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O que mudou - e o resto

Ruben de Carvalho (www.expresso.pt)
0:01 Sexta feira, 25 de dezembro de 2009

Há pelo menos três motivos para ler as 470 páginas do livro com o coerentemente extenso título "When Everything Changed: The Amazing Journey of American Women from 1960 to the Present".

A autora, primeira mulher editora responsável do "New York Times", pertence à geração que nos anos de Bill Clinton encheu os títulos dos jornais: uma baby boomer, designação curiosamente quase sempre aplicada a homens... É, contudo, absolutamente característica da geração sobre a qual no fundo largamente fala: sua mãe, obrigada a pôr de parte o sonho de ser jornalista, foi operária da indústria de armamento durante a Segunda Guerra Mundial e, em 1945, trouxe Gail Collins ao mundo.

Não sendo o seu primeiro livro, a obra agora editada com generalizado aplauso consumiu quatro anos de manhãs e tardes antes e depois do labor jornalístico da autora e, em rigor, acaba por constituir um retrato não só mais vasto no tempo do que o título dá a entender, como proporciona uma invulgar e estimulante visão da condição feminina que se não se esgota na mais aprofundada análise norte-americana.

O primeiro e mais imediato motivo de interesse reside no exaustivo levantamento de uma situação que a cada vez mais curta memória colectiva tende a fazer esquecer: a hoje quase inconcebível situação da mulher há pouco mais de meio século, pese hoje se ter de reconhecer que se trata de questão longe de resolvida. Contudo, é importante recordar o juiz que recambiou para casa e para a procura de uma saia a jovem de 18 anos que nos anos 60 compareceu num tribunal da cosmopolita Nova Iorque - de calças! E fiquemo-nos pelo anedótico.

É contudo um segundo aspecto que torna o trabalho de Gail Collins especialmente importante: a abrangência de uma visão que torna claro que, sem nunca perder de vista a importância da militância directamente feminista, as grandes vitórias alcançadas nos direitos das mulheres jamais estiveram afastadas historicamente de outras causas sociais, económicas e políticas, da luta pelos direitos cívicos até ao quotidiano sindical. Betty Friedman foi determinante, mas igualmente o foram Rosa Parks ou Viola Liuzzo.

Num estilo característico da literatura de génese jornalística norte-americana, "When Everything Changes" é um inesgotável repositório de episódios, ora dramáticos, ora surpreendentes, como a inclusão dos direitos femininos no Civil Rights Act de 1964 sobre os direitos dos afro-americanos e que o fascizante representante da Virgínia, Howard Smith, introduzira como grosseira provocação e a combativa representante Martha Griffith impôs que lá ficasse!

A terceira razão para ler Gail Collins é o presente. Saber que, apesar de tudo, os últimos anos do século XX significaram retrocessos graves e que áreas como a saúde e a assistência estão longe de estar resolvidas.
Daqueles livros que são como a história: começam - mas não acabam!

Ruben de Carvalho

Texto publicado na edição do Expresso de 19 de Dezembro de 2009

 

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