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O regime que morreu três vezes

Henrique Raposo
8:00 Terça feira, 17 de fevereiro de 2009

O regime morreu. A III República portuguesa está morta. Ainda ninguém levantou o corpo, porque as certidões de óbito - em política - demoram a chegar. E, neste caso, estamos a falar de três certidões, ou seja, vivemos num regime que morreu três vezes.

A primeira morte é económica. O modelo socialista/social-democrata/democrata-cristão, centrado na caridade do Estado e na subalternização do indivíduo, está falido, e brinda-nos com recessões de quatro em quatro anos. Basta ler "O Dever da Verdade" (Dom Quixote), de Medina Carreira e Ricardo Costa, para percebermos que o nosso Estado é, na verdade, a nossa forca. Através das prestações sociais e das despesas com pessoal, o Estado consome aquilo que a sociedade produz. Estas despesas, alimentadas pela teatralidade dos 'direitos adquiridos', estão a afundar Portugal. Eu sei que esta verdade é um sapo ideológico que a maioria dos portugueses recusa engolir. Mas, mais cedo ou mais tarde, o país vai perceber que os 'direitos adquiridos' constituem um terço dos pregos do caixão da III República.

A segunda morte é institucional. Como já aqui escrevi várias vezes, Portugal não tem um regime político com freios e contrapesos. O partido da maioria, seja ele qual for, controla todas as instituições do regime; vivemos numa espécie de 'ditadura conjuntural' do partido da maioria. Por outro lado, Portugal é um Estado de direito falhado: a nossa Justiça é um embaraço confrangedor. A geração que está no poder construiu a democracia. Cabe à minha geração edificar o Estado de direito.

A terceira morte é partidária. O nosso sistema partidário tem a vitalidade de um zombie, pois não responde às necessidades da sociedade. Porquê? Ora, porque os partidos portugueses representam os interesses do Estado e não os interesses da sociedade. Portugal precisa de reformas que emagreçam o Estado, mas os partidos são os primeiros a recusar essas reformas. É natural: o emagrecimento do Estado significaria o fim de milhares e milhares de empregos para os boys.

A necessária dieta estatal passaria, por exemplo, pela reforma do mapa autárquico. A actual arquitectura do poder local assenta em pilares arcaicos. Em 2009, é simplesmente ridículo vermos o país dividido em 4251 freguesias e 308 municípios. Como é que um país tão pequeno está esquartejado desta forma? Esta situação chega a ser caricata, mas os partidos nunca executarão mudanças no mapa autárquico. É fácil perceber porquê: com menos câmaras e freguesias, as matilhas de caciques seriam obrigadas a sair do quentinho partidário e a procurar trabalho no frio da vida real. Enfim, a III República está bloqueada. Os actores que deveriam ser as alavancas legítimas das reformas - os partidos - são os primeiros a dizer 'não' às ditas reformas.

Para esconder as três mortes do regime, os partidos inventaram um mecanismo de defesa: o folclore fracturante. A actual conversa sobre o casamento gay é só mais uma forma de adiar a chegada do médico legista da III República, o regime que morreu três vezes.

Henrique Raposo

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Estar morto ou moribundo...
Pedro Lemos (seguir utilizador), 3 pontos (Interessante), 11:28 | Terça feira, 17 de fevereiro de 2009
Este artigo de Henrique Raposo é indubitavelmente uma peça literaria de rara qualidade no contexto do jornalismo português.
Dito isto, e ressalvada que seja a tolerância quanto a certas figuras de estilo normais em literatura, pode no entanto questionar-se o conteúdo de certas afirmações contidas neste comentário.
Não estou, tal como o autor, nada optimista quanto à saúde desta III República. Mas, contrariamente a Henrique Raposo, entendo que o actual regime ainda não morreu. O que ele está isso sim é moribundo. As três certidões de óbito são por isso prematuras...
Das três mortes anunciadas, aquela que me parece, apesar das circunstâncias adversas, mais longínqua é a morte económica. O sistema atravessa, é certo, uma crise muito grave, mas não morreu e nada garante que venha a morrer brevemente...
Por seu turno, a morte institucional ainda não ocorreu, mas tem razão o autor em chamar a atenção para o facto de que ao regime político faltam freios e contrapesos eficazes. Tem igualmente razão quando afirma que Portugal é um Estado de direito falhado, que a Justiça é um embaraço confrangedor e que cabe à actual geração edificar o Estado de direito. Em resumo, se a certidão de óbito institucional parece prematura, uma certidão de estado comatoso é algo que parece mais conforme à realidade...
Quanto à morte partidária, tem carradas de razão Henrique Raposo. O sistema partidário não está manifestamente a responder às necessidades da sociedade. É tempo de mudar de rumo!
 
