Dotado pianista português, desapareceu em 1981, em São Paulo. Foi dado como morto, mas o seu cadáver nunca apareceu. A sua biografia, de Joel Costa, já está nas livrarias.
Em Junho de 1981, Sérgio Varella Cid desapareceu da sua residência em São Paulo. Um dos mais talentosos pianistas portugueses, era igualmente um jogador inveterado e estava envolvido em negócios de contrabando. Nunca mais foi visto. Oficialmente, foi dado como morto, mas o cadáver jamais apareceu. O génio do pianista, a vida dupla e o seu desaparecimento são tratados numa biografia romanceada da autoria de Joel Costa, Balada para Sérgio Varella Cid (Casa das Letras). Pretexto para também o Expresso mergulhar na vida e morte de um pianista fora de série.
Sérgio Soares de Varela Cid nasceu em Lisboa a 5 de Outubro de 1935. Filho de pai pianista (Lourenço) e de mãe violinista (Dora), os seus dotes musicais manifestaram-se logo aos três anos, qual Mozart português. A casa paterna era frequentada por alguns dos maiores vultos da música do século XX: Arthur Rubinstein, Isaac Stern, Yehudi Menuhin... Muitos deles deleitaram-se a ouvir a criança, sentada ao piano Bechstein, de cauda. Concluído o curso no Conservatório Nacional, com 19 valores, instalou-se aos 16 anos em Londres, tendo como mestre Benno Moiseivitch, um dos mais reputados pianistas mundiais. Iniciou então uma carreira de indiscutível sucesso, em concursos, concertos e gravações. Tocou com algumas das melhores orquestras e maestros, em famosas salas de espectáculo. O seu percurso de pianista de excepção era conhecido. Completamente desconhecida era a sua vida paralela de jogador viciado. "O Sérgio era um cleptómano", confirma o jornalista António Valdemar, que foi seu amigo pessoal. "No jogo, era incontrolável", recorda outro amigo, Ricardo França Martins, a residir no Brasil. Joel Costa traça o perfil do jogador: "blackjack", "baccarat", "chemin de fer", "poker". Iniciado pelo próprio mestre, incapaz de vencer a vertigem, enredou-se em dívidas, o que o levou a recorrer a expedientes menos lícitos. Não tardou a ter problemas com as autoridades de vários países. Aos 21 anos, foi detido na Suíça, um episódio referido na biografia e confirmado pelo Arquivo da PIDE/DGS que, aliás, revela episódios até agora desconhecidos.
É o caso de uma informação difundida em 1958 pela Interpol, a pedido das autoridades da Suíça, sobre o pianista, que entretanto dobrara o "l" do apelido. "Soares de Varella Cid, Sérgio" era suspeito de vários "assaltos e tentativas de roubo", cometidos com um cúmplice português (devidamente identificado). O processo já não existe. Contactado pelo Expresso, o procurador-geral de Genebra limitou-se a informar: "Os arquivos não foram guardados mais de 30 anos."
Em 1963, foi a PIDE a seguir-lhe o rasto. A iniciativa partiu do ministro da Marinha, almirante Quintanilha e Mendonça Dias, a pedido do advogado Adolfo Bravo, pai da mulher de Sérgio, Luísa. O ministro enviou ao director da PIDE um cartão pessoal em que dava conta do desejo de Adolfo Bravo em ser recebido por Silva Pais, para lhe "expor vários factos, deveras extraordinários" sobre o genro. Na sequência, a direcção da polícia distribuiu uma circular confidencial a todos os postos fronteiriços: "Logo que se verifique a entrada, por essa fronteira de Varella Cid, deve tal facto ser imediatamente comunicado a esta direcção". Em 25 de Agosto, o posto da PIDE no aeroporto de Lisboa registou a entrada do pianista, "procedente de Londres", após o que informou telefonicamente Adolfo Bravo. Meses depois, o sogro de Sérgio dispensou a colaboração da polícia política. Ignora-se porquê. A inércia, porém, perdurou e a PIDE continuou a anotar os movimentos do pianista até Maio de 1965.
Em 1969, a PIDE voltou a ocupar-se do músico. O 3.º Juízo Correccional de Lisboa (na Boa Hora) emitiu um pedido de captura. A ordem foi executada pela PIDE no aeroporto da Portela a 18 de Novembro, quando o pianista "tentava embarcar num avião da companhia TAP, com destino a Londres". Desconhece-se o que se seguiu. Família e amigos nada sabem - ou nada dizem. Também este dossiê desapareceu, já que os processos correccionais são destruídos 25 anos depois de arquivados.
