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Guta Moura Guedes:

"O meu nome transformou-se numa marca"

A diretora da ExperimentaDesign está lançada num voo internacional. Aos 45 anos, Guta Moura Guedes não para. O que é que ela tem para estar tantas vezes na ribalta?

Entrevista de Ana Soromenho (www.expresso.pt)
15:26 Segunda feira, 9 de agosto de 2010
'O meu nome transformou-se numa marca'
Fotografias: António Pedro Ferreira

Tem este nome majestático, Augusta Regina, mas pouco gente saberá. A diretora da ExperimentaDesign já é só "a Guta". Folheamos as revistas de design, pegamos-lhe no currículo, observamos as parcerias com as instituições, o programa de televisão, o Palácio Quintela, a curadoria "2062" para a La Gaité Lyrique que inaugurará o novo espaço em Paris, os júris internacionais, as conferências, os debates, as inúmeras viagens... A Guta não para. Está em todo o lado. Um excesso. Marcamos a nossa conversa num dia de calor abrasivo. Recebe-nos num apartamento semicasa-semiescritório. Fresco e branco, apenas com o mínimo indispensável. A conversa cruza-se com a hora de almoço. Guta é amável. Prepara uns queijos, umas tostas, uma taça de vinho branco. Coisas de raparigas. Como a conversa que decorrerá em tom quase íntimo. "Aqui é o meu refúgio lisboeta", diz. A casa continua a ser em Torres Vedras. Ela nunca saiu de lá.

É difícil imaginá-la como uma rapariga de Torres, a continuar a viver no lugar onde cresceu.
Por motivos absolutamente pragmáticos. Precisamente por ter a vida que tenho, foi-me muito mais fácil criar lá os meus filhos.

A sua agenda é impressionante. Como é que se organiza em trânsito entre Lisboa, Torres e o mundo?
Há 19 anos que ando na autoestrada. Durante anos foi complicadíssimo gerir esta opção. Quando estive na direção do Centro Cultural de Belém (CCB), em 2005, se os meus filhos ficavam doentes chegava a fazer quatro vezes Lisboa/Torres. Mas ao longo destes anos consegui fazer com que o desenho da minha vida profissional correspondesse a esta realidade. Foi uma conquista que me permitiu aprender a ser altamente flexível, a saber gerir o meu tempo e a viver na mobilidade.

Criar os filhos em Torres Vedras por motivos pragmáticos tem que ver com o seu núcleo familiar?
Absolutamente. Vivemos colados uns nos outros e partilhamos tudo, tipo família italiana: filhos, casas, mães, irmãos, tios... A minha família é um suporte brutal e esta estrutura permitiu-me funcionar estando lá ou não. Se assim não fosse nunca poderia ter feito o que fiz até agora. Mas não foi só por isto que nunca quis sair. Gosto muito de viver numa cidade de província.

Essa dimensão é confortável para si?
Obriga-me a relativizar tudo o que vejo nos sítios onde me movo. Os circuitos que frequento são muito estimulantes intelectualmente, mas têm um lado de facilidade e de luxo que pode ser altamente superficial e transportar-me para uma realidade quase fictícia.

Poderia entrar num certo deslumbramento?
De repente poderia achar que a vida era só assim. Este confronto entre o meu lugar na província, que tem dimensões emocionais e muito íntimas, e o resto do mundo é um exercício fundamental até para o trabalho que faço no plano internacional. Torres Vedras não é uma apenas uma bolha afetiva da qual nunca quis sair por questões de conforto. É um interface privilegiado do qual não prescindo.

'O meu nome transformou-se numa marca'
Tem dois filhos, rapazes, que tiveram de se adaptar ao seu modo de vida. Nunca cobraram a sua mobilidade?
O mais novo foi mais exigente. Custou-lhe perceber a irregularidade da minha presença. Mas adaptaram-se. Entendo as relações entre pais e filhos num plano de amizade e de harmonia. É importante perceberem que, independentemente dos laços de família, somos três pessoas distintas.

