Nos últimos tempos tornou-se moda dizer mal de organismos internacionais que tecem críticas à economia portuguesa, em especial o Fundo Monetário Internacional. A credibilidade do FMI não é de facto a melhor após alguns desaires conseguidos em intervenções junto de certas economias das quais a Argentina, em 2001, é o exemplo mais recente. É claro que dá um jeito enorme dizer agora que o FMI está errado quando esta organização, relatório após relatório, traça um futuro a preto e branco para a economia portuguesa. A verdade incomoda, mas não deve estar nada longe do destino que nos espera.
"A crise económica acentuou problemas pré-existentes, de origem interna, de crescimento anémico da produtividade, de um grande desvio da competitividade e de níveis de dívida elevados." Estas são as causas.
"Com a economia altamente endividada, condições monetárias provavelmente mais restritiva (taxas de juro mais altas), fraca produtividade e necessidade de consolidação da posição orçamental, Portugal deverá continuar a registar um crescimento inferior ao da área do euro e elevados níveis de emprego". Este é o fado.
"O Governo deve reduzir o seu défice, as empresas têm de se tornar mais eficientes e o trabalho mais flexível e produtivo e as famílias devem poupar mais". Esta é a solução.
Mas para que isso seja possível é necessário: 1 - "uma liderança determinada ao longo de muitos anos"; 2 - uma grande consolidação orçamental através da "redução da despesa corrente primária, especialmente da massa salarial do sector público e das transferências sociais". 3 - "aumentar a competitividade e a flexibilidade dos ainda muito regulados mercados de trabalho e serviços".
Quando olhamos para esta receita é fácil perceber o destino das propostas, o lixo!
Não temos uma liderança forte. Temos um Governo cada vez mais fragilizado e que nunca teve (nem no anterior executivo) uma liderança que fosse capaz de implementar, de forma séria, medidas impopulares, quanto mais anunciar que a função pública tem de ganhar menos, que a protecção social tem de ser mais eficiente e que temos de flexibilizar o mercado de trabalho e dos serviços. E em oposição a um governo fraco temos uma oposição irresponsável com os olhos postos no seu umbigo.
Anda o FMI preocupado a tentar estabelecer um rumo para a economia e nós preferimos discutir a melhor maneira de construir estradas. No plano do FMI não há sequer espaço para mais estradas, mas no plano do Governo, as estradas são o 'ovo de Colombo' e no da oposição também, mas feitas de maneira totalmente igual.
Somos inteligentes ao ponto de perceber o que está mal e burros ao ponto de nada fazer para o alterar. É triste, mas Portugal tem de viver com os políticos que tem.
João Vieira Pereira
Texto publicado na edição do Expresso de 5 de Dezembro de 2009