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O medo da primeira vez é o medo mais comum a todos os mortais, incluindo políticos

Comendador Marques de Correia (www.expresso.pt)
0:00 Sábado, 30 de janeiro de 2010

Onde o nosso Comendador conta a incrível história de uma relação assente no interesse e na qual não existe a menor ponta de amor, com todos os pormenores, mesmo os mais íntimos.

A história, contada em três linhas, era assim: Francisco Assis perguntou a José Pedro Aguiar Branco se ele queria unir-se para efeitos orçamentais. Como hipótese, colocou a adopção de Paulo Portas. Mas Aguiar Branco disse que tinha medo de uma decisão tão repentina e pediu tempo para pensar. Não iria dizer que sim à primeira proposta de união que lhe chegava e, além disso, tudo aquilo lhe cheirava mais a interesse do que a amor.

- Vá lá - insistiu Assis -, olha que não é a primeira vez nas nossas famílias. O Marcelo fez o mesmo, e o Mota Pinto, em 1983, foi mais longe. Casou-se e só a morte o separou do Soares.

- Não sou desse tempo - respondeu Aguiar. - Sou um tipo ainda novo e, além disso, não gosto de poucas-vergonhas. Comigo tem de haver namoro, tem de haver sentimento... Eu não vou assim à primeira, sem compromisso, tipo overnight... Chama-me antiquado, se quiseres!

- Não chamo nada! Eu concordo inteiramente - exclamou Assis. - Claro que deve haver envolvimento, por isso é que ponho a hipótese de adoptarmos o Paulo Portas nesta nossa união. Uma terceira pessoa, de que teremos de cuidar ambos (e de quem nos teremos de cuidar também), fortalecerá, certamente, os laços que queremos estabelecer e contribuirá para desatar os nós que vamos encontrar.

- É cedo - retorquiu Aguiar. - Eu compreendo a necessidade, o desígnio, a importância, o superior interesse... Mas tenho receio. Não tenho a certeza de que nos entendamos. E depois há a minha mãe! Ainda está activa e ainda tem uma palavra a dizer. Não vês como são famílias que se odeiam?

- Ódio... Que palavra tão forte. - E Assis fez um gesto largo e trágico. - Não estamos no tempo dos Montecchios e Capuletos, do Romeu e Julieta. Olha que agora até é permitido o casamento entre pessoas do mesmo género.

- Como nós? - perguntou Aguiar.

- Como nós! - reafirmou Assis.

- Tenho de pensar.

E Aguiar deu meia volta, caminhando na direcção do Sol que se escondia no mar...

- Dizes qualquer coisa brevemente? - ainda berrou Assis, mas Aguiar já não o ouviu.

Aguiar já só pensava em consultar um especialista. Foi ter com Marcelo, que lhe disse ser natural sentir algum receio e desconforto aquando do início de uma vida a dois, mas que isso perderia importância com o decorrer das relações. As dúvidas iniciais começariam a desaparecer quando tudo se adaptasse.

- Procura relaxar, pois esse medo apenas fará com que fiques tenso, não consigas descontrair e, consequentemente, não consigas ficar excitado com a ideia. Tenta perder essa tensão - disse-lhe o especialista Marcelo -, pois assim o desconforto será notório e será mais difícil alcançar o acordo necessário. E outra coisa - acrescentou ele -, pede ajuda ao Assis, pois juntos poderão arranjar estratégias que melhorem a relação.

Aguiar ficou mais aliviado. Nessa noite, chegou a casa, pegou no telefone e ligou a Assis.

- Olha, consultei um especialista... Acho que vou aceitar, mas ainda preciso de pensar melhor.

- Óptimo - respondeu Assis.

- Mas tenho uma condição - voltou Aguiar. - Não quero adoptar o Portas!

E estamos à espera do casamento...

COMENDADOR MARQUES DE CORREIA

Texto publicado na edição da Única de 23 de Janeiro de 2010

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