É da gíria desportiva que em equipa que ganha não se mexe. Da vitória do Partido Socialista nas últimas eleições, resultou um Governo comandado por um primeiro-ministro que se mantém (equipa que ganha...) e é formado por catorze ministros, dos quais oito são novos.
Se em futebol um treinador mexesse em mais de metade do seu plantel de uma temporada para a outra, o que diriam os adeptos? Uma mexida com esta dimensão só pode ser o resultado de um desagrado do treinador com a equipa, ou o desagrado dos jogadores para com o clube ou com o treinador...
Por isso, ou venceu a velhice e o cansaço dos membros da equipa ou o treinador não considera que tenha sido uma vitória... E a manutenção do ministro das Finanças não dá qualquer espaço à tese do "cansaço dos ministros". Pois não foi ele, ao responder a Adão da Fonseca, que disse quem teria razões para estar cansado era o ministro? E não está!
Nesta mexida, o 'treinador' resolveu manter duas pedras-base que terão o efeito de acalmar os nervos dos adeptos mais críticos da equipa: o prof. Teixeira dos Santos e o dr. Vieira da Silva.
O que poderão fazer estes dois jogadores ao soar o apito para uma nova temporada?
Podemos esperar que irão tentar implementar um programa de governo sufragado em escrutínio universal.
Porém, a realidade vai ultrapassar o planeado, e penso que a execução orçamental de 2010 e 2011 será seriamente afectada pela realidade que infelizmente vai teimar em afastar-se do que forem os pressupostos enunciados.
Fernando Teixeira dos Santos sabe bem que a realidade segue teimosamente o seu curso e que o exercício orçamental é uma lei que se aprova mas que dificilmente se faz cumprir. Se assim fosse nunca haveria crises, as receitas seriam sempre obtidas e as despesas nunca derrapariam.
O crescimento económico e o actual estado das Finanças Públicas portuguesas serão a condicionante mais séria do desenvolvimento de Portugal, uma vez que atingimos valores para o endividamento público directo e indirecto que nos fazem ser demasiado cautelosos com os tipos de gastos a realizar.
Simultaneamente, começamos a assistir a uma inversão nas políticas orçamentais europeias e mundiais no sentido de pensar seriamente em reequilibrar os orçamentos públicos em resultado de sinais cada vez mais seguros de uma recuperação das economias.
Por isso, se a posição de Teixeira dos Santos no anterior plantel parecia ser o de trinco colocado à frente da defesa, agora vai ter de jogar ainda mais recuado, talvez mesmo atrás da linha mais atrasada em suporte directo ao guarda-redes.
No que respeita a Vieira da Silva, habituado a acudir às pessoas, vai agora tentar acudir às empresas, muitas delas famílias-empresa, num país onde o tecido empresarial mais numeroso é constituído por pequenas e micro-empresas, a quem apetece dar uma ajuda humanitária.
Porém, um país não se governa assim. O futuro de Portugal não está na abertura de pastelarias, lojas de roupa de senhora ou biscateiros de subempreitadas em obra pública.
Esse modelo está esgotado. E Vieira da Silva sabe que não vale a pena atrasar bolas para a defesa, porque os bons golos marcam-se na baliza do outro lado do campo.
João Duque
, Professor Catedrático do ISEG
Texto publicado na edição do Expresso de 31 de Outubro de 2009