Duas semanas após ter sido considerado um mito, eis que voltam a garantir que existe. Onde? Algures
No início de Janeiro, duas notícias científicas chamaram a atenção do consumidor médio de informação: o telescópio Hubble capturou uma imagem do Universo quando este ainda era bebé - e tinha apenas 600 milhões de anos após o Big Bang; um estudo britânico revelou que o Ponto G, esse misterioso eldorado do prazer feminino, era afinal "um produto da imaginação das mulheres influenciado pelas revistas e por terapeutas", não existindo bases fisiológicas para suportar a sua existência.
Ora, 15 dias após estas duas informações terem sido publicitadas ninguém coloca em causa que um telescópio possa ter fotografado o "nosso" Universo ainda em fraldas, mas avolumam-se as dúvidas em relação ao estudo dos cientistas do King's College, de Londres, que utilizou mais de 1800 mulheres gémeas, idênticas e não idênticas, de idades entre 23 e 83 anos, que se centrou na questão genética e que visou descobrir a existência de uma zona erógena na anatomia do corpo feminino do tamanho de uma moeda de 5 cêntimos.
Nos dias que se seguiram à alegada morte do Ponto G várias colunistas conformadas mencionaram que era um alívio e que até era melhor assim, que sempre era menos uma pressão, dados os casos de mulheres destroçadas por nunca terem encontrado o supracitado. Mas logo surgiram as que defendem ter o seu G bem cuidado e acarinhado e que não seria um estudo que faria com que elas o mandassem porta fora.
Finalmente, veio o contra-ataque da poderosa indústria do Ponto G.
Por um lado, há as dezenas de tipos de dildos de forma estrambólica unicamente para o Ponto G que teriam de ir para reciclagem, ou os cirurgiões que "constroem" pontos G artificiais, ou muito terapeuta que teria que se explicar, e há um imenso mundo editorial que roda à volta do G que não pode desaparecer: dezenas e dezenas de títulos apenas dedicados a esse cluster.
Beverly Whipple é possivelmente a maior expert mundial em Ponto G, uma das grandes especialistas em sexualidade humana, professora na Universidade de Rutgers, tem um livro sobre o Ponto G que vendeu mais de um milhão de cópias. Já olhou para o estudo das gémeas do King's College e ditou o que está errado. O problema não está nelas... mas sim nos parceiros das gémeas.
Exacto. Duas semanas após ter sido decretada a morte do Ponto G arranjou-se o bode expiatório de sempre para o ressuscitar: o ponto continua lá, algures, mesmo em gémeas idênticas. A culpa é da qualidade dos amantes. Há uns que conseguem lá chegar, outros que são uns patetas. Ilibam-se as mulheres disto que, sejamos francos, podiam fazer o favor de proceder a alguma investigação prévia. Mas, claro está, o órgão sexual feminino das mulheres é ultracomplexo, pois é o cérebro, e por isso é tão enigmático. Deixem as tarefas de trabalho efectivo para os companheiros. Digam-lhes: "Meu amigo... temos mesmo um 'interruptor mágico'. Cabe-te a ti acreditar que existe e descobri-lo... agora vai... sem pressão." Ora, sabe-se que a pressão e sexualidade masculina é uma relação binária. Onde há uma não há outra. Desenrasquem-se a descobrir 'isso', mito ou não mito.
Há, contudo, outras questões por esclarecer. Uma delas é que há testemunhos credíveis de homens que garantem ter estado lá, regressado e agora se sentem confusos: O que foi aquilo? Onde estive, afinal? Fui enganado? Aquele não era o local assinalado no mapa? O GPS não explodiu em milhares de luzinhas como o réveillon do Funchal? Ora, tudo isto é muito perturbador.
Há 60 anos que o médico alemão Ernst Grafenberg destapou esta caixa de Pandora ao descrever uma zona na anatomia feminina que seria baptizada como Ponto G em sua honra. Compreende-se que haja um lóbi muito poderoso que queira manter vivo este mito - se é que é um mito. Mas a Ciência necessita da Verdade e nós homens queremos saber se podemos abandonar as buscas. De uma vez por todas. Nem que para isso tenham que redireccionar o Hubble.
Ciência
Este assunto está longe de estar morto. O Ponto G não vai desaparecer sem dar luta. Os investigadores franceses Odile Buisson e Pierre Foldès têm neste momento para publicação no "Journal of Sexual Medicine" um estudo com ultra-sons em casais a terem relações onde se garantem provas fisiológicas da existência do dito. The G show must go on!
Exemplos de vibradores para o Ponto G
Texto publicado na edição da Única de 16 de Janeiro de 2010