Caro leitor, vamos aceitar sem grandes polémicas que os socalcos de arroz de Banaue são o lugar mais bonito do mundo. A mais de mil metros de altitude, desafiam a fantasia humana. Será que existem? Ou trata-se de ilusões ópticas, de sugestões provocadas pela sombra do sol, pela curva da falésia, pelos matizes de verde da vegetação? Não está em causa apenas a fantasia de quem olha, mas a soma de todas as fantasias que acreditaram possível plantar arroz aqui: a esta altitude, em pequenos terraços escavados em montanhas a pique sobre vales profundos, ao longo de dezenas de séculos de sangue, suor e fome.
Mas sim, existem e resistem. E já explico qual a urgência de chegar aqui. Chega-se de madrugada, ao fim de 8 horas de curvas. O dia nasce, o corpo queixa-se. Mas logo a seguir os sentidos rectificam a disposição. Os pulmões sugam o ar outra vez puro e cristalino, depois da cortina obscena de smog da capital das Filipinas. A pele sente o frio revigorante da altitude, quase seco, quase balsâmico e hoje não será um dia de transpiração intensiva nem de roupas encharcadas. E por fim os olhos vêem: os primeiros socalcos, para lá das fachadas pobres da cidadezinha e dos riquexós que já atravancam a praça central.
Ao descer do autocarro um enxame de taxistas, guias, cicerones e agentes hoteleiros ataca o viajante com propostas, dicas, descontos, promessas. Há que seguir a intuição, e escolher a face que parece mais honesta e profissional. Sobretudo se a intenção for a de ter um guia para caminhar pelos socalcos.
A lógica do trekking é a de seguir percursos milenários que ligam as várias aldeias, e dormir cada noite em uma diferente, em quartos adaptados para os viajantes nas casas dos camponeses. Não há estradas. O caminho é por vezes bastante cansativo, com grandes subidas e descidas pelas encostas, mas sempre fácil, seguro e bem assinalado.
Tudo isto é absurdo, obsoleto e em última análise desumano. Cultivar arroz em pequenas parcelas a esta altitude? Para quê? Custa menos comprá-lo made in China ou em outra região qualquer de planície e de agricultura mecanizada. Por sua vez, os socalcos requerem manutenção constante, estão sempre a desabar, são uma prisão. E o mais tragicómico é que não há dinheiro nisto: é pura economia de subsistência. Banaue não faz sentido no século XXI, e por isso é fácil de prever que tem os dias contados.
Os mais jovens emigram, os mais velhos envelhecem. Os Terraços de Banaue vão sendo abandonados. Talvez um governo regional clarividente num país rico pudesse inverter a situação, por exemplo seguindo as medidas tomadas na Provença de subsidiar o cultivo da alfazema, que durante o Verão enche as colinas de ondas violeta. A alfazema em si não é rentável, mas o movimento turístico que a sua presença gera, sim. Somos milhares os que vamos à Provença ver os campos de alfazema em flor.
Não somos tantos os que vamos a Banaue ver os socalcos de arroz. É preciso gostar de caminhar. Mas um consórcio estrangeiro anda a mexer cordelinhos para ter a autorização de construir um megateleférico que atravesse os três principais vales da região. As povoações locais tentam mobilizar-se para o impedir. A Unesco ameaça retirar Banaue da sua lista. Se o teleférico se construir, serão muitos a visitar o que resta dos socalcos semiabandonados. Eu já não serei um deles. É preciso ir agora, e concordar que é o lugar mais bonito do mundo. Talvez assim seja subsidiado, e preservado.