Também em Londres a vida do português se complicou. Às dívidas sucederam-se ameaças cada vez mais severas. O segundo casamento, com a rica britânica Susan Lamdin, esboroou-se. Acossado pelo sogro inglês, pelas autoridades e por "gangs" do jogo, mudou-se em 1979 para o Brasil, a terra da mãe.
Em São Paulo, instalou-se no n.º 161 da Rua Cuba, na companhia da terceira mulher, a portuguesa Ana Palhavã, 22 anos mais nova. Na casa, ampla e com jardim, trabalhavam vários empregados, entre os quais um ex-pide de nome Dinis. Piano, contudo, não havia. A carreira de intérprete deixara de o motivar. Do círculo de amigos fazia parte um conhecido cirurgião plástico, Hosmany Ramos. Nascido em 1946, em Minas Gerais, era assistente de Ivo Pitanguy, o mais famoso dos cirurgiões plásticos da época. Residente em Copacabana, era um "playboy" da alta sociedade carioca - teve mesmo uma relação com Marisa Raja Gabaglia, uma das caras mais conhecidas da TV Globo.
Pianista e cirurgião teceram relações de cumplicidade. Sérgio, aliás, terá visto em Hosmany uma dádiva do céu para corrigir de vez uma deficiência congénita na vista esquerda. A Interpol não deixara de a assinalar: "Pálpebra superior direita descaída. Nevo 2 cm acima e para trás do ângulo esquerdo da boca." O músico já se submetera a várias plásticas. Sem sucesso. Hosmany poderia ser a chave. Seja como for, os dois emparceiraram no negócio de contrabando de automóveis de luxo, num Brasil completamente interditado à importação de viaturas estrangeiras.
Em Setembro de 1980, nasceu em São Paulo o sexto filho (de três casamentos) - mais tarde, através da Net, saber-se-ia de um sétimo, de uma relação extraconjugal. Ao fim da manhã de 26 de Junho de 1981, dois homens bateram à porta da casa do pianista. Vinham chamá-lo, por causa de alegados problemas com a transacção dum automóvel. Cid tomou banho, despediu-se da mulher, prometeu vir almoçar e saiu. Nunca regressou.
Ricardo França terá sido a última pessoa com quem falou, ao telefone. Foi pouco tempo depois de ter desaparecido. Português, era comissário de bordo da Varig. Em tempos, Varella Cid pedira-lhe para guardar um Mercedes numa garagem em São Paulo. Telefonou para lhe pedir que entregasse o carro a uma pessoa que se apresentaria com um cartão seu. Ricardo obedeceu às instruções do amigo e entregou o Mercedes. Dias mais tarde, a polícia encontrou o automóvel, tendo a seu lado um homem assassinado. Chamava-se Firmiano Rangel e era o mesmo que levantara o Mercedes em nome de Varella Cid.
Em Setembro de 1981, Hosmany foi apanhado na posse de droga. Suspeita: tráfico de cocaína, com negócios no Paraguai, Bolívia, EUA e, claro, Brasil. A esta, juntaram-se outras acusações: roubo de jóias, assalto a residências, emissão de cheques sem cobertura, furto de aviões, contrabando de automóveis. Acusado ainda do homicídio de dois cúmplices: Firmiano Rangel, o homem do Mercedes de Varella Cid, e Joel Avon, piloto de aviões. Outra estranha morte a que surgiu associado foi a do comerciante Reginaldo Lourenço.
Além destes três mortos, outros houve que jamais foram encontrados. Como Carlos Alves Lobo, outro piloto de aviões. Ou o britânico Anthony Lynch, parceiro no contrabando de automóveis de luxo. Também o corpo de Varella Cid nunca apareceu. Estranhamente, quando Hosmany foi preso, tinha em sua posse a agenda e o passaporte do britânico Lynch. Guardava também um cartão de garantia de cheques; com o n.º 295325, série A, o cartão, do Banco Económico, estava passado em nome de... Sérgio Varella Cid. Hosmany jamais confessou os seus crimes. Em tribunal, a defesa alegou "insanidade mental". Peritos em saúde mental que o observaram definiram-no como "uma personalidade psicopática". Condenado em vários processos (a cuja cópia o Expresso teve acesso), foi-lhe fixada uma pena de 21 anos, seis meses e 20 dias de prisão. Sobre Varella Cid, nada se apurou.
