Já me acusaram por aí (isto de fazer comentário público tem sempre os seus momentos estranhos) de ser, veja-se bem, simpatizante de Pedro Passos Coelho. Para atalhar: é difícil recordar-me de uma única coisa relevante em que possa dizer que não discorde frontalmente do rapaz. Tirando uma: as empresas não podem continuar de mão estendida para o Estado.
Mas os discursos na madrugada de sábado para domingo confirmaram uma coisa: Paulo Rangel, seguramente mais centrista e mais próximo de um suposto (e falso) consenso nacional em torno do papel social do Estado, representa o centrão. Não é um centrão ideológico, coisa que pura e simplesmente não existe - o centro é um não-lugar político. Mas o centrão que faz com que mudem os partidos e os líderes que estão no poder e tudo fique, mais coisa menos coisa, na mesma. Aquilo a que poderíamos chamar, por facilidade, e com direito a várias leituras, de "Consenso do Espírito Santo".
Este consenso é aquele que é imposto por uma burguesia nacional dependente do Estado para garantir os seus negócios, o seu crescimento sem inovação e uma protecção permanente face a todos os riscos e a todos os passos que seriam fundamentais para o nosso desenvolvimento. Nada distinguiu de fundamental, do ponto de vistas das grandes escolhas, Sócrates de Durão, Durão de Guterres, Guterres de Cavaco, Cavaco de Soares.
Houve diferentes níveis de sensibilidade social? Claro que sim. Sobretudo podemos dizer que ela foi mais presente quando, distribuído o dinheiro pelos do costume, ainda sobrava algum para os portugueses menos afortunados. Foram os casos de Guterres e de Cavaco, o homem que criou o Rendimento Mínimo e o homem que aumentou substancialmente as pensões. Mas também os dois recordistas em privatizações. Tirando os suplementos sociais que os tempos de vacas gordas permitiram, a estratégia económica foi no fundamental sempre a mesma: a que a cada momento protegia as quatro ou cinco pessoas que realmente mandam neste país. A que defendeu um capitalismo parasitário do nosso Estado.
Passos Coelho, pelo menos a julgar por o que vai dizendo ele e vão dizendo os seus apoiantes, representaria a primeira liderança descentrada deste consenso. Está claramente posicionada à direita, naquilo em que ser de direita ou de esquerda realmente conta hoje. E esta clarificação ideológica do PSD - um partido sem paralelo europeu na sua hibridez política, que retrata bem a fragilidade da burguesia nacional que o apoia - obrigará a esquerda a clarificar-se.
Sim, é verdade que preferia ver um homem como Passos Coelho a liderar a direita portuguesa. Porque acredito que os confrontos devem ser claros. Porque simpatizo com ele? Pelo contrário. Basta ouvir o que ele disse ontem sobre esse absurdo que é as pessoas comprarem prendas no Natal e quererem ter férias para imaginar o que acho das opiniões desta figura. Apenas porque consigo combater aqueles de quem discordo. Mas sou incapaz de discordar de quem nunca diz ao que vem. E a verdade e que tirando os elogios a Cavaco Silva e os sonhos delirantes de maioria absoluta, não me lembro que Paulo Rangel tenha dito ontem nada de que eu discorde ou com o qual possa realmente concordar. Não é bom sinal, pois não?
Não se trata de "quanto pior melhor". Até porque pior do que isto é difícil. Trata-se de abandonar esta rotatividade em que muda tudo menos o que conta. E obrigar os socialistas a escolherem um campo. Trata-se de romper com o "Consenso do Espírito Santo". Acredito que Passos Coelho, no Governo, o faria? Claro que não. Nem duraria um dia no poder se o fizesse. E mesmo a burguesia mais robusta, como a norte-americana, não dispensa o dinheiro dos impostos de quem trabalha quando a coisa aperta. Mas o que está dito está dito. E pelo menos Passos Coelho não poderá continuar a mascarar este consenso com uma "social-democracia" imaginada.
Na realidade, José Sócrates e Paulo Rangel representam o "liberalismo meia de leite". Uma parte é forte. Está reservada para os trabalhadores e para os mais pobres, com o abandono gradual de qualquer ideia de serviço público e funções sociais. A outra é suave, para os grandes empresários, com uma almofada sempre pronta para aparar todas as quedas. Uns estão protegidos. Os restantes expostos. No fim, a coisa parece equilibrada e chamam-lhe, veja-se bem, social-democracia e socialismo.
"Não somos um partido do Estado, não somo um partido do mercado", disse Paulo Rangel. Pois não: são do Estado para uns, do mercado para todos os outros. Para isso, venha um liberal a sério. Um "partido do mercado" sem rodriguinhos. Para que as coisas fiquem claras e se discutam finalmente caminhos alternativos. Para que a política regresse à política.