23/02/2012 atualizado às 1:43
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O racismo cor-de-rosa

8:00 Segunda feira, 21 de julho de 2008

O choque entre o "black power" e o "gypsy power" originou uma linha de raciocínio curiosa. Entre outras coisas, esta linha afirma que as Câmaras Municipais não podem juntar no mesmo bairro duas comunidades étnicas com hábitos distintos. Notável. Estou completamente de acordo. Aliás, acho que devemos comprar uma herdade no Alentejo e transformá-la numa Reserva Cigana. Portugal seria, assim, o primeiro país do mundo com um parque antropológico destinado a acolher o povo cigano... Meus caros, deixem-se de brincadeiras. Portugal é um estado de direito e não uma colecção de tribos. Mais: defender a tolerância implica negar qualquer validade analítica ou moral ao conceito de 'comunidade'. Uma democracia liberal é habitada por indivíduos e não por comunidades.

Este episódio da Quinta da Fonte mostra como os jornalistas, políticos e comentadores têm medo de falar sobre as 'minorias'. É natural: aqueles que ousam criticar as ditas minorias costumam ser rotulados de 'racistas' pelas patrulhas do SOS Racismo e demais bugigangas do politicamente correcto. Esta vulgata multiculturalista determina que o racismo é um monopólio do homem branco. O 'outro' (os negros, os ciganos, etc.) só pode ser uma vítima do racismo branco. Por isso, os multiculturalistas ficam caladinhos quando surgem factos que comprovam a existência de racismo nas minorias étnicas. E este silêncio revela um pensamento racista. É isso mesmo: o politicamente correcto é um racismo cor-de-rosa. Isto porque os negros e os ciganos são tratados como crianças em ponto grande; crianças que nunca são responsabilizadas pelos seus actos. Balas esvoaçaram no meio da rua, mas a culpa é da Câmara de Loures! Este paternalismo que infantiliza o 'outro' só pode ser descrito com uma palavra: racismo. O politicamente correcto veste uma fatiota cor-de-rosa, mas não deixa de ser racista.

A 'comunidade' não puxa gatilhos. Até prova em contrário, apenas os indivíduos conseguem disparar uma arma. E aqueles "cowboys" da Quinta da Fonte têm de ser julgados; não podem ser desculpabilizados com base na cor da pele. Até porque a maioria das pessoas daquele bairro é gente decente que não merece ser confundida com criminosos. Meus caros, defender a tolerância implica tratar as pessoas como indivíduos - passíveis de serem responsabilizados - e não como índios a viver na impunidade de uma reserva cultural.

Esquerda reaccionária

Em 'Identidade e Violência' (Tinta-da-China), Amartya Sen critica o vício culturalista que insiste em fechar cada indivíduo na sua identidade étnica ou religiosa. A esquerda multiculturalista, diz Sen, acaba por cair no espírito reaccionário quando faz a defesa dogmática da preservação cultural. Os multiculturalistas consideram que a comunidade é mais importante do que a liberdade de escolha do indivíduo. Ora, os indivíduos não merecem a opressão do hífen multiculturalista: uma criança é uma criança, e não uma criança-cigana. Na verdade, a nova esquerda multiculturalista é tão reaccionária como a velha direita nacionalista. O multiculturalismo é uma espécie de nacionalismo regurgitado para as minorias.

Henrique Raposo  

Palavras-chave  opinião
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SuperAlhoPorro (seguir utilizador), 1 ponto , 12:54 | Segunda feira, 21 de julho de 2008
Fantástico.
Afinal parece que o racismo cor-de-rosa existe mesmo...
Por muito erros que se tenham cometido no passado (e cometeram-se muitos) e que se continuem a cometer no presente, a verdade é que a muitas destas pessoas foi dada uma oportunidade que muitos outros não tiveram: uma casa a que poderiam chamar lar, se assim o quisessem. A grande maioria dos Portugueses pagam (e bem) para ter uma casa. Muitas das vezes pior do que uma habitação num bairro social.
Eu pago para viver na minha casa. Se quiser mudar de casa, tenho que vender, comprar e pagar ao estado os impostos devidos. Com esses impostos o estado faz casas para abrigar pessoas que considera necessitadas, a preços moderados (baixos). O mínimo que EU posso pedir é RESPEITO. É o meu trabalho, são os meus impostos. E estou-me nas tintas se são pretos ou ciganos, chineses ou marcianos. Neste País há regras; quem as quer cumprir, vive em liberdade com os demais; quem não quer, terá direito a um quarto em instalações especiais com guarda 24 horas por dia: chama-se PRISÃO.
O que custa a enfrentar, para além do racismo entre pretos e ciganos, é a falência do sistema que permite que algumas destas pessoas, independentemente de quem são e das respectivas origens, se considerem credoras de toda a sociedade, o que não é verdade - bem pelo contrário.
 
