12/02/2012 atualizado às 19:35
Página Inicial » Opinião » Clara Ferreira Alves » O morto do inverno

O morto do inverno

Como os pássaros, não fui para sul e espero a chegada do verão.

Clara Ferreira Alves (www.expresso.pt)
0:00 Quinta feira, 21 de janeiro de 2010

Desconfio de gente que gosta do inverno. No meio de Agosto, quando sopra aquele vento da estiagem que cheira a terra seca e pó do deserto, o vento que dá na cara devagar, andam pelos cantos a esgalgar-se contra o verão e a pedir frio. Apontam a brancura esplêndida do ar como quem está no meio do inferno. Eu odeio, detesto, abomino com um sentimento enraizado, o inverno. Quem não gosta do verão está como em frente ao mar e aproveita para apertar os atacadores.

Os animais também não gostam do inverno. Nem os poetas. Basta ler o modo como T.S. Eliot usou, ou plagiou, no poema 'The Journey of the Magi', 'A Jornada dos Magos', a famosa frase "A cold coming we had of it. A cold coming we had of it/Just the worst time of the year/For a journey, and such a long journey/The ways deep and the weather sharp/The very dead of winter".

Este "the very dead of winter", o meio do inverno, o mais morto do inverno, o fundo sem fim do inverno, exprime o sentimento para com a estação. Percebem a ideia. "A cold coming we had of it" podia ser traduzido, liberalmente, democraticamente, um pouco estupidamente, incultamente: apanhámos com um balde de água fria, água gelada. É a minha sensação do inverno, um longo balde de água gelada que impede a viagem (the worst time of the year for a journey) e nos leva a prescindir de Belém e da estrela. No meio do inverno estão duas coisas absolutamente desinteressantes: o natal e a sua cauda de manifestações de cretinismo, incluindo o kitsch natalício e os saldos. Os saldos estão associados ao natal. São o brinde para quem sobrevive. Eliot não previu a jornada do consumidor global. No presépio, teriam que dar brindes; em vez de os Magos empreenderem a jornada da mirra e do incenso (qual a terceira oferenda? Ouro?) o menino punha anúncios e os pais enviavam sms. Em Belém, a 25 de Dezembro, não perca grandioso evento nunca visto, o filho de Deus vai nascer. O telemóvel acaba de tocar com um sinal de mensagem a oferecer descontos e percentagens, reparações mecânicas, faqueiros, malas de senhora. E por aí fora. Janeiro é isto.

Como os pássaros, não fui para sul e espero a chegada do verão. Alguém já reparou que os pássaros, não os grandes pássaros dos grandes poemas e sim os pardais modestos de jardim e quintal, deixaram de ir para sul? Com o calor retardado de outono esqueceram-se de voar e ficaram aqui à cata da minhoca e do lixo dos caixotes. Pardais plásticos urbanos, vítimas das alterações climáticas.

Perdi-me. Ia no inverno. Olho pela janela e chove há dias, chove há semanas. O frio é como uma noite sem luz. Uma floresta dos contos infantis. Faz tanto frio que o sem-abrigo da esquina desistiu de chamar as pessoas pelo nome, encostado às paredes, coçando os dedos avermelhados no casaco coçado. Nem um sem-abrigo aguenta a rua. Como não hão-de velhos morrer de frio? Os velhos são pássaros que deixaram de voar.

Há os que procuram epifanias no frio. Na Lapónia com as renas ou nas montanhas da Escócia com os veados e os lobos talvez houvesse epifania, a versalhada de bilhete-postal sobre o manto frio e branco e os regatos de gelo, as árvores petrificadas de neve e o céu de chumbo a pingar farrapos. E por aí fora. Eu nunca fui à Rússia por causa do inverno, e pressinto que deve ser a única altura do ano sem turistas no saldo do transiberiano.

No verão estive numa aldeia escocesa chamada Braemar. Braemar tem a distinção de ser um dos lugares mais frios no inverno. Vinte negativos. Em Agosto, oito positivos. Ao entardecer, que me colheu numa paragem de autocarro sem abrigo e ao lado de frondoso arvoredo e um regato (não concebo paisagem mais deprimente e prescindo do veado) fazia tanto frio que os nativos estavam enterrados no pub a beber whisky. E não se percebe o inverno escocês sem whisky e o russo sem vodka. Detesto whisky e vodka. Oito graus. E eu a sonhar com o Rio, o Calçadão a faiscar ao sol e as mulatinhas de Copacabana regadas por negros esqueléticos com camisetas que dizem nas costas "Fiscal da Natureza". Aquilo é que é um país. Pois em Braemar, agora, vinte e um abaixo de zero. Dizem que os lobos e os veados descem à aldeia à procura de comida. E caminham juntos pelas ruas.

