13/02/2012 atualizado às 1:11
Página Inicial » Opinião » Inês Pedrosa » O mulherio, ainda

O mulherio, ainda

O desrespeito é uma forma de discriminação.

Inês Pedrosa (www.expresso.pt)
8:00 Quarta feira, 25 de novembro de 2009

Quando, no início deste mês, li a notícia sobre o afastamento de Dalila Rodrigues da Casa das Histórias de Paula Rego, a segunda coisa que me ocorreu foi: este descarado desrespeito só acontece às mulheres. A primeira foi mais óbvia e menos sexista: mais uma pessoa competente e com provas dadas a ser enxotada, não vá a sua competência fazer sombra a alguém. Num país pequeno por dentro (a grandeza dos países é coisa mental), o sol de um é sempre a sombra dos outros. Eu não gosto de ser sexista e gostava de não ter de responder que sim sempre que me perguntam sobre medidas de discriminação positiva para as mulheres na política. Gastei algum tempo da minha vida, que já vai adiantada para o que ainda quero fazer com ela, a lutar, num movimento de cidadania, por iguais direitos de parentalidade para homens e mulheres, porque me parecia - e continua a parecer, apesar de algumas alterações legais que conseguimos - que a paternidade deve ter exactamente os mesmos direitos que a maternidade. Um pai não é menos importante para o desenvolvimento de uma criança do que uma mãe. Mas a igualdade ainda não entrou na nossa cabeça.

Nas fotografias publicadas na imprensa sobre a tomada de posse do governo, só se viam homens - as cinco ministras ficaram fora do enquadramento. Apareceriam nos dias seguintes artigos biográficos sobre elas, sublinhando-lhes, consoante os casos, a beleza, a delicadeza suspeita ou o sindicalismo excessivo. Há anos que aguardo artigos sobre a beleza e a capacidade de sedução dos ministros de qualquer governo. O fenómeno não é só nacional: antes de Angela Merkel ser eleita pela primeira vez, li muito (em português, mas não só) sobre a sua vida privada, a sua falta de gosto para se vestir e até - inesquecível momento - as marcas de suor visíveis, certa vez, num vestido de gala. Repetiam esses artigos (alguns assinados por mulheres) que, por carência de atributos de sedução, a senhora não tinha carisma. Na Alemanha, já não se escreve nem se pensa assim. O inferno alemão do século XX serviu para alguma coisa, afinal. Os alemães aprenderam a lição que os países com uma história de ditaduras moles e sinuosas, como o nosso, demoram a aprender.

Apesar da coragem das nossas cinco ministras - é preciso coragem para ir contra a cultura instalada do poder dos homens, que se protegem mutuamente na defesa dos seus territórios e prerrogativas -, Portugal perdeu pontos, de 2008 para 2009, no que se refere à igualdade de género. As conclusões do "Global Gender Gap Index 2009", recentemente apresentadas no Fórum Económico Mundial em Nova Iorque, colocam o nosso país em 46º lugar (numa tabela de 134 países), o que representa uma descida de cinco posições em relação a 2008. Portugal sofreu uma quebra na igualdade de salários para a mesma função, bem como no acesso a cargos de topo nas empresas e na justiça. A liderar a tabela estão os países do costume: Islândia, Finlândia e Noruega. Países pioneiros, há muitas décadas, em medidas de discriminação positiva que geraram uma nova mentalidade.

Sempre que a economia entra em crise, a carreira profissional das mulheres é posta em causa: surge imediatamente uma miríade de 'estudos', por esse mundo fora, pretendendo provar que o futuro das crianças depende de terem a mãe em casa, 24 horas, ao seu dispor. Esses 'estudos' nunca se dedicam a contabilizar coisas tão simples e reais como o nível académico e a carreira profissional das mães e dos pais dos delinquentes juvenis - não convém, porque os resultados seriam exactamente opostos aos conseguidos através dos casos exemplares de mulheres que abandonam carreiras de astrofísicas para se dedicarem, abnegadamente, a alimentar o sucesso profissional do marido e o futuro radioso da prole. Uma análise estatística ao ambiente familiar infantil das grandes figuras do século XX, homens e mulheres, seria de extrema utilidade para desfazer o mito da boa mãe. Mas não convém à economia.