Idealmente será assim mas não é uma construção fácil. Essas regras foram-lhes impostas por si.
É verdade. Impus-lhes esse modo de vida, às vezes de uma maneira mais fácil do que outras. Mas essa plataforma foi sendo construída em conjunto. Também nisto tenho sido flexível. As coisas vão sendo discutidas e adaptadas entre os três. Somos muito próximos. Falo de tudo com eles. Quando digo tudo é mesmo tudo. À medida que vão crescendo mais divertido se torna. Pelo menos é assim que vejo a nossa relação.

E eles como a veem?
Ui... Não sei. Provavelmente enganar-me-ei sobre a ideia que julgo terem sobre mim (pausa). É muito mais fácil pensar como era a relação que tive com os meus pais do que como é com os meus filhos.

Como era?
Era uma relação mais clássica, mais formal. Aquela versão do pai que trabalha e da mãe que está em casa a tomar conta. O meu pai é advogado. Saía de manhã e vinha a casa à hora de almoço para estar connosco. A minha mãe estava sempre presente. Tínhamos uma avó que vivia connosco, e para mim foi muito importante. Mas os meus pais eram pessoas especiais, nada que ver com o estilo deste país. Tinham capacidade de voo e de visão. É uma relação que nos marca muito, a mim e aos meus irmãos.

Davam-lhe espaço?
Todo. Desde muito cedo tive essa liberdade. Lembro-me de chegar a Lisboa com 18 anos, nesse movimento típico das pessoas da província que terminam o liceu e obrigatoriamente têm de se dirigir à capital, e de sentir que era muito mais aberta do que a maioria das pessoas com quem me cruzava na universidade. Não tinha medo das pessoas, nem das conversas, nem das relações... Nada! Cresci de uma forma muito generosa e tranquila. Claro que o tempo da universidade é sempre divertido, mas vir sozinha para Lisboa, que nesse tempo ainda era longe, não me trouxe nada de absolutamente extraordinário.

Foi antes de entrar em design na Faculdade de Arquitetura. Nessa altura o que veio estudar?
Gestão hoteleira. Foi um decisão surreal. Tinha conseguido entrar em biologia nos Açores, mas não quis ir. A meio do curso percebi que não queria nada daquilo mas como não gosto de desistir continuei até ao fim. Cheguei a fazer estágios em hotéis e em restaurantes durante o verão.

Nessa altura também cantava. Gravou um disco.
Ah sim, o disco! Gravei com o Nana Sousa Dias. Éramos os Beat.

Andava à procura de palco?
Não! Pelo contrário. Acabei por sair dessa área porque não gosto nem de visibilidade nem de palco.

Mas tem imensa visibilidade.
Pois é... (pausa). Cresci numa família de protagonistas. Quer do lado dos Gato, quer do lado dos Moura Guedes, são pessoas com personalidades muitos vincadas. Lembro-me de os ver em ação e gostar de assistir àquilo. Mas houve uma fase na minha vida em que era introvertida e muito silenciosa. Dedicava-me a absorver e era, literalmente, uma esponja. Na minha família toda a gente, de um modo ou de outro, estava ligada à música: o meu pai cantava, o meu avô tocava e o meu tio também...

O avó dos carrilhões do Convento de Mafra?
Sim, esse avô. Tínhamos a chave do Convento e andávamos por ali como se fosse a nossa casa. Cresci a brincar e a ouvir histórias incríveis daquele lugar absolutamente único e com o som do carrilhão a ressoar pelo convento. Nos claustros ouve-se de uma maneira, na igreja de outra... Passei a infância com a experiência desse som a entrar-me pelo corpo. A ressonância daquilo é incrível. A música sempre teve um papel fundamental na minha vida. Gostava de cantar, tinha boa voz e quando o Nana me perguntou se queria cantar disse logo que sim. Sou facilmente desafiável. É-me difícil dizer não.

