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O PCP e o 'social'

Henrique Raposo (www.expresso.pt)
0:00 Sexta feira, 10 de setembro de 2010

Devia ser uma coisa proibida pelas leis da física e da metafísica, mas ei-la: em 2010, o PCP ainda mexe. Aliás, neste momento, o ancião estalinista está ali a abanar a bundinha marxista na festa do "Avante!". Ora, eu podia estar aqui o resto da tarde a brincar com estas imagens e metáforas em redor da última marquise da URSS. Por outras palavras, eu podia encher esta coluna com piruetas estilísticas, com o objetivo sacana de gozar com o PCP. Mas isso seria demasiado fácil. Com esses jogos metafóricos, eu iria, com certeza, divertir o leitor (e o meu ego), mas estaria a evitar a pergunta incómoda: por que razão o PCP ainda tem quase 10% do eleitorado? Por que razão Portugal é o único país da Europa com um PC forte?

O alimento do PCP é o ressentimento social que ensombra o país. No autocarro, no metro, no barbeiro, na frutaria, podemos ouvir e sentir a raiva do povo contra os 'gajos da massa', contra a 'malta do poleiro'. E esta raiva é a razão de ser do PCP (e do BE). Podemos até dizer que o PCP (e o BE) baseia a sua retórica numa espécie de racismo social contra os 'ricos'. Este racismo social, que desumaniza o 'rico', é altamente criticável, mas isso não invalida a pergunta: por que razão este discurso de ódio tem quase 10% de aprovação (ou quase 20%, se contarmos com o BE)? Porquê? Por que razão este populismo odioso tem tanta aceitação em Portugal? A meu ver, a resposta a esta questão tem duas faces, que se alimentam mutuamente. A primeira face é retilínea, pois resulta de dados mui objetivos e mensuráveis. A segunda é sinuosa e difícil de definir, dado que nasce de variáveis, digamos, gasosas e pouco quantificáveis. Apesar da sua natureza gasosa, esta variável não é fraquinha. Pelo contrário.

De forma objetiva, Portugal é o país mais desigual da Europa. Como já aqui escrevi, a chefia de uma PT recebe como se estivesse em Manhattan, enquanto a maioria dos trabalhadores recebe um salário que permite a sobrevivência suburbana em Odivelas. Como é óbvio, o PCP (e o BE) aproveitam o ressentimento que preenche o espaço entre a 'Manhattan lisboeta' e Odivelas. Porque o ressentimento exige sempre uma manifestação política. Sempre. O ressentimento está para a política como a lei da gravidade está para a física. Bom, esta é a causa objetiva que explica a resistência do PCP. Vamos agora à causa mais sinuosa e subjetiva, que está relacionada com os tiques 'sociais' da elite.

O ressentimento aproveitado pelo PCP também deriva dos códigos sociais que atravessam 'Lesboa'. Estou a falar daqueles maneirismos meio tontos (ex: dar um único beijinho, e não dois) que abastecem um certo ego social. Estes códigos, que aparentam ser inocentes, criam uma barreira social entre o topo e a base. E quem está na base sente isso. As 'sopeiras' podem ser 'sopeiras', mas não são parvas (até porque, depois, vingam-se através do voto no PCP). Esta questão social, meus amigos, não é de somenos importância. Não é um pormenor. É um 'pormaior' omnipresente na sociedade portuguesa. Silenciosamente omnipresente. Não se fala disto, mas isto escorre por todas as paredes. Às vezes, até tenho a impressão de estar no meio de uma eterna guerra social entre Odivelas e a 'Manhattan'. Pior: às vezes, penso que esta guerra social é a essência da política em Portugal. E, não por acaso, começo a achar que estou a perder tempo a estudar a história pública do país. Se calhar, Portugal só é explicável através da sua história privada. Em todo o caso, vou começar a dar três beijinhos, que é para ninguém se ficar a rir.

Henrique Raposo

Texto publicado na edição do Expresso de 4 de setembro de 2010

 

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As "naturezas gasosas" da esquerda portuguesa
Durruti Blak (seguir utilizador), 1 ponto , 9:16 | Sexta feira, 10 de setembro de 2010
Já lá dizia a Suzaninha do Quino, que para além de serem pobres ainda gastam o dinheiro em coisas em segunda mão...
Para este nosso estudante da “história pública do país”, para além dessa “espécie de racismo social contra os 'ricos'”, a existência da esquerda parlamentar portuguesa (“o PCP (e o BE)”) tem também a ver com aqueles “maneirismos meio tontos (ex: dar um único beijinho, e não dois)”.
Vou deixar os “maneirismos meio tontos” de lado porque é apenas uma (mais uma) das já habituais conclusões “meia tontas” do nosso brilhante estudioso das “naturezas gasosas” da esquerda portuguesa, para me concentrar no “racismo social contra os 'ricos'” por parte de algum dos “trabalhadores (que) recebe(m) um salário que permite a sobrevivência suburbana em Odivelas” – sim, é isso, meu caro rapazola, é essa coisa feia do “racismo social, que desumaniza o 'rico'” e que “é altamente criticável”; sim, são uns egoístas que não podem ver ninguém a viver “como se estivesse em Manhattan” e não se contentam em sobreviver em Odivelas; sim, porque ao contrário deles, “a chefia de uma PT” fez por merecer viver “em Manhattan”: ele trabalhou e trabalhou... e trabalhou. Ou como diria o outro: “Falar pouco, trabalhar muito e pôr os outros a trabalhar muito” é que é a regra para chegar a “Manhattan”.
 
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Em todo o caso, vou começar a dar três beijinhos..
sabemius (seguir utilizador), 1 ponto , 20:55 | Sexta feira, 10 de setembro de 2010
Em todo o caso, vou começar a dar três beijinhos... Aproveitador!!!
 
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