José Pacheco Pereira será ingénuo? O deputado do PSD sabe bem que a "hipótese puramente académica e num certo sentido democraticamente retorcida"
que coloca é uma hipótese real. Sabe que ela já esteve em cima da mesa no interior do PS quando o caso Freeport eclodiu. Sabe que poderá voltar a estar se outros dos casos que metodicamente elenca neste artigo
vierem a agravar o deve e o haver político de José Sócrates para o partido que lidera. E sabe que a orientação que tem imprimido aos seus comentários na imprensa e à sua intervenção parlamentar vai no sentido de favorecer a "hipótese puramente académica e num certo sentido democraticamente retorcida".
Mais. José Pacheco Pereira não pode ignorar que ao promover uma oposição personalizada ao Primeiro-Ministro, está a oferecer um free pass ao PS. Bastará ao PS mudar de líder e de Primeiro-Ministro, e logo três quartos da oposição que Pacheco Pereira e a actual direcção do PSD lhe move cairão por terra. Se o PS aparecer com uma cara diferente num momento em que a oposição se faz à pessoa de Sócrates e não às suas políticas, poderá lavar as mãos de 15 anos de asneiras políticas e económicas, pôr os contadores a zero e continuar alegremente a dominar a vida política nacional. Se o PSD permitir que o PS se livre de Sócrates se e quando lhe for mais conveniente, impedirá os portugueses de poderem julgar o Governo pelo seu balanço nas próximas eleições. Eu não estou nada convencido de que se trate de uma "hipótese puramente académica". Pelo contrário, penso que o risco, para o PSD e para todos os que querem uma alternativa ao socialismo em Portugal, é mesmo esse: que derrubando Sócrates se perpetue o PS.