Ao findar o mês de agosto, digam o que disserem os excêntricos, a cidade não perfaz um espaço de liberdade, mas tão-só uma paisagem de desolação. Os lixos acumulam-se em torno dos contentores, os cães abandonados arrastam-se até à morte, e o vento que anuncia o outono levanta esparsas areias, e cospe-nos na boca o sabor amargo da rotina sem remissão. Mas haverá quem negue que a rentrée corresponde a um tónus revigorante, e que a vida renasce do vasculho das ruas?
Retornamos à cidade no cansaço do nosso anticlímax, de tejadilho do jeep coberto de pranchas de surf, e de mala atascada de sacos onde fedem os vestidos suados das noites de discoteca. E eis que guincham lá atrás os miúdos, comprimidos entre boias e arcas frigoríficas, esfarelando a pizza comprada na área de serviço. Perdemos o que desejávamos, é certo, a aventura com alguém que houvesse baixado da Escandinávia, o descanso ao sol sem melgas, e sem bolas, e o romance do Saramago que, de há quinze anos a esta parte, levamos com a jura de ler até à última página. Não nos faltaram porém clandestinas aventuras, nem histórias fixes, para contar a quem valer a pena. A Kika apanhou uma camada de herpes labial, o Jorge partiu o tornozelo, e a tia Odete não curou ainda a diarreia, produzida pela salada de búzios que enfardou até lhe tocar com o dedo.
Se voltamos por via aérea, fazemo-lo na convicção de que o pacote de férias se revelou um êxito. Visitámos o Taj-Mahal, assistimos à dança dos dervixes, subimos aos cimos de Machu Pichu, percorremos as naves da Catedral de São Pedro, e espreitámos o Ground Zero. Fotografámos tudo isso, e até à eternidade guardaremos as imagens nos misteriosos subterrâneos do computador, aí onde a qualquer momento as poderemos consultar. É claro que nos picou uma alforreca, que tivemos de suar vinte e quatro horas no aeroporto de Manila, e que vomitámos durante dia e meio os restos do maldito chicharrón, comido numa cantina à saída de Cochabamba. Não foi nada de maior, se comparado com o muito que nos divertimos. E é sempre com renovada alegria que retomamos o nosso cantinho, isto por muito modesto que ele seja. Espera-nos a água castanha que escorre das torneiras, os géneros apodrecidos na geleira por causa de uma quebra de energia, os peixes defuntos no aquário que nos custou um balúrdio, e as baratas que grassam à tona da alcatifa do apartamento.
Que importa um pequeno desaire, procedendo nós de dentro, ou de fora, se o sonho se realizou, e se conquistámos o direito de o proclamar aos berros, e à hora do café no escritório, quando o chefe adquirir um carro novo?