As mulheres que regressam a casa não contam nas estatísticas do desemprego. Depois criam-se mais uns 'estudos' declarando que as mulheres hoje se dizem mais infelizes do que na década de 70 do século passado. Claro que esses 'estudos' não contemplam a diferença entre as definições de felicidade de época para época. Quem nada espera menos desespera. O problema é que agora as mulheres têm o direito a ser tão infelizes como os homens. Felizmente.

Texto publicado na edição do Expresso de 21 de Novembro de 2009

 

Faça login pelo Facebook e comente este artigo!
Página 1 de 1   
ordenar por:
mais votados ▼
O mulherio, ainda
Toni 2 (seguir utilizador), 2 pontos , 16:04 | Quarta feira, 25 de novembro de 2009
Sem deixar de concordar com o que escreve, era meu costume quando se deu o 25 de Abril, com o qual quem ganhou mais e temos de concordar foram as mulheres. Dizia eu em termos de chalaça, que já ficava contente se elas não passassem a bater nos homens, mas se isso acontecesse pelomenos que os deixassem chorar. É claro que muita coisa foi feita e muitas vitorias já conseguiram, mas também estou convicto que há coisas que nunca vão mudar. É meu costume dizer que nunca vi uma raposa ter lobos e vice-versa. Há mudanças que fazem mais parte da cabeça das mulheres que propriamente da dos homens ou pelomenos das de alguns. Não nos podemos esquecer o que aconteceu com a mini-saia e as calças, hoje um problema resolvido na cabeça de todos. É muito difícil mudar mentalidades e ainda hoje estamos a pagar 48 anos de obscurantismo e repressão. Gosto de ler as suas crónicas e de as comentar sempre que tenho tempo e por isso peço o especial favor de não serem muito extensas. É o problema que todos estamos a viver da grande quantidade de informação disponivel. Para terminar recordo Marcelo Rebelo de Sousa o que disse da Presidente Alemã no início do seu primeiro mandato, onde a apolidou de muito fraquinha. Gostava de saber se já mudou de opinião, mas estou convicto que sim, porque é uma das suas caracteristicas.Cumprimentos.
 
 Regras da comunidade
Mas foi outra mulher...
NãoHáInocentes (seguir utilizador), 2 pontos , 20:29 | Quarta feira, 25 de novembro de 2009
... quem exigiu a saída da Dalila Rodrigues! Nem mais nem menos que a própria Paula Rego! Em matéria de imparcialidade julgo que estamos conversados...
 
 Regras da comunidade
Nota excelente
Paulo Pedroso (seguir utilizador), 2 pontos , 15:41 | Segunda feira, 30 de novembro de 2009

Foi uma pena não ter acrescentado uns pormenores sobre a herança cultural que construiu essas diferenças de género, nomeadamente no que se refere à relevância das religiões, com o cristianismo em geral e o catolicismo em particular à cabeça das mesmas, enquanto religiões opressoras da mulher e produtoras de discursos social e simbolicamente violentos sobre a mulher.

Se há alguma instituição a quem se deve apontar o dedo pelas responsabilidades históricas no que diz respeito à construção de uma sociedade misógina, machista e sexista, é a ICAR.

Foi uma pena a Inês não ter desenvolvido esse capítulo. Mas, quem sabe, talvez considere pertinente esse tema para uma próxima intervenção?...
 
