Devia ser uma coisa proibida pelas leis da física e da metafísica, mas ei-la: em 2010, o PCP ainda mexe. Aliás, neste momento, o ancião estalinista está ali a abanar a bundinha marxista na festa do "Avante!". Ora, eu podia estar aqui o resto da tarde a brincar com estas imagens e metáforas em redor da última marquise da URSS. Por outras palavras, eu podia encher esta coluna com piruetas estilísticas, com o objetivo sacana de gozar com o PCP. Mas isso seria demasiado fácil. Com esses jogos metafóricos, eu iria, com certeza, divertir o leitor (e o meu ego), mas estaria a evitar a pergunta incómoda: por que razão o PCP ainda tem quase 10% do eleitorado? Por que razão Portugal é o único país da Europa com um PC forte?
O alimento do PCP é o ressentimento social que ensombra o país. No autocarro, no metro, no barbeiro, na frutaria, podemos ouvir e sentir a raiva do povo contra os 'gajos da massa', contra a 'malta do poleiro'. E esta raiva é a razão de ser do PCP (e do BE). Podemos até dizer que o PCP (e o BE) baseia a sua retórica numa espécie de racismo social contra os 'ricos'. Este racismo social, que desumaniza o 'rico', é altamente criticável, mas isso não invalida a pergunta: por que razão este discurso de ódio tem quase 10% de aprovação (ou quase 20%, se contarmos com o BE)? Porquê? Por que razão este populismo odioso tem tanta aceitação em Portugal? A meu ver, a resposta a esta questão tem duas faces, que se alimentam mutuamente. A primeira face é retilínea, pois resulta de dados mui objetivos e mensuráveis. A segunda é sinuosa e difícil de definir, dado que nasce de variáveis, digamos, gasosas e pouco quantificáveis. Apesar da sua natureza gasosa, esta variável não é fraquinha. Pelo contrário.
De forma objetiva, Portugal é o país mais desigual da Europa. Como já aqui escrevi, a chefia de uma PT recebe como se estivesse em Manhattan, enquanto a maioria dos trabalhadores recebe um salário que permite a sobrevivência suburbana em Odivelas. Como é óbvio, o PCP (e o BE) aproveitam o ressentimento que preenche o espaço entre a 'Manhattan lisboeta' e Odivelas. Porque o ressentimento exige sempre uma manifestação política. Sempre. O ressentimento está para a política como a lei da gravidade está para a física. Bom, esta é a causa objetiva que explica a resistência do PCP. Vamos agora à causa mais sinuosa e subjetiva, que está relacionada com os tiques 'sociais' da elite.
O ressentimento aproveitado pelo PCP também deriva dos códigos sociais que atravessam 'Lesboa'. Estou a falar daqueles maneirismos meio tontos (ex: dar um único beijinho, e não dois) que abastecem um certo ego social. Estes códigos, que aparentam ser inocentes, criam uma barreira social entre o topo e a base. E quem está na base sente isso. As 'sopeiras' podem ser 'sopeiras', mas não são parvas (até porque, depois, vingam-se através do voto no PCP). Esta questão social, meus amigos, não é de somenos importância. Não é um pormenor. É um 'pormaior' omnipresente na sociedade portuguesa. Silenciosamente omnipresente. Não se fala disto, mas isto escorre por todas as paredes. Às vezes, até tenho a impressão de estar no meio de uma eterna guerra social entre Odivelas e a 'Manhattan'. Pior: às vezes, penso que esta guerra social é a essência da política em Portugal. E, não por acaso, começo a achar que estou a perder tempo a estudar a história pública do país. Se calhar, Portugal só é explicável através da sua história privada. Em todo o caso, vou começar a dar três beijinhos, que é para ninguém se ficar a rir.
Henrique Raposo
Texto publicado na edição do Expresso de 4 de setembro de 2010