Imaginava-se cantora?
Não. Aquele universo era fascinante, partilhava o mesmo estúdio do Luís Represas e dos Trovante, havia todos os músicos de jazz, mas eu era imensamente tímida e tinha uma vergonha enorme do público. A coisa começou a correr mal porque detestava tanto o palco como adorava o estúdio. Nessa altura também me convidaram para fazer um filme. Não aceitei. Tenho consciência de que sou péssima no lado performativo. O pânico de me expor sobrepunha-se ao prazer que sentia em cantar.

O palco onde se move agora pode ser outro, mas não deixa de ser um palco.
É verdade. Mas neste caso a minha visibilidade é uma consequência do trabalho que faço. A diferença é esta. Quando comecei o meu trabalho não tinha como ponto de partida esse lado da performance on stage.

Rapidamente se tornou protagonista. A ExperimentaDesign decorre muito da sua visibilidade.
Sei que comunico bem. Seja para uma, seja para mil pessoas. Disso não tenho medo algum, adoro. A consciência desse lado e de saber aproveitá-lo chegou-me tarde. Aos 20 anos não era a minha meta. E mesmo se fosse, não haveria mal nenhum. É verdade que aquilo que fiz, e que faço, tem um grande impacto associado a mim própria. Mas continuo a dizer que o entendimento dessa visibilidade parte de um potencial que é a minha capacidade de comunicar. Acho que aí sou efetivamente boa... Sabe uma coisa? É raro as pessoas olharem para si e dizerem: "Disto sou capaz, daquilo não sou." Há um trabalho de casa, que faço desde sempre sobre mim e é que muito concreto. Revejo-me em tudo o que faço. Quando olho para trás reconheço sempre o mesmo olhar.

A memória é uma construção.
Qualquer pessoa que tem um discurso público sobre si acaba por construir uma narrativa. Sim. Existe uma construção da nossa personalidade pública. Mas também é verdade o que lhe estou a dizer: não modifico o meu olhar sobre o meu passado. A partir de uma certa idade estabilizamos a visão que temos sobre nós. Sei exatamente a idade em que estabilizei. Tinha 33 anos.

Quando estava a preparar esta entrevista apanhei-lhe esta frase: "Fui desenhada para ser feliz".
É uma imagem demasiado construída para não nos interrogarmos sobre ela. Mas é absolutamente verdade.

Não estará a simplificar demasiado?
Ser feliz quer dizer o quê? Há uma divisão notória entre as pessoas que parecem ter apetência para uma boa vida e serem capazes de construir uma certa tranquilidade, e outras que nascem atormentadas. A mim é-me mais fácil o otimismo. Isto reflete-se em tudo o que faço. Mesmo em situações de adversidade prefiro dirigir-me sempre para os lados mais luminosos e mais construtivos. Terá provavelmente que ver com programação genética pura e dura e com o lugar onde se cresce. Neste sentido, digo que nasci com uma certa disponibilidade para ser feliz.

Não tem sombras?
Claro. Consigo falar com facilidade das coisas que me dão prazer, mas partilho muito pouco as minhas tristezas. É difícil ouvirem-me falar das coisas que me atormentam. Isto torna-me uma pessoa irregular e solitária. Talvez seja uma das características mais complicadas para quem vive próximo de mim. De repente desapareço, posso ser muito ausente.

Voltemos à questão da visibilidade e dos lados luminosos. Agora está na crista da onda, Cá e lá fora, parece estar em todo o lado.
Faço muitas coisas e por isso apareço muito nos media.

Se não fosse essa capacidade de comunicação e de exposição, conquistaria o que conquista para o seu trabalho?
Repare no percurso: era uma rapariga que vivia em Torres Vedras, vim estudar para Lisboa, tive dois filhos, voltei para Torres com uma vida absolutamente burguesa. Vim fazer o IADE (Instituto de Artes Visuais, Design e Marketing), e não conhecia ninguém. Zero! Comecei a desenhar algumas peças de mobiliário, coisa que experimentei um bocadinho como experimentei a música, e a ver o que podia fazer. Acontece que sou muito proativa, não há nada que me apeteça fazer ou ninguém que queira conhecer que não tente, pelo menos, chegar lá. Tudo é possível desde que seja real.

