que questões simbolicamente relevantes sejam instrumentalizadas para criar divisões inúteis. Ao eleger Passos Coelho, o PSD escolheu ser o veículo dessa mudança económica, mas também um factor dessa despolarização social.
Sobrepondo estes três estratos de significado, o que vemos? Um partido clarificado nas suas opções, desempoeirado nas suas ideias, modernizado nas suas estruturas, aberto à sociedade, e posicionado para a conquista de uma maioria. Fazia falta um PSD assim.