Numa década, os homens, enquanto género, moveram-se uns metros: deixaram o sofá, largaram o comando da TV e agarraram o rato do computador. Pelo meio retiraram-lhes muita da capacidade de interagir no espaço público, porque o politicamente correcto liderado por um comité semântico feminino tornou-se implacável com as palavras, que depois de dois copitos se tornaram minas a explodir na boca. Uma chatice. O tabaco e a comida pesada teve que ser deslocada no cérebro da zona "Prazeres" para zona "Nojo". Depois apareceram as definições - como o metrossexual. Beckham, o Homem do Século XXI? Que tempos aqueles... a anorexia grassava, o lesbian-chic era moda, o casamento gay começou a institucionalizar-se. Escreveram-se livros sobre o fim da masculinidade (outra vez) e o mirrar do homem. Podia ter sido o fim do mundo, aí por 2003. Mas não foi.
Os rótulos são uma coisa boa. Uma tábua de salvação sígnica para tipos perdidos no meio do caos existencial pós-feminista. E no meado da década surgiu o qualquercoisasexual, uma divertida tipologia de homens prêt-à-porter para escolher uma. Ou várias. Ou partes. Ou ir mudando.
É óbvio que a maioria não quis nem teve dinheiro para ser metrossexual ou pinta para ubersexual com causas e mulheres lindas e manteve-se orgulhosamente retrossexual: o chaço de barriga, pêlo no nariz e artérias entupidas. Muitos foram-se reconvertendo e são hoje militantemente ecossexuais, embora a predominância sejam os tais tecnossexuais, pairando uma certa exuberância para os bem-amados gastrossexuais, tão interessantes a cozinhar gourmet para elas.
Conforme as mulheres se foram instalando nos seus lugares de direito e as leis cristalizando, também se registaram movimentos reactivos, até porque na guerra e no divórcio vale tudo. Até já existe um Dia Internacional do Homem (19 de Novembro) para defender a necessidade de instituir role models inspirados no 'homem comum' e não nas estrelas do desporto ou em actores de cinema e lutar contra a discriminação nas 'atitudes, expectativas e leis'. Pais divorciados contra-atacam a partir de Tobago!
E porque a ideia do 'sexo forte', depois de espancada pelas feministas e emudecida pelo politicamente correcto, começou a ser tornada light pela Ciência... Até ver, os homens continuam fisicamente mais fortes, mas sabe-se hoje que são biologicamente mais vulneráveis à doença do que as mulheres, o que começa logo no útero e se acentua nos primeiros meses de vida. As doenças coronárias fazem a primeira ceifa aos 30 anos e a segunda pelos 65. Há quatro a seis vezes mais incidência de doenças mentais neles. Os homens têm muito mais tendências suicidas e para correr riscos idiotas, o que faz deles óptimos clientes da cultura radical e óptimos soldados... enfim, os homens vão continuar a morrer mais cedo. Segundo uma investigação da Universidade de Tóquio, publicada este mês, os genes dos homens limitam o seu tempo de vida: ao 'optarem' por uma compleição física maior comprometem a duração do tempo que vão por cá andar.
Além da destruição imparável dos mitos biológicos, os gurus da socioeconomia não antecipam nada de virtuoso para um mundo onde até à crise de 2008 ainda subsistia uma ideia masculina de sociedade. Na pós-recessão mundial falam de um homem deprimido e diminuído à escala global, tentando recuperar o trauma do desemprego que atingiu todos os sectores e níveis da força de trabalho. Ou o surgimento de fenómenos de ruptura inesperados, por exemplo na China, onde há dezenas de milhões de homens a mais que mulheres e onde podem surgir situações de caos e violência. Dezenas de milhões de homens sem mulher é muito gajo à nora.
Regressando ao mundo onírico das revistas de papel couché que embelezam as bancas. Há um macho pós-moderno de masculinidade resgatada
e engraxada. E uma retórica por construir. 2010 será o início. Cá estaremos.
Masculinidade resgatada
Um dos mais interessantes, bem escritos e visualmente fascinantes sites dedicados ao homem é este Art of Manliness, que já teve direito a um livro lançado no Outono e que visa recriar para os dias de hoje a ideia de cavalheiro do século XIX, do como se barbear ao salvar uma pessoa de se afogar, como oferecer flores ou ensinar o seu filho a andar de bicicleta, como fazer fogo, como derrubar uma porta...
A Arte da Masculinidade
http://artofmanliness.com/
Big Think - fórum global com 600 especialistas. Especial O Homem
http://bigthink.com/series/the-problem-with-men
Site do Dia Internacional do Homem
http://www.internationalmensday.com
Texto publicado na edição do Única de 31 de Dezembro de 2009