No Sábado, em plena campanha eleitoral, os professores voltaram a desfilar em Lisboa. A manifestação entupiu a cidade inteira. Ultrapassou as duas grandes manifestações anteriores. Em fantasmas.
De carne e osso eram mil e quinhentos a dois mil, segundo a Associação de Professores e Educadores em Defesa do Ensino (APEDE). Mil, segundo a polícia. O Expresso falava em dezenas.
Os docentes, uma vez mais, trajavam de negro. "Estou de luto pela Educação". Quando estiverem de luto a sério, vestirão de vermelho? De laranja? Desfilarão em Bloco? Irão de setinhas apontadas ao centro?
Nas t-shirts via-se a proposição afectuosa: "Adeus Milú, os professores não querem o PS de Sócrates". Antes da Assembleia da República, tinham-se concentrado frente ao Ministério da Educação e ao Palácio de Belém. Eram docentes concentrados. Não sabemos bem em quê. No Estatuto? Na Avaliação? Apenas na militância anti?
A manifestação fora convocada por três movimentos que surgiram da poeira da contestação ao modelo de avaliação docente. O Movimento Mobilização e Unidade dos Professores (MUP), a referida APEDE, o Movimento POMOVA. Agremiações oscilando entre o grupinho neo-antifascista, a associação columbófila, a seita religiosa, a agência imobiliária. Todos muito "independentes".
Sabemos que a "independência" procede da dependência. Uma das presentes, Eva Gonçalves, segundo o jornal "Público", garantia ir "votar na Manuela Ferreira Leite, pelo menos votamos numa que nunca experimentámos". Eva, que deve ter saído da costela de algum Adão social-democrata, nasceu apenas para o Ensino no passado Sábado. Ou tem memória de galinha.
Manuela Ferreira Leite, apesar da carranca seráfica, não é virgem. Já foi ministra da Educação, entre Dezembro de 1993 e Outubro de 1995. Na altura não falava em "asfixia democrática". Mas proibiu os professores de fazerem declarações públicas. E, como ministra das Finanças, não trocou o IRS pelo IRC. Só que, entre outras generosidades - como a introdução da prática de extorsão do Estado ao contribuinte, através dos famigerados "pagamentos por conta" -, impôs o tecto de noventa por cento do vencimento nas pensões de aposentação de professores e funcionários públicos.
MUP pouco. APEDE muito. PROMOVA tudo. Estes espectros de organizações corporativas, virtuais e pouco virtuosas, que se intrometem abusivamente na campanha eleitoral - diabolizando um dos partidos concorrentes, e apenas um deles - causam-me estupor. "Votem em quem quiserem, menos no Partido Socialista de Sócrates". Ou "Se Sócrates se candidatar ao governo do Inferno, nós votamos no Diabo". Nunca tal se viu, à descarada, em eleições anteriores.
É pena que estes professores já não tenham tempo de concorrer a eleições em falange própria. Em democracia, deviam ter coragem para fazê-lo. Deixo aqui uns conselhos a qualquer destemido aspirante a sectário-geral.
Em primeiro lugar, deve constituir o Partido dos Professores (PDP), o Partido dos Professores Democratas (PPD) ou o Partido dos Professores Anti-PS (PAS). Depois, fazer o trabalhinho maçudo, demorado, de duvidosa recompensa. Recolher assinaturas, bilhetes de identidade, papelada diversa. Legalizar o partido. Receber a subvenção do Estado, tanto mais pródiga quanto maior a clientela.
E, partido bem aparelhado, ir à luta. Visitar feiras, mercados, empresas, hospitais. Cheirar a vida e o povo nas suas actividades. Distribuir sorrisos, beijocas, tanganhadas, papelinhos. Ouvir o bom e o impensável. Provar mesmo que a vida cá fora tem aroma diferente do da redoma escolar.
Finalmente, pelo crepúsculo domingueiro, aguardar as projecções dos resultados eleitorais. Roer as unhas, noite adentro. Amargar ante o desfecho.
Aborrecido? Claro! Mas muito mais honrado do que sujeitar o corpinho a chuvascos, em manifestações pífias, cívica e deontologicamente reprováveis.
Além do mais, em tempos de gripe suína, evitar ajuntamentos. É que, não conseguindo contagiar, acaba-se contagiado.