O exército paquistanês atravessou o seu Rubicão. Nos últimos anos, o Waziristão do Sul, uma área tribal paquistanesa junto à fronteira com o Afeganistão, transformou-se no lugar mais perigoso do mundo. O colapso do regime talibã há oito anos levou a Al-Qaeda e os seus aliados afegãos e paquistaneses a transferirem a sua base de treino para o Waziristão do Sul, uma região remota, com uma geografia difícil e uma tradição histórica de hostilidade política em relação a Islamabad e Rawalpindi.
Apesar das queixas de Washington e de Cabul por causa do uso do Waziristão do Sul como base de operações militares e terroristas contra o Afeganistão, os militares e civis que têm governado o Paquistão mostraram sempre uma grande relutância em intervir de uma forma militarmente decisiva nesta zona tribal. Tal como os ingleses no século XIX, a primeira opção paquistanesa foi o exercício indirecto de influência. Quando falhou, a segunda opção foram operações militares limitadas como a da Primavera de 2004 e ganhar tempo.
A hesitação tinha por base um dilema. Por um lado, a situação no Waziristão do Sul era politicamente inconveniente para o relacionamento entre Islamabad e Washington. Por outro, fazer alguma coisa que fosse significativa do ponto de vista político e militar era extremamente arriscado do ponto de vista doméstico.
As últimas semanas mostram que a hesitação acabou. Duas divisões do exército paquistanês, apoiadas por forças paramilitares e milícias tribais leais a Islamabad, poder aéreo e artilharia têm estado envolvidas numa série de combates e operações militares no Waziristão do Sul. O número de tropas envolvido e as tácticas que estão a ser usadas mostram a determinação das chefias militares paquistanesas em estabelecer e manter a sua autoridade nesta região tribal.
O que é que levou os decisores militares a avançar para esta operação nas vésperas da chegada do Inverno? A resposta é a ameaça que os talibãs paquistaneses do Tehrik-i-Taliban Pakistan (TTP) representam para o futuro do Paquistão.
2009 está a ser um ano muito importante para a maneira como a liderança militar do Paquistão olha para o TTP. Em Abril, o polémico acordo de paz em Swat levou os talibãs paquistaneses a entrar de uma forma muito agressiva no distrito de Buner, a menos de cem quilómetros da capital do país. O crescente número de ataques terroristas fora das tradicionais áreas pastunes aumentou ainda mais o alarme dos chefes militares em Rawalpindi. Os generais paquistaneses estão um pouco à frente da opinião pública do seu país.
As sondagens mostram uma coisa curiosa. Por um lado, a maioria dos paquistaneses vê agora a Al-Qaeda e o TTP como um problema para o país. Por outro lado, a sociedade paquistanesa continua a ter enorme dificuldade em aceitar o que tem vindo a acontecer regularmente nas suas cidades durante os últimos meses.
O ataque terrorista de 28 de Outubro num mercado cheio de mulheres e crianças pobres em Peshawar é o melhor exemplo deste problema. O ataque matou mais de cem civis inocentes e feriu centenas. De acordo com uma série de reportagens feitas por jornalistas no local, muitos paquistaneses recusaram aceitar a possibilidade de o TTP estar envolvido neste ataque. A Índia, Israel e os EUA foram eleitos como os mais prováveis autores do ataque. Esta incapacidade de olhar de frente para o que está a acontecer é uma das maiores dificuldades da sociedade paquistanesa.
A operação no Waziristão do Sul mostra a determinação do exército paquistanês, o actor político e económico mais influente no país, em pôr fim à insurreição do TTP e ao alargamento das suas zonas de influência. A resposta está a ser brutal. Vem aí mais terrorismo no Paquistão.
Darren Chant
Darren Chant, 40 anos, foi o sargento-mor do 1º Batalhão dos Grenadier Guards ingleses. Num exército onde os sargentos são homens formidáveis, Darren Chant foi uma figura lendária pelo seu profissionalismo, coragem e capacidade física. Além de estar entre os três candidatos ao mais alto posto da sua carreira - sargento-mor da Academia Militar de Sandhurst - Chant deveria ter sido promovido a capitão no passado dia 3. Darren Chant e mais quatro camaradas morreram nesse dia em Helmand, no sul do Afeganistão.
Número
5
anos depois, o exército paquistanês está de volta ao Waziristão do Sul, o lugar mais perigoso do mundo. Esta operação mostra que algo de muito importante mudou na avaliação de Rawalpindi sobre os talibãs paquistaneses
Barómetro
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A visita dos embaixadores dos países europeus à Geórgia que terá lugar na próxima semana
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condenação de Kian Tajbakhsh, um académico iraniano-americano, a 12 anos de prisão por participação nas manifestações de protesto em Teerão após as eleições presidenciais
Miguel Monjardino
Texto publicado na edição do Expresso de 14 de Novembro de 2009