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Quem vos mandou, Raposinho, tocar rabecão?
Trapezio (seguir utilizador), 1 ponto , 18:44 | Segunda feira, 21 de julho de 2008
"Em 'Identidade e Violência' (Tinta-da-China), Amartya Sen critica o vício culturalista que insiste em fechar cada indivíduo na sua identidade étnica ou religiosa. A esquerda multiculturalista, diz Sen, acaba por cair no espírito reaccionário quando faz a defesa dogmática da preservação cultural. Os multiculturalistas consideram que a comunidade é mais importante do que a liberdade de escolha do indivíduo. Ora, os indivíduos não merecem a opressão do hífen multiculturalista: uma criança é uma criança, e não uma criança-cigana. Na verdade, a nova esquerda multiculturalista é tão reaccionária como a velha direita nacionalista. O multiculturalismo é uma espécie de nacionalismo regurgitado para as minorias." (fim de citação)

Por vezes, a verdade acaba por ser dita pela boca de quem menos se espera! E digo isto porque, ao que me lembre, e não sou tão velho assim, essa noção de multiculturalismo (a que eu chamo, tão-só e simplesmente Império) só começou a aparecer depois do 11 de Setembro. O curioso é que eu sempre associei a expressão "multiculturalismo" à globalização, pois era precisamente esta última a principal força motriz dos grandes movimentos migratórios no mundo. Onde houvesse grandes empresas - de preferência multinacionais (e reparem nos anúncios da MacDonalds, por exemplo) - haveria sempre grande quantidade de imigrantes em busca de trabalho, ou seja, uma espécie de Império Romano do século XXI onde as noções de Estado-Nação típicas do princípio da Idade Moderna se perderiam gradualmente em favor da noção de um Império Global - ou a Nova Ordem Mundial - como diria o Bush-pai. O curioso é que, ao acusar esta "nova esquerda" (do Louçã e do Sócrates, já que não me revejo nela, pois sempre foram pró-globalização) de ser tão reaccionária quanto a velha direita nacionalista (do Paulo Portas, por exemplo), o Raposo acabou por mostrar que, por vezes, os extremos se tocam mais do que gostariam. Isto mostra que, afinal, apesar de nas aparências os políticos dos diversos partidos parecerem estar a digladiar-se com ideias bem definidas e opostas às dos seus adversários, a verdade é que TODOS ou GRANDE PARTE DESSES POLITICOS estão a trabalhar em prol de uma só causa: a Nova Ordem Mundial. É por isso que, neste momento, muitos interrogam-se por onde anda a oposição portuguesa ...

P.S.: Estou admirado com a capacidade de mobilização dos ciganos. Povo de RAÇA, como diria o Cavaco Silva ...
 
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    Re: O racismo cor-de-rosa    Ver comentário
marg.cabral (seguir utilizador), 1 ponto , 22:21 | Segunda feira, 21 de julho de 2008
    Re: O racismo cor-de-rosa    Ver comentário
Trapezio (seguir utilizador), 1 ponto , 11:33 | Terça feira, 22 de julho de 2008
    Re: O racismo cor-de-rosa    Ver comentário
marg.cabral (seguir utilizador), 1 ponto , 11:22 | Quarta feira, 23 de julho de 2008
    Re: O racismo cor-de-rosa    Ver comentário
Trapezio (seguir utilizador), 1 ponto , 16:19 | Quarta feira, 23 de julho de 2008
    Re: O racismo cor-de-rosa    Ver comentário
Rantaplan (seguir utilizador), 1 ponto , 23:23 | Quinta feira, 24 de julho de 2008
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