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NAO HA ELITES, HA 'TIAS'
Musoko (seguir utilizador), 2 pontos , 15:03 | Terça feira, 17 de fevereiro de 2009
Somos de geracoes e origens diferentes mas confluimos. Portugal estrebucha mas vai adiando a morte. Onde estao as semelhancas com a Venezuela de Chavez? Portugal e uma Venezuela mitigada, por isso a grande atraccao q o regime venezuelano exerce aqui. Em Portugal as instituicoes sao controladas pelas forcas secretas dos partidos, transversalmente. Ja nao ha estrategia, nao ha elites, ha 'tias'.
Mas o grande guarda-chuva de Portugal, os EUA, nao deixarao morrer este regime, interessa-lhes ter neste local um regime diferente do da Europa comunitaria, pq pode controla-lo com mais eficacia atraves da corrupcao. Por outro lado, os EUA dispoem aqui de um museu meio-vivo do comunismo: um PC domesticado, vencido, dobrado, que vai mostrando as novas geracoes 'o que era aquilo'. Por isso esse PC deve existir no quadro institucional e nao sair dele nem 'desaparecer'. Se o PC desaparecesse, surgiriam logo ideologias 'revisionistas' a gritar: eles nao existiram.
A divisao administrativa-autarquica e a maior aberracao que ja vi. Lisboa e uma CM igual a CM de Sintra, de Cascais. Pela santa! Tenham tento!
Portugal e para existir assim, e este o papel q lhe foi atribuido pelos poderes mundiais.
Um bom texto, espero que continue e nos trace estrategias criativas para este pais que importa alhos da China.
Rui Ramos
 
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sou a rosa amiga do senhor henrique
Rosa Engeitada (seguir utilizador), 2 pontos (Divertido), 13:49 | Segunda feira, 4 de janeiro de 2010
ai senhor henrique estou tão contente e eu estava de início tão aflitinha quando li o título e ai que lá vão outra vez dar pancada no senhor henrique mas não e até parece uma festa e fartei-me de ler até saber tudo de cor e tentar perceber porque é que desta vez não lhe batem e aí perguntei ao meu patrão que explicou o mistério mais ou menos assim e vamos lá ver se me consigo fazer perceber é que o senhor henrique não fala no senhor engenheiro sócrates e fala do saco e como cabem todos no saco e quem começar a bater parece que está sózinho no saco e portanto estão à espera a ver quem bate primeiro e por isso ninguém bate e espero que tenham percebido e agora digo eu e ein ficou esperto o senhor henrique como diria o primeiro de agosto que é de angola e trabalha no café da esquina e os meus parabéns senhor henrique
 
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ELOQUENTEMENTE LUCIDO
odisseia na terra (seguir utilizador), 1 ponto , 9:52 | Terça feira, 17 de fevereiro de 2009
MUITOS PARABENS

O MEU MAIOR ELOGIO POR ESTA SUA PROSA

TORERO, TORERO, TORERO
 
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Chapeau, Mr. HR!
Alfredino Cunha (seguir utilizador), 1 ponto , 11:03 | Terça feira, 17 de fevereiro de 2009
Este artigo sintetisa tudo o que há a dizer sobre a sociedade portuguesa.

Esperam-se desenvolvimentos, naturalmente, em próximas peças.

Levanto no entanto uma questão. O regime está morto, certo. Se não estiver morto, pelo menos agoniza. Mas o problema vai ser passar-lhe a certdão de óbito.

O HM diz que vai ser a sua geração a tratar do assunto? Espero que sim e o mais depressa possível. Mas para issso vai precisar de mais que artigos de jornal. Vai ser preciso mobilizar e organizar pessoas num movimento ou partido.

A hora começa a estar certa, todavia. Convinha não deixar o morto a apodrecer muito tempo. O sofrimento moral e físico que daí pode advir pode tornar-se excessivo.
 
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Voilá
cjours (seguir utilizador), 1 ponto , 12:01 | Terça feira, 17 de fevereiro de 2009
Pronto! Eis o que os comentadores, articulistas, bitaitistas militantes deviam fazer. Esta é que é a crónica que se pretende! Este é que é o tema que se deve começar a discutir em Portugal. Resolver a crise não pode ser o nosso designio nacional. O nosso designio, entre outros, terá que ser tornar a República saudável e colocá-la no Séc. XXI. Esse é que é um enorme desafio que tem que começar a entrar na cabeça de todos! O António Vitorino, ao que parece, falou disso nos Altos Estudos Militares e outras vozes se vão seguir. Porque este é, de facto, o grande tema: o que fazer com as nossas instituições, o que fazer do nosso modelo económico, o que fazer com os Partidos. E, já agora, o que fazer com a Imprensa!
Outra questão é: temos elites para pensar, mudar e aprofundar os fundamentos da República, tal como eles precisam? A Bem de quem? De Portugal, da República, dos Portugueses, dos Grupos económicos, das Instituições, dos Partidos?
esta é que é grande discussão que temos que fazer em Portugal.
 
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Bambora
AntiFar (seguir utilizador), 1 ponto , 12:02 | Terça feira, 17 de fevereiro de 2009
Bambora, edificar o Estado de direito! Que se faz tarde!
 