Não existe o inacessível?
Nesta esfera onde me movo? Não! Por que razão haveria de haver?

Esse é o seu poder?
Talvez. Esta característica dá-me algum poder.

Também lhe dá acesso ao poder.
Acreditar que se consegue, que não há ninguém inatingível nas esferas que me interessam, dá acesso a tudo. A história com Peter Zumthor - e muitas outras histórias da minha vida, em que pego no telefone, e me dizem, "não", uma, duas, três vezes, e de repente abre-se uma brecha e eu vou - é um bom exemplo disso.

Peter Zumthor o arquiteto-estrela, com fama de monge, que trouxe à Experimenta-2009. Como conseguiu?
Mandei-lhe um e-mail a dizer que queria fazer uma exposição, uma conferência e um livro. Respondeu: não, não e não. Também dizia que se quisesse conversar com ele em Haldenstein, na Suíça, podia ir. Sabia muito pouco acerca dele. Conhecia coisas que tinha feito, lido uns livros...

Mas sabia o impacto que ele tinha.
Sabia que era amado e odiado no meio e a importância que tinha na arquitetura. Mas o meu ponto de partida era o derrubamento que me tinha provocado a obra dele. Por isso fui. A única coisa que me disseram sobre ele foi: "Se te convidar para entrar e te levar para a sala, não é bom sinal. Se te levar para a cozinha já é qualquer coisa." Fiz uma viagem inacreditável, com uma avalancha de neve pelo meio, e, finalmente, abre-me a porta aquele homem altíssimo, com um ar austero, uns olhos azuis que não existem, e por uns segundos vejo-o a hesitar. Convida-nos a entrar e leva-nos para a cozinha, onde a mulher estava a fazer um bolo. Sentou-se à minha frente, sem me dizer uma única palavra. Durante uma hora falei como se estivesse numa aula. Falei-lhe sobretudo sobre a generosidade e que as pessoas, quando são extraordinárias, devem partilhar. A certa altura chegaram os netos, fomos jantar, bebemos um vinho e ele disse-me: "Faço as três coisas que me pediu."

A única pessoa que lhe fez frente foi Carmona Rodrigues, quando interrompeu a Bienal em 2007.
Há um exercício que faço e é importante. Existe sempre um igual número de "nãos" que corresponde a um número de "sins". Aliás, há mais "nãos". A questão é que não são comunicados e só gosto de anunciar o que vou fazer. Normalmente discuto em sede própria os problemas que possa ter com a tutela. É a minha forma de operar. Essa foi a única vez em que vim para a rua fazer barulho e dizer o que pensava.

Foi fazer a Experimenta em Amesterdão...
Por mais encantador que tenha sido fazer a Experimenta em Amesterdão, não trocaria pelo que perdi naquele ano. Não há pior do que deixar cair compromissos assumidos. A nossa sobrevivência financeira é bastante complicada, tínhamos atingido um ponto em que estávamos a crescer. O que uma interrupção e a descontinuidade significa para uma estrutura que não tem a mínima capacidade de recorrer a créditos bancários não tem explicação. Tive de desmantelar a minha equipa toda.

Mas foi a partir daí que projetou a bienal num circuito internacional.
Não. Desde o início que a ExperimentaDesign se posicionou no plano internacional, só agora é que tenho esta ressonância. Aquilo que a Experimenta lançou em 1999 foi antecipar o que vai ser o século XXI. Pegamos no design, enquanto disciplina, numa perspetiva completamente cultural e experimental, e assumimos como uma ferramenta utilizada em variadíssimos campos artístico. Daí o nome Experimenta. Em 1999 isto era absolutamente revolucionário. Neste momento, estamos, novamente, num ponto de viragem.

Qual?
Estamos a desenvolver projetos que passam por consultadoria, pelas áreas das indústrias criativas e do design response. A bienal é um projeto prioritário, mas é apenas umas das frentes da Experimenta. Este momento que estamos a viver é de grande partilha. Uma das coisas mais importantes é a comunicação para o público em geral.

