Com o nascimento da segunda filha, Po Bronson, autor do livro "Choque na Educação", arrumou os manuais de bebés acumulados em casa e decidiu não educar os filhos como mandam as regras mas sim segundo os instintos. Isso parecia-lhe suficiente, como escreve na introdução do livro, um dos melhores de 2009 para mais de 30 publicações e sites americanos. "Estávamos apaixonados pelos nossos filhos e observávamos atentamente as suas necessidades e o seu desenvolvimento".
Segundo a sabedoria popular, esses instintos surgem, como que por magia, logo após o nascimento do bebé. Com a criancinha nos braços, a mãe ou o pai, saberá o que fazer. "E irá continuar a saber o que fazer nos dezoito anos seguintes", ironiza o jornalista da "Time" e do "Washington Post".
Após três anos a investigar os mitos à volta do desenvolvimento infantil, e a analisar 200 mil páginas de pesquisas em publicações científicas, Po Bronson (em colaboração com a educadora Ashley Merryman) concluiu que também ele se deixara levar pelo senso comum, que tem em conta a educação recebida em casa ou o exemplo dos outros.
A verdade é que o modo como os pais educam os filhos pouco tem de científico, "no sentido de não ter como base as experiências que têm vindo a ser realizadas, principalmente nos Estados Unidos", diz o pediatra português Paulo Oom, que leu o livro precisamente por desmontar algumas ideias feitas relacionadas com a educação das crianças.
"Como é que podíamos estar tão errados?" A pergunta de Po Bronson e Ashley Merryman serviu de ponto de partida para a obra com o título original de "NurtureShock", a expressão inglesa que descreve o pânico que só os novos pais sentem na pele. Os dois acreditavam que a leitura ia assemelhar-se a um balde de água fria. Primeiro ia surpreender os pais, depois desorientá-los.
Cérebro viciado em elogios
E estavam certos. A polémica estalou com o livro numa fase embrionária. Um dos dez tópicos da obra - o excesso de elogios que predomina na relação entre pais e filhos - foi capa da revista "New York Magazine" e deixou toda uma geração de adultos perplexa.
Segundo um inquérito da Universidade de Columbia, 85% dos pais americanos pensam que é importante dizer às crianças que são as mais inteligentes. "Há mesmo miúdos que vão para a escola com frases de incentivo guardadas nas lancheiras e que, quando chegam a casa, têm tabelas de excelência afixadas nos frigoríficos", conta Po Bronson.
Se para os adultos o elogio constante funcionaria como um anjo da guarda, assegurando que os petizes não desaproveitam os seus talentos, Bronson e Merryman descobriram o contrário: dizer às crianças que são inteligentes não as impede de ter um desempenho fraco. Pior, até as pode prejudicar.
A pesquisa de Carol Dweck, da Universidade de Stanford, revelou que os estudantes elogiados em excesso optam pela via mais fácil, para não fazerem má figura, e são menos motivados. E nem as crianças no ensino pré-primário estão imunes ao efeito inverso do elogio.
Outro estudo feito pela American Association for Psychological Science mostrou que uma elevada auto-estima não melhora as notas nem o sucesso profissional. Nem sequer reduz o consumo de álcool. E muito menos contribui para uma diminuição da violência.
Com estes dados na mão, também Po Bronson parou de elogiar os filhos com frases banais como "tu és óptimo" ou "estou orgulhoso de ti". E percebeu que era ele, e não os mais pequenos, o viciado em elogios. "Senti que podia estar a contribuir para o cérebro deles ter uma necessidade química real de receber recompensas constantes", admite.
O tópico dos elogios foi, de longe, o mais citado nos media mas "Choque na Educação" não se resume a uma tese. Há outras "vacas sagradas" que precisam de ser repensadas, segundo os autores. Como a mentira. E aqui, a pesquisa é clara: as estratégias clássicas para promover a sinceridade apenas encorajam as crianças a mentir melhor.
Entre os pais portugueses que frequentam os workshops sobre disciplina dados por Paulo Oom, um dos temas abordados diz respeito ao bater. A grande maioria admite já ter dado uma ou outra palmada mas o correctivo é questionável. A educação é mais eficaz pela positiva, realça o pediatra, mas uma palmada "na altura certa, pelo motivo certo, pode resolver o problema".
Um assunto à margem do livro, o que quer dizer que ainda existe uma forma latina de estar na vida e olhar para o mundo. Nas palavras de Paulo Oom, os portugueses são menos permissivos do que os americanos, mais afectuosos do que os ingleses e mais tolerantes do que os franceses. "O que significa que seguir à risca ensinamentos de um livro traduzido e que não reflecte os nossos valores pode não dar certo".
Três perguntas a Po Bronson, autor do livro
Alguns pais criticaram o livro por apresentar uma série de factos e estudos científicos sem, no entanto, apontar caminhos. Parece-lhe um comentário justo?
Os que procuram um manual com respostas a dúvidas e inquietações devem comprar outro livro. "Choque na Educação" foi escrito a pensar nos pais que detestam livros que abordam o tema da paternidade. Quem o lê não fica confuso. Pelo contrário. Ultrapassado o choque inicial, conseguimos relacionar-nos com as crianças de uma forma completamente nova.
Critica o facto de os pais confundirem "boas ideias com boas intenções". E de não questionarem os instintos. O livro não confia de mais na ciência?
Não é uma questão de fé. Cada capítulo baseia-se em pesquisas com mais de dez anos, reproduzidas por vários especialistas. Há uma tendência para não questionar algumas tradições porque estão entre nós desde sempre. O que descobrimos foi que os instintos (reacções informadas) estão poluídos por uma mistura de esperanças vãs, preconceitos morais, modas, história pessoal e psicologia ultrapassada.
Além da sociedade elogiar as crianças em excesso, que outras pesquisas o surpreenderam?
O facto de as crianças dormirem menos uma hora do que há trinta anos. E isso tem custos elevados, não só a nível intelectual mas na forma física dos mais novos, com mais tendência para a obesidade.
Texto publicado na edição do Expresso de 13 de Março de 2010, Primeiro caderno