Já se sabia que nos verdejantes campos de golfe se faziam a céu aberto grandes negociatas escuras. Agora, graças a Tiger Woods e às suas 11 amantes também se ficou a saber que até o nosso Cristiano Ronaldo é um tenrinho. Ah, rapazes e desporto: dêem-lhes a sensação de poder ilimitado, autoconfiança de um Deus, a conta bancária de um xeque, um telemóvel com saldo e vá-se lá saber como eles começam a mandar sms malandros a miúdas. Independentemente se jogam golfe, boxe ou curling. Mas enquanto se discute o drama que as infidelidades de Tiger Woods podem ter infligido à reputação do classicista golfe gostaria de entender como é que de repente o póquer, esse jogo de cartas, perdição, com mulheres, fumo e uísque se tornou ele próprio um desporto aceitável, clean, assim como nos filmes de gangsters, a determinada altura, o Boss decide dedicar-se ao negócio da importação de carnes ou investir na sucata.
O póquer é hoje uma espécie de 'Novas Oportunidades' para rapaziada nova, pois promete uma carreira de futuro para os que têm argúcia e ousadia, capital para investir e capacidade para estar muitas horas sentado. Há programas na SIC Radical, no Eurosport e o Poker Channel transmite 24 horas no Cabo. O póquer ganhou uma patine tão respeitável que este ano se realizou mesmo em Portugal o 1º Campeonato Universitário com um prémio de 10 mil dólares americanos. Desconhece-se se algum destes estudantes participou no fim-de-semana passado, em Paredes, na reunião dos Jogadores Anónimos.
Os defensores do póquer dão sempre uma aura mental e estratégica ao jogo - perdão, ao seu desporto, colocando o casino apenas como pano verde circunstancial. O póquer seria assim um xadrez de cartas com uma percentagem de sorte no dealing, a que se junta a capacidade de autocontrolo e interpretativa na interacção, em que o bluff enquanto anulação de emotividade - mesmo ao nível fisiológico - exigiria algo especial do jogador. Pode ser. Mas tem dinheiro em jogo. E todas as componentes que levam à adição, dizem os psicólogos. Para não falar do póquer online, o grosso da poquermania hoje em dia.
O interessante foi constatar como foi possível adaptar um jogo de cartas silencioso à linguagem televisiva. O drama é activamente narrado (até há dois comentadores portugueses no Eurosport), que dão intensidade e descodificam as regras. Os jogadores são eles próprios fashion statements (excessivamente carregados de marcas dinheiro novo, de Gucci a Versace) mas com grande densidade e carga psicológica - afinal estão todos a fazer poker face - mas com um ar exótico e circense. O telespectador tem acesso a uma câmara que lhe permite saber as mãos de todos os jogadores. As decisões de quem arrisca são acompanhadas por quem está no sofá. Tal como acontece nos concursos de cultura geral, dá sempre aquela sensação de que 'até eu era capaz'.
Olhe-se para o franzino Joe Cada, um americano de 21 anos do Michigan que ganhou, em Julho, o World Series- o prémio de 8,547,042 milhões de dólares. Um prémio de póquer recebe-se sempre em dólar vivo, em 'narta' verdadeira. O que levanta a questão: para Joe ganhar 8,547,042 milhões de dólares alguém teve que os perder, certo? Terão eles ido à reunião dos Jogadores Anónimos, no fim-de-semana passado, em Paredes? Desconheço.
Verdade se diga que durante anos a ignorância das regras do basebol ou do futebol americano foram muitas vezes impeditivas para se compreender muito plot de filme. Tanta vez escapou a relação do encadeamento amoroso e problema no ombro do lançador. Agora, depois de ver uns quantos torneios de Texas hold'em, continuo a não pescar as regras mas pelo que vi de certeza que ganhava aquilo nas calmas.
Mas quando revejo "A Golpada" (The Sting) ainda torço pelo Newman e pelo Redford: burlões e não 'desportistas' como os jogadores de póquer da actualidade mas mulherengos como os golfistas do final de 2009.
Texto publicado na edição do Expresso de 19 de Dezembro de 2009