E se querem saber porque é que o Eliot plagiou foi porque o inventor da frase "a cold coming we had of it", e outras, foi um tal bispo Lancelot Andrews, no dia de natal de 1622, em Whitehall, perante o rei Jaime I. "It was no summer progress. A cold coming we had of it. (...) The ways deep, the weather sharp, the days short, the sun farthest off in the solstitio brumali, the very dead of winter".

O "solstitio brumali" lixou tudo. O Eliot percebeu. É isto um poeta.

Texto publicado na edição da Única de 16 de Janeiro de 2010

Faça login pelo Facebook e comente este artigo!
Página 1 de 1   
ordenar por:
mais votados ▼
sou a rosa e imito a dona clara a escrever
Rosa Engeitada (seguir utilizador), 2 pontos , 0:25 | Quinta feira, 21 de janeiro de 2010
ai dona clara como gosto da senhora this book is gay e foi o que me disse o senhor mckinley na praia da Ericeira e devido ao sol in case of attack não apertar os atacadores e good news e os pardais mesmo com o frio disse-me george mcgovern não desamparam a loja it’s no secret também na agualva cacém onde ainda não nevou pelo que me disse john bull e são coisas assim que eu escrevo nas cartas para a dona teodorica a minha madrinha e têm feito um sucesso pois ela mostra-as a toda a gente e lá na terra andam todos de boca aberta e posso confessar à dona clara que não sei o que as palavras em estrangeiro querem dizer mas gosto tanto de as ver nas suas escritas que não resisti e toca de imitar e não é só nas tais palavras é também de misturar muitas terras para que não pensem que não sou viajada e claro que além das bocas abertas há quem deite bocas como o leónidas da farmácia esse ordinarão que pespegou logo na minha madrinha essa rosa anda tão presunçosa que roça a cretinice como se toda a gente não soubesse que são os ciúmes a falar porque ainda não se esqueceu que lhe cortei as vazas e então não me queria convencer que o xarope para a tosse devia ser tomado de joelhos e tinha que ser na farmácia mas voltando ao assunto espero que a dona clara não se importe porque eu gostava de continuar a imitá-la e vou aguentar com toda a má-língua mesmo a da deise que é uma brasuca que trata das néls que disse logo não há saco no bag em estrangeiro
 
 Regras da comunidade
Não sou poeta, mas já fui...
cjours (seguir utilizador), 2 pontos , 18:07 | Quinta feira, 21 de janeiro de 2010
Até para aí aos meus 34 anos também era um exclusivo adorador do sol. Nem sequer da Primavera. Gostava do Verão e só do Verão. Era poeta, portanto.
Depois amadureci como é dado acontecer aos seres humanos...
Aprendi a gostar de tudo. Hoje gosto sinceramente de todas as estações. Gosto da chuva e de andar à chuva, gosto de grandes chuvadas (fazem-me lembrar África); gosto do frio na cara pela manhã (a minha casa é confortável no Inverno e fresca no Verão...) e lembro-me das muitas viagens pela Europa no Inverno (onde, de facto, faz frio...); gosto do aconchego da Primavera, gosto do ardor do Verão.
E já repararam como Portugal está mais bonito por causa das chuvas abundantes? Está verde, verde, verde. As estradas por todo o lado estão bordejadas de verde, como se estivessemos no Verão escocês... O Alentejo está lindo e há-de estar fantástico na Primavera.
Bom, mas eu gosto de viver, claro...
Acho que o problema do Poeta Pateta Alegre é mesmo esse: não cresceu!!!!
ehehehehehehhehhheheheh
Esta foi bem esgalhada, admitam lá!!... : ))))))))
 
 Regras da comunidade
    Re: Não sou poeta, mas já fui...    Ver comentário
S THUNDERS (seguir utilizador), 1 ponto , 18:13 | Quinta feira, 21 de janeiro de 2010
Alma até ao Cairo
Alfredino Cunha (seguir utilizador), 1 ponto , 15:35 | Terça feira, 26 de janeiro de 2010
Também eu gostava que me pagassem para escrever treta desta. Olha, aquela coisa do pôr do sol no Cairo estava melhor, não desanimes, Clarinha, que já escreveste bela prosa.
 
 Regras da comunidade
Página 1 de 1   
PUB
 
Email
O Expresso no
Arquivo
PUB




Miguel Relvas dos Santos
0:00 Sábado, 11 de fevereiro de 2012,
O fim do mundo num gemido
0:00 Sábado, 4 de fevereiro de 2012, 3
Não somos assim tão burros
0:00 Sábado, 28 de janeiro de 2012,
À Dra. Cristas, cristãmente
0:00 Sábado, 21 de janeiro de 2012, 2
O assalto à EDP
0:00 Sábado, 14 de janeiro de 2012, 1
Leia aqui toda a informação das últimas 24 horas | últimos 2 dias |  anterior »
MBA
Grupo ImpresaACAP