Nas próximas presidenciais a direita tem duas possibilidades: ou aposta na recandidatura de Cavaco Silva, o menos consensual de todos os presidentes eleitos que este país teve nos últimos 35 anos, ou vai ter de desencantar uma figura de terceira linha. Como se vê pelo PSD, não se conhece ninguém capaz de unir aquelas hostes.
Nas próximas presidenciais a esquerda tem duas possibilidades: ou encontra um candidato que possa ser apoiado pelo conjunto da esquerda ou terá pelo menos três candidaturas. Sem essa figura, haverá um apoiante de Sócrates, condenado ao fracasso. E PCP e Bloco acabarão inevitavelmente por tentar, mais uma vez, contar espingardas.
Por mais que se puxe pela cabeça, só há um candidato capaz de juntar, pela sua história, o PS, e pelo seu posicionamento nos últimos anos, o Bloco e o PCP. Sou insuspeito. Poucos foram os elogios que Manuel Alegre me mereceu. Não seria a minha primeira escolha. Mil vezes, por exemplo, um Carvalho da Silva. Mas a política é a nossa vontade mais as circunstâncias. E Manuel Alegre é o único candidato em condições de conseguir duas coisas em simultâneo: arrancar uma vitória a Cavaco Silva ou a outro candidato de direita, juntando o voto socialista ao do resto da esquerda, e, ao mesmo tempo, manter-se, caso seja eleito, independente de José Sócrates.
Esperemos que por uma vez a esquerda se entenda. E desta vez a divisão provável pode vir do interior do PS. Não deixaria de ser irónico que, depois de décadas de apelo ao voto útil, fosse o PS a matar à nascença uma candidatura vencedora à esquerda. Nas próximas presidenciais, a esquerda pode ter um candidato que não represente nenhuma das suas correntes partidárias. Uma condição: se Alegre avança, só pode lançar a sua candidatura sem patronos prévios. Se se limitar a ser o candidato do PS, perde. Se for o candidato dos outros que o PS engole, também perde. A sua eleição traria uma excelente notícia: fazer com que as presidenciais deixassem de ser um mero prolongamento das legislativas.
2012
Os tremendistas sempre pegaram bem. E agora dão cartas no país. Perdidos e sem grandes exemplos a seguir, os portugueses viram-se para os homens que lhes anunciam a hecatombe e que disparam para todos os lados sem qualquer critério. No estilo erudito, Vasco Pulido Valente. A cobrar à bandeirada, Medina Carreira. Os apóstolos do Apocalipse têm colunas nos jornais e programas televisivos em plano inclinado. Trazem-nos a boa nova: o mundo está a acabar e Portugal já acabou. Não há nada a fazer. Ninguém presta. Os portugueses não trabalham, os políticos não valem nada e, tirando eles próprios - todos portugueses e alguns deles ex-governantes -, apenas há gente incapaz e incompetente. Quem os ouve e lê pensa sempre que é de outros que eles estão a falar. Não, caro leitor, é a si que eles se referem.
Espero que um dia esta gente perceba a inutilidade do que fazem. Como opinantes, são preguiçosos. Como cidadãos, são pior do que isso. Mas que não se julgue que são apenas diletantes. As suas profecias servem, mesmo que involuntariamente, muitas agendas. As que se alimentam da resignação, seguramente. As que querem impor aos do costume um cinto apertado também. E, no limite, as dos que apostam na descrença total na democracia para nos propor coisa bem pior.
Texto publicado na edição do Expresso de 31 de Dezembro de 2009