 Regras da comunidade
Inveja mal nacional
CãodaRosa (seguir utilizador), 1 ponto , 12:21 | Sábado, 28 de novembro de 2009
A inveja é uma das doenças crónicas que mais afecta os portugueses e, que saiba, não existe nenhum plano de contingência, nenhuma vacina em preparação para ser administrada logo à nascença. Mas, concordando no essencial com a D. Inês Pedrosa, o problema das mulheres não está fora, está dentro delas, pelos motivos apontados, pois uma grande maioria foi afectada pelo mal e nem sequer o reconhece. Estou no fim de uma modesta carreira e, durante muitos anos tive como chefias superiores mulheres, aliás no início da minha actividade profissional fui dirigido por uma Senhora que tinha tudo de bom, ou seja, era competente, justa, solidária e, perdoem-me a referência, de uma beleza ímpar. Depois tive a felicidade de chefiar algumas mulheres, facto que representou o maior desafio da minha vida, não foi fácil, mas tornou-se uma tarefa aliciante, conseguir manter unido e a trabalhar com eficácia um grupo onde era raro o dia que não houvesse tentativas de lançar a guerra na "capoeira". As mulheres, o mulherio como refere, são excelentes, tal como os homens e não precisam de quotas para se imporem, o mérito basta, é preciso que elas queiram e a sua atitude perante as outras mulheres o permita.
 
 Regras da comunidade
Discriminação positiva
yourmag (seguir utilizador), 1 ponto , 16:00 | Sábado, 28 de novembro de 2009
Só haverá igualdade de oportunidades quando as mulheres com poder puderem ser tão medíocres como muitos dos homens com poder.Das piores chefes que tive foram mulheres. Aconteceu. Mas isso não me faz generalizar e tomar a andorinha pela Primavera.
Concordando no essencial com Inês Pedrosa, recordo que muitas mulheres são profundamente sexistas e machistas. e continuando a serem no essencial as maiores responsáveis pela educação dos filhos, muitas continuam a educá-los contra as mulheres. É ver mulheres com poder, as poucas, a afirmarem solenemente que nunca foram discriminadas e que são contra as quotas e pela meritocracia. A sua. Contra as outras mulheres. Serem únicas. Pois eu quando desempenhei cargos com poder fui discriminada, de forma insidiosa, pelo paternalismo e suposta condescendência.
Achei elucidativos os artigos que li sobre as novas ministras. Isabel Alçada tem como grande virtude ser casada com Rui Vilar. Francamente! A ministra da cultura é bela e sedutora. Isabel André é um homem de saias e a ministra do Ambiente é socratista de gema. A ministra da Saúde tem bom senso. Sobre os ministros falou-se do currículo. Estamos conversados!
 
 Regras da comunidade
Descida na tabela
Utente (seguir utilizador), 1 ponto , 19:23 | Domingo, 29 de novembro de 2009
Será que Portugal desceu na tabela ou que outros subiram? Parece um pergunta do Dr.Assis, que achava alta a sua bengala de castão de prata, mas que se recusava a cortar-lhe a ponteira, porque ela era alta,sim, mas em cima...
O certo é que a aritmética é uma coisa e a realidade é outra. Como hão-de ficar acima da média todos os países?
 
 Regras da comunidade
Inês Pedrosa
caprylm56 (seguir utilizador), 1 ponto , 10:28 | Segunda feira, 30 de novembro de 2009
quando a gente se veste de cor diferente realmente acontecem casos estranhos.
E o resultado está à vista.
 
 Regras da comunidade
Página 1 de 1   
PUB
 
Email
O Expresso no
Arquivo
PUB




Obrigada
0:00 Quarta feira, 23 de fevereiro de 2011, 9
Programa para um ano de crise
0:00 Quarta feira, 16 de fevereiro de 2011, 3
Meter água
0:00 Quarta feira, 9 de fevereiro de 2011, 2
Memória, precisa-se
0:00 Quarta feira, 2 de fevereiro de 2011, 15
Peregrinação a Roma
0:00 Quarta feira, 26 de janeiro de 2011, 2
Sigamos a inocência
0:00 Quarta feira, 19 de janeiro de 2011, 3
A curva da felicidade
0:00 Quarta feira, 12 de janeiro de 2011,
Década dois
0:00 Quarta feira, 5 de janeiro de 2011, 3
Aviso por causa da moral
0:00 Quarta feira, 29 de dezembro de 2010,
Estado de emergência
0:00 Quarta feira, 22 de dezembro de 2010, 2
Leia aqui toda a informação das últimas 24 horas | últimos 2 dias |  anterior »
MBA
Grupo ImpresaACAP