Como é o ar deste tempo?
O que poderá trazer esta crise como reflexão e repensar o estado das coisas no universo dos criadores? Cheguei há pouco de Veneza de um encontro onde o tema era o design do futuro e o futuro do design. Era uma conferência organizada pela Telecom Itália e a sessão era coordenada por um jornalista de um jornal económico. Para mim, o ponto central foi quererem saber o que é que os designers têm a dizer sobre este redesenho de um modelo que faliu e sobre um novo universo em construção. A participação de um núcleo de design response neste tipo de debates, onde normalmente só eram convidados economistas, sociólogos, antropólogos, etc., é uma novidade muito significativa. Dá-nos, pela primeira vez, a dimensão da importância que a cultura pode ter no redesenho de um novo paradigma.

Em que sentido?
É necessário alterar uma série de paradigmas, porque em termos de mercado houve uma falência da estrutura financeira. A cultura e a criatividade podem ter um papel muito importante no retorno desse desenho. O design é a disciplina que mais facilmente permite essa redefinição porque, precisamente, faz desde sempre um cruzamento muito claro e sem nenhum pudor entre economia e cultura. Está na raiz e faz parte da essência do design ter um cliente, um consumidor e um mercado. Quando falamos de design, falamos de tudo: sotware, serviços, sistemas genéticos. É uma disciplina com grande poder e capacidade de resposta.

O que se passa na Experimenta é uma troca mais conceptual.
Há duas vertentes: comunicação, com uma network internacional muito importante, e produção. O lado conceptual interessa-me na articulação com a realidade. Neste momento, por exemplo, temos uma consultoria com o grupo Amorim para desenvolver projetos na área da cortiça.

O que agora lhe interessa são as questões ligadas à sustentabilidade? Também. Tudo isto faz parte desse desenho maior, que se alterou, e pode ser posto ao serviço da sociedade de uma forma transversal e abrangente. O caminho é precisamente a leitura da disciplina de uma forma radicalmente separada da produção de objetos e da produção industrial, e trazê-la para um território muito transversal e onde pode ter um impacto maior. Isto é novo e revolucionário. E aqui, sim estamos a falar de projetos ligados às áreas da inovação social, da saúde, por aí fora.

A palavra design associa-se sobretudo a objetos e a um certo tipo de marketing, que o vende como um estilo de vida.
É o espírito deste tempo. A mim não me interessa nada, o meu campo não é esse. Design significa apenas desenhar coisas para os outros, sejam elas quais forem.

Mas aceita que lhe chamem a embaixadora do design, no sentido em que promove o design português no mercado internacional.
Também o fazemos. Desde 1999 que a Experimenta leva ao estrangeiro o design português.

O seu nome tornou-se uma marca...
Eu sei.

Qual vale mais, ExperimentaDesign ou Guta?
Um consultor inglês anda atrás de mim para utilizar e trabalhar essa marca... So what? Não a construí conscientemente. Não faz parte de nenhuma estratégia.

A Experimenta existiria sem si?
Se há dez anos me fizessem essa pergunta saberia responder. Há cinco, provavelmente teria algum pudor em dizê-lo. Agora chegou a altura de o dizer: o meu trabalho é criativo e artístico, nesse sentido a Experimenta é o meu pincel.

É uma questão de assinatura?
Quem faz as coisas são as pessoas. A Experimenta é uma associação cultural sem fins lucrativos que existe porque quatro pessoas se reuniram para a fazer. Eu e o Marco Sousa Santos inventámos este evento, que foi partilhado com o João Paulo Feliciano e o Pedro Gadanho, numa viagem de avião. A direção desse triangulo foi sempre minha, o meu trabalho é autoral. Há um reconhecimento inequívoco, tanto da parte dos investidores como dos curadores, de que o que faz a Experimenta ser o que é, é a forma como a dirijo. Todos os trabalhos em me meti, menos quando estive no CCB, sempre foram criativos e autorais.

Porque aceitou o cargo, foi uma questão de poder?
Queria pegar no museu do design. Tenho muito mais poder cá fora do que dentro de uma instituição.

Diz-se que a Guta consegue tudo o que quer. É assim?
Como disse há pouco, não há inacessíveis. O momento de chegar e conseguir falar é sempre possível. O que vem a seguir não sei. Tenho uma pasta com projetos em curso, outra com os em stand by e uma com os arquivados. Esta última é brutal. São todas as coisas que tentei fazer e não consegui. Agora, trabalho muito, luto muito e persigo o que quero, sem dúvida.

Há um lado seu, sedutor e quase picante, que geralmente é associado ao seu poder de persuasão. Isso incomoda-a?
Não é uma novidade. Mas seria de uma arrogância brutal eu dizer sobre mim própria aquilo que me diz dizerem sobre mim. E não corresponde.

Ainda há pouco tempo atribuíram-lhe um romance com Sócrates.
Nunca, na minha vida, nem sequer numa reunião estive sozinha com o homem. O caso Sócrates é um disparate de tal maneira irreal! Foi muito duro porque atingiu a minha família e os meus filhos. Cheguei a falar com um advogado mas percebi que não há nada que se possa fazer... Que história desagradável!

Esse boato pressupõe uma certa ideia sobre as mulheres. Quando uma mulher é gira há sempre a insinuação que se utiliza essa arma.
Pois... Utiliza essa arma quem tem. É tão duro quanto isso. É como ser pouco, ou muito, ou nada inteligente. Nem consigo separar... Como hei-de explicar? Sou muito democrática na análise sobre as nossas competências: inteligência, beleza física... São partes de um todo. Sendo inteligente não deves fingir que és burra. Se és minimamente agradável do ponto de vista físico, porquê fingires que não és? É assim tão extraordinário ser minimamente atraente?

Essa marca Guta também está associada a esse plano.
Pois está. E se eu prestasse atenção ao que dizem não fazia o que faço. Não me preocupo nada com isso... Olhe, aguentem-se! Temos pena, não vou de burqa!

Sobretudo porque o mundo onde se move é maioritariamente masculino. Nesse aspeto, para as mulheres é mais pesado. Já foi mais. Cada vez há mais mulheres a dirigir as estruturas e as grandes empresas. Na área da cultura há mulheres com cada vez mais visibilidade - e ainda bem. Mas ainda sobre essas questões da sedução: tenho consciência disso e não me preocupo em disfarçar ou fingir que essa parte não existe. Doris Lessing dizia uma coisa fabulosa sobre as mulheres: "Há uma altura em que aprendes a desligar-te." Também sei desligar-me totalmente. Sei andar na rua invisível. Não há nada mais cansativo do que estar sempre ligada.

Publicado na Revista Única do Expresso de 7 de Agosto de 2010

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Esta não era...
nao tento (seguir utilizador), 1 ponto , 11:06 | Quinta feira, 12 de agosto de 2010
Esta senhora não era a possivel namorada do 1º ministro? Afinal está bem posicionada, olha o que Sócrates perdeu? Não dizem que atrás de um grande homem está sempre uma grande mulher? É isso que tem faltado a Sócrates, está visto.
 
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goto
zeparvinhoeu (seguir utilizador), 1 ponto , 15:32 | Terça feira, 17 de agosto de 2010
Guta caiu-me no goto. 45 ? mentira !
Eu que só uso produtos brancos compro esta marca.
 
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"O meu nome transformou-se numa marca"
David Zac (seguir utilizador), 1 ponto , 22:14 | Sexta feira, 20 de agosto de 2010
Quando uma mulher é gira há sempre a insinuação que se utiliza essa arma.

Minha cara Guta, nome engraçado, o problema não é ser atraente, mas sim, até onde vai com essa possível vantagem, o que faz com ela, qual o benefício que obtém em troca de uma competência que pode não ser tão efectiva como pretende fazer crer. Se me é permitido, tenho dúvidas.
 
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