Vivem há anos lado a lado mas nunca estabeleceram qualquer contacto. É domingo e há festa em casa de Sílvia e António Martins. Ana, a filha mais nova, fez de manhã a sua primeira comunhão. Em cima da mesa do jardim há diversas entradas, leitão assado, bacalhau à lagareiro. Os convidados são família e amigos, todos imigrantes portugueses do distrito de Viseu. Ana está de vestido branco e exibe uma cruz ao peito.
A dois passos da casa encontram-se as torres dos guetos violentíssimos de Montfermeil, nos subúrbios de Paris. É aqui que vivem os "outros", os imigrantes africanos e seus descendentes, a larga maioria muçulmanos. Todos os dias se verificam incidentes nestes guetos onde 40% dos residentes estão desempregados.
Os Martins trabalham em Paris e, para evitar problemas, não se abastecem na localidade. Os vizinhos franceses procedem da mesma maneira. No mercado local, ao ar livre, onde não se vende porco, apenas se veem árabes e negros, e muitas mulheres. Algumas fazem compras com véu integral - burca ou niqab. A maioria usa véus intermédios que apenas cobrem o cabelo e o pescoço.
A família Martins detesta os árabes e os negros. "Deviam ser lançados ao mar", afirma, meio a rir meio a sério, António, pequeno empresário da construção civil. Sílvia diz ter "medo" de ir ao mercado. Todos aprovam as medidas repressivas definidas pelo Presidente Nicolas Sarkozy. "Deviam acabar de vez com estes bandidos", opina um primo, taxista em Paris. São contra o uso do véu islâmico, seja integral ou parcial. "Parecem umas bruxas, se querem viver cá têm de aceitar as regras francesas, caso contrário deviam ser expulsas, elas e as famílias", acrescenta Sílvia.
Os vizinhos franceses, quase todos idosos, têm a mesma opinião. "Quem não quer viver com as nossas leis que vá embora, não podemos sair à rua na nossa terra quando começa a escurecer", exclama um deles. No entanto, os franceses também têm conflitos com os Martins. Não gostam das suas festas aos domingos, sobