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O prazer de Eça de Queiroz

Alexander Ellis, Embaixador Britânico
18:54 Terça feira, 12 de janeiro de 2010

Estou a ler, devagar e às vezes com a ajuda de um dicionário ambulante, - uma maneira pouco delicada de me referir à minha mulher - "O Crime do Padre Amaro", em português. É a terceira obra do mestre português que leio, depois de "Os Maias", que é o começo obrigatório e, a seguir, a "A cidade e as serras".

Escrevo isto com uma certa trepidação. Vocês obviamente conhecem a obra de Eça de Queiroz melhor que eu. Faz parte da educação portuguesa, da cultura portuguesa. Nós temos Dickens, os franceses Zola, e vocês o tal Eça. Estou a arriscar muito ao pôr o pé em águas já bem navegadas por outros, mas não consigo controlar o meu entusiasmo. Ele é mesmo brilhante, por muitas razões. Mas, para mim, Eça é brilhante sobretudo porque consegue juntar a arte narrativa à arte descritiva, como quase nenhum outro autor que já tenha lido. Talvez seja uma sorte que, por causa das minhas limitações linguísticas, eu tenha que avançar pelo texto lentamente e, assim, possa saborear devagar cada palavra e cada frase.

Há muita coisa que me interessa nas obras que já li, nomeadamente o pano de fundo político do século XIX, que serve como entrada para a narrativa. Por exemplo, as referências no início de "Os Maias" ao encontro do avô do Jacinto com D. Miguel, a descrição do pároco miguelista da Sé de Leiria, a história liberal de Afonso da Maia.

Mas o elemento mais notável para mim nestes romances é a sensualidade. Eça de Queiroz é incapaz de descrever uma cadeira sem entrar numa descrição do tecido que a cobre, um vestido sem dizer a sua cor, uma mulher sem fazer referência aos braços, aos olhos. Porque a sensualidade nestes livros é também dos objectos, não apenas das pessoas e cobre todos os aspectos. Basta citar o fim do segundo capítulo "Amaro abriu o seu Breviário, ajoelhou aos pés da cama, persignou-se; mas estava fatigado, vinham-lhe grandes bocejos; e então por cima, sobre o tecto, através das orações rituais que maquinalmente ia lendo, começou a sentir o tique-tique das botinas de Amélia e o ruído das saias engomadas que ela sacudia ao despir-se".

Outro aspecto destas delícias descritivas está nas refeições; não só a comida - o famoso peixe que fica preso no elevador na casa do Jacinto em Paris, les petits pois à la Cohen que faz parte do hilariante jantar do Cohen, a sumptuosa cabidela do Abade da Cortegaça - mas também o ambiente à mesa. O almoço do abade e o jantar dos Cohen seguem ritmos bastante parecidos, com explosões violentas; o grito de Ega "Portugal não necessita reformas, Cohen, Portugal o que precisa é a invasão espanhola", a fúria do Amaro quando o padre Natário lhe pergunta com espanto "toma a confissão a sério?"; e depois das explosões a calma, com as frases para pacificar as almas perturbadas "há talento, há saber" do Cohen, a chegada do vinho do Porto para tranquilizar Amaro.

Ele é, de facto, um génio; e falta-me apreciar quase toda a sua obra. Algumas recomendações suas para o próximo livro?

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Não trepide!
Marta Marques (seguir utilizador), 1 ponto , 21:14 | Terça feira, 12 de janeiro de 2010
Apesar de portuguesa devo confessar que depois de alguns livros lidos de Eça de Queiroz, ainda tenho vários por ler e um deles é precisamente "O Crime do Padre Amaro". É interessante que o que sempre me apaixona em Eça são as descrições (coisa que normalmente preciso de alguma paciência numa grande parte de outros escritores) e nunca tinha sistematizado o porquê. Devo dizer então que até me ajudou a racionalizar um pouco isso, é realmente a sensualidade e a cinematografia com que ele descreve cada cenário, cada pessoa, cada acção. Queiroz não queria só que percebessemos o contexto da linha narrativa, queria-nos atrair para ele e que o vivessemos! Obrigada por esta reflexão e não se esqueça de "A Relíquia" e já agora um mix de Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão em plena juventude, não genial, mas muito divertido "O Mistério da Estrada de Sintra"!
 
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Saborear Eça
Aurora Coruja (seguir utilizador), 1 ponto , 0:09 | Quarta feira, 13 de janeiro de 2010
A descrição da canja e dos ovos mexidos com chouriço n' "A Cidade e as Serras" ainda hoje me faz salivar...
Eça deve ler-se devagar, reler-se, saborear-se, rolar-se sob os dedos, de preferência sentindo seda suave e luxuosa...
Infelizmente, muitos portugueses não gostam desta literatura maravilhosa, porque é exigente, requer um conhecimento bastante abrangente de vocabulário pouco usual e a quase todos é apresentada pela porta d' "Os Maias", com a sua inesquecível mas avassaladora descrição do Ramalhete, que desencoraja os menos aventureiros. Ainda não li tudo o que aquele espantoso homem escreveu porque gosto de manter a esperança de ler algo inédito para mim quando for ficando mais velha e mais madura, mas gostaria de recomendar-lhe o "Conde de Abranhos". É uma sátira espantosa, um retrato político que nos faz sorrir pela sua actualidade e pela ironia quase malévola do discurso.
Aproveito também para lhe agradecer o olhar que nos dá sobre o nosso país, que tantas vezes não apreciamos devidamente. Ajuda-nos a gostar um pouco mais de Portugal e a vê-lo com maior benevolência, com uma complacência que muitas vezes nos escapa, e ajuda-nos também a ver a beleza que tão frequentemente nos escapa.
É óptimo podermos partilhar o bom com que fomos abençoados.
 
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Filipe I de Portugal
3S (seguir utilizador), 1 ponto , 15:27 | Quarta feira, 13 de janeiro de 2010
Ah:) que texto agradável.
Sugiro não o Eça que já conhece mas as “Cartas para duas infantas meninas / Portugal na correspondência de D. Filipe I para suas filhas (1581-1583)” http://openlibrary.org/b/... - Foi escrito por Filipe I de Portugal (Filipe II de Espanha, como sabe) e é engraçado ver parte do dia a dia do rei num relato simples.
Aqui há tempos mandaram-me a notícia de um evento “International Bugatti Meeting 2009 in Castiglione della Pescaia”. Eu sei que os Bugatti chegaram uns anos depois do Eça (por 1900 e pouco). Mas mesmo assim aqui vai http://www.youtube.com/wa... .
C
ML

 
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livros
long (seguir utilizador), 1 ponto , 19:46 | Quarta feira, 13 de janeiro de 2010
aqui vão a sminha sugestões:

1. terra java - joão lopez marquez - q diz como a austrália foi descoberta por portugueses e não pelos ingleses.

2. Hoje não - josé luiz peixoto

3. furia divina - josé rodrigues dos santos

boa leitura
 
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    Que horror!!!    Ver comentário
Professor.com.muita. (seguir utilizador), 1 ponto , 23:58 | Quarta feira, 13 de janeiro de 2010
    Re: Que horror!!!    Ver comentário
long (seguir utilizador), 1 ponto , 9:04 | Quinta feira, 14 de janeiro de 2010
    A piada do "quase português"    Ver comentário
Professor.com.muita. (seguir utilizador), 1 ponto , 0:08 | Sexta feira, 15 de janeiro de 2010
    Re: livros    Ver comentário
certo iactu (seguir utilizador), 1 ponto , 12:06 | Quinta feira, 14 de janeiro de 2010
    Re: livros    Ver comentário
Tibiriçá.... (seguir utilizador), 1 ponto , 2:15 | Segunda feira, 18 de janeiro de 2010
Mais livros de Eça
Professor.com.muita. (seguir utilizador), 1 ponto , 23:47 | Quarta feira, 13 de janeiro de 2010
Perdoe-me a ousadia, mas sugiro-lhe alguns outros livros do Eça.

NA minha opinião o livro de Eça que descreve melhor o que é Portugal e os portugueses, é a Ilustre Casa de Ramires, até porque neste livro, Eça é algo carinhoso com essa figura do "português", ao contrário da sua habitual ironia e cinismo.

"O Conde de Abranhos" é um livro genialmente cómico, de tal modo difícil de adaptar a filme, que o filme que foi feito sobre ele não apanhou o humor do livro.Recomendo vivamente.
Só a carta inicial do secretário à viúva é de rir..

ALém destes e dos que já leu, são absolutamente geniais (na minha humilde opinião)
" A Reliquia" ,
  " A Capital"
  " O Mandarim"
  " Alves e C&" e
    "Uma Campanha Alegre"
" O primo Basílio"

Confesso que o Mistério da Estrada de SIntra não me encheu as medidas, bem como a maior parte dos contos e as obras não-ficção.

Dos livros que elogiei acima, mais os que já leu, digo que bastava-me ter escrito um deles para sentir que já tinha feito que chegue para justificar a minha passagem pelo mundo.

Ora o Eça (como o invejo) escreveu uma série deles.
 
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    Re: Mais livros de Eça    Ver comentário
Tibiriçá.... (seguir utilizador), 1 ponto , 2:02 | Segunda feira, 18 de janeiro de 2010
    Re: Mais livros de Eça    Ver comentário
Tibiriçá.... (seguir utilizador), 1 ponto , 2:05 | Segunda feira, 18 de janeiro de 2010
Não resisto
Re_em_causa_propria (seguir utilizador), 1 ponto , 10:36 | Sexta feira, 15 de janeiro de 2010
Ler o seu comentário é quase ler Eça....Leia leia Ele é excelente mesmo :-)
 
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Boas sugestões!
CatarinaConde (seguir utilizador), 1 ponto , 1:36 | Segunda feira, 18 de janeiro de 2010
Antes de mais queria agradecer-lhe por trazer este tema ao seu blog. Eça é de facto brilhante. E com certeza irei aproveitar algumas sugestões de leitura colocadas nos posts.

Relativamente ao ensino do Português nas escolas, quando estudei Eça, fui "obrigada" a ler os Maias, o que resultou no efeito contrário (porque se nos obrigam é porque não deve ser muito bom) e acabei por comprar os resumos. Isto porque, o que se pretendia avaliar eram factos do livro.

Em minha opinião, Eça deveria ser estudado, mas a sua leitura apenas sugerida (mais que uma obra do autor). Ao "obrigarem" alguém a memorizar factos de um livro, não permitem que o leitor "sinta" a obra e naturalmente não a poderá apreciar completamente.

Só alguns anos mais tarde resolvi ler um livro de Eça de Queiroz e começei precisamente pelo "Crime do Padre Amaro". Adorei o livro em todos os aspectos da magnífica escrita de Eça e li-o em muito pouco tempo. Em seguida li os Maias que também devorei.

Resta-me desejar... boas leituras!
 
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    Re: Boas sugestões!    Ver comentário
Tibiriçá.... (seguir utilizador), 1 ponto , 2:24 | Segunda feira, 18 de janeiro de 2010
    Re: Boas sugestões!    Ver comentário
3S (seguir utilizador), 1 ponto , 9:58 | Segunda feira, 18 de janeiro de 2010
Camilo Castelo Branco, Júlio Diniz
goias (seguir utilizador), 1 ponto , 15:04 | Quarta feira, 20 de janeiro de 2010
Ousaria sugerir também, paralelamente a Eça, Camilo Castelo Branco, por exemplo, "A brasileira de Prazins" que curiosamente também passa pelo personagem de D. Miguel. É um escritor de génio, com muita graça. E Júlio Diniz, por exemplo, "A Morgadinha dos Canaviais".

Julgo que a seu modo não ficam atrás de Eça de Queiroz.

 
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