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SOCIEDADE pORTUGUESA
Kavai (seguir utilizador), 1 ponto , 12:31 | Terça feira, 17 de fevereiro de 2009
Este artigo não é uma radiografia da nossa sociedade. È uma TAC !
Parabens ao autor.
 
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PARABÉNS!!!
4 DE DEZEMBRO (seguir utilizador), 1 ponto , 14:17 | Terça feira, 17 de fevereiro de 2009
Grande artigo. As minhas sinceras felicitações.

Grande poder de síntese.

Concordo com tudo quanto nele está contido.

Falta apenas mencionar a nossa burguesia e a nossa classe empresarial.

Esta crónica merece um quadro de honra no Expresso e uma duração mais prolongada em lugar de destaque.

 
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Genial!
paula rosado (seguir utilizador), 1 ponto , 17:58 | Terça feira, 17 de fevereiro de 2009
o Henrique Raposo tem textos muito bons, mas por vezes tem um rasgo de genialidade, como neste caso.
 
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Parabens
ajotaef (seguir utilizador), 1 ponto , 19:01 | Terça feira, 17 de fevereiro de 2009
Concordo inteiramente com este artigo genial. No entanto parece-me que o título mais adequado seria: Regime que se recusa a morrer porque a oligarquia que dele se sustenta não quer a alteração constitucional que permitiria a eutanásia dos regimes...nem o regimento da eutanásia!
 
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COM GRANDE PERSPICÁCIA!!!!!!!
GUERRILHEIRA (seguir utilizador), 1 ponto , 19:20 | Terça feira, 17 de fevereiro de 2009
Se o presente artigo tratasse do futebol já teriamos umas dezenas largas de comentários.

Quando se trata de algo sério na TV nunca há tempo para prolongar o debate.Se for futebol há todo o tempo possivel e imaginario para a lavagem ao cérebro,no principio romano do "panem et circus".

Vem isto a propósito do excelente artigo que acabo de ler sobre a nossa III República.(Mario Soares não considera o periodo após 1926 como uma República,numa verdadeira cegueira histórica)

Já aqui comentei que o regime da ABRILADA atingiu a caducidade histórica e que há uma necessidade premente em acabar com ele,mesmo que fosse pela força das armas.

Alguns generais alertaram para a derrocada do actual regime,onde nao faltam traições à Pátria,abusos de poder,corrupção activa e passiva ao mais alto nível,diatribes sexuais,locuptamentos à custa alheia,tráfego de influências,subornos,ameaças,censuras,etc.etc.

Há situações neste regime que configuram práticas mafiosas com influência sobre a actividade judicial.

Fala-se em democracia,mas com enormes déficits comportamentais.

A imprensa serve um regime em decomposição,enganando a opinião pública.

Assim sendo,tem o autor do artigo a capacidade do "l'esprit de finesse" para,com grande poder de sintese,nos conduzir à IV República Democrática,Moral e Ética,conforme aqui tenho escrito amiudadas vezes.

Os intervenientes só podem ser a geração não comprometida com os vicios da Abrilada ou com a ideologia do Maio 68.

Portugal não pode ser mais adiad
 
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Então Como é?
Alfredino Cunha (seguir utilizador), 1 ponto , 16:02 | Quarta feira, 18 de fevereiro de 2009
Cara Equipa do Expresso,

Creio que me tiraram um precioso pontinho sem razão ou explicação.

Isso é coisa que se faça assim, nas costas do povo?
 
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Afinal;pela primeira vez;vamos ter um salvador da
Tibiriçá.... (seguir utilizador), 1 ponto , 14:03 | Segunda feira, 4 de janeiro de 2010
Ainda bem;que pela primeira vez;vamos ter um presidente da republica;não doutor;nem general;nem almirante..Apenas JORNALISTA..e AQUI NO BRASIL;HOJE JÁ NÃO SÃO CONSIDERADOS DOUTORES..aPENAS SÃO CHAMDOS DE JORNALISTAS...OUVÍU..SENHOR RAPOSO..????Mas pode contar comigo;se conseguir aí n meu país;pois ainda vexa nem pensava em nacer;já eu andava por aí apanhando nos tempos dos fascistas..VÍU...???Mas á frente..Lá conseguí me criar..E até frequentar colégios e dos melhores;e também universidades;ainda que em portugal;sempre me fosse negado esse direito..Mas á frente..ESSA é outra conversa;para outro dia..Mas continuando;o jornalista;raposo se quiser o meu apoio;poe contar..Mas para mudar para melhor;para o país;e para o povo no todo..E não pensar em apenas que uma minoria;vote a ser o dono de tudo..OUVÍU...???Senhor raposo..??fico aguradando..até quando..???cumpts..kantiflas.
 
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Assim, sabe bem ...
Fonsenog (seguir utilizador), 1 ponto , 14:10 | Segunda feira, 4 de janeiro de 2010
Assim sabe bem vir à Comunidade Expresso. O artigo está excelente. É um grito de alerta que apetece obrigar a ler a todos os portugueses e os comentários (pelo menos até agora) estão á altura.
 
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