Nos anos que se seguiram ao desaparecimento, família e amigos acreditaram que ele pudesse estar vivo. Que tivesse fugido com uma identidade falsa, ou até após uma plástica - a cargo do próprio Hosmany, por que não? A primeira mulher, Luísa Bravo, chegou a receber enigmáticos telefonemas anónimos, em inglês. Seria o ex-marido? Uma cunhada afiança que reconheceu o olhar inconfundível de Sérgio num aeroporto. Outros familiares agarraram-se teimosamente à esperança de que tudo não passasse de mais um dos seus golpes de génio. Os anos passaram e a esperança definhou. Em Junho de 1994, a família avançou com um processo por morte presumida. O vespertino "A Capital" publicou um pequeno anúncio do 3.º Juízo Cível de Lisboa, citando Varella Cid, "em parte incerta, para no prazo de vinte dias (...) contestar a acção especial de morte presumida". Como Sérgio não contestou, foi declarado morto. Quando desapareceu tinha 45 anos. Escreve Joel Costa: "Morreu demasiado cedo. Como Mozart."
Quanto ao Hosmany Ramos, continua preso. Em 1996, à beira de entrar em liberdade condicional, escapou-se. Estava no Instituto Penal de Bauru e foi autorizado a passar o Dia da Mãe com a família. Saiu e não voltou. Um mês depois, envolveu-se no rapto de um empresário em Minas Gerais, o que lhe valeu uma condenação extra de trinta anos.
Nas vários prisões por onde tem passado, dedica-se à literatura. Estreou-se com Síndrome da Violência (1984). Um dos mais conhecidos é Marginália, traduzido em França pela Gallimard. Pavilhão 9 foi lançado em 2001, no Rio, com Hosmany a participar numa videoconferência. Todos os seus oito livros têm como pano de fundo o sistema prisional e histórias de detidos.
Confiante em que será libertado muito em breve, diz que o seu futuro passa pela literatura, de preferência na Noruega, onde vive o filho Erik e uma neta. Cirurgia plástica, logo se verá. Em contacto com o EXPRESSO, Hosmany Ramos pediu um exemplar de um livro especial: Balada para Sérgio Varella Cid.
Joel Costa é o biógrafo de Varella Cid. "Foi um pianista absolutamente excepcional", afirma, com a autoridade de quem, para além de ter mergulhado na sua vida, é ele próprio músico profissional e até o ouviu duas vezes ao vivo, "a tocar Tchaikovsky e Grieg". Desafiado pela filha mais velha do pianista, Paula, deparou com "um personagem fascinante, um sedutor, com um charme muito especial. Logo que entrava em cena, emanava um magnetismo que caracteriza os grandes artistas". O provérbio "vícios privados, públicas virtudes" define bem a vida de Varella Cid. "Era realmente genial. Quer a tocar, quer a enganar as pessoas que lhe eram mais próximas." Membro do coro do Teatro de São Carlos, no final de quatro anos de pesquisa, Joel acredita que há pessoas que sabem (ou sabiam) mais do que alguma vez disseram. Uma delas era Ana Palhavã, a última mulher de Sérgio, com quem vivia em São Paulo - e que morreu em 2006, vítima de cancro. Mas a chave do mistério "é o Hosmany Ramos. Claro. Só ele saberá o que se passou entre ambos.
Tanto para um lado, como para outro". Isto é: se o pianista foi assassinado ou se foi transfigurado, mediante uma cirurgia plástica, disciplina em que Hosmany era reputado especialista. O silêncio de sempre do brasileiro poderia dever-se "ao pacto de silêncio existente no mundo do crime". Joel adora especular, como se percebe do seu programa "Questões de Moral", na Antena 2. E chama a atenção para o facto de o contrabando de automóveis, a que ambos se dedicavam, "implicar cumplicidades diplomáticas, pois só assim as viaturas podiam ser comercializadas no Brasil". Por outro lado, "pode ser que Sérgio soubesse de mais sobre a extensão dos negócios de Hosmany", que se alargavam ao tráfico de droga. Outra hipótese é que tenha feito "um acordo com a polícia, que, em troca, lhe poderá ter concedido um estatuto de arrependido, garantindo a sua protecção". Poderá Varella Cid ainda estar vivo? Joel Costa não acredita. "Sinceramente." Mas duvida que tenha morrido logo que desapareceu. "Tudo isso, porém, não nos deve fazer perder de vista o essencial. E o essencial era o grande pianista."
Texto publicado na Revista Única dia 14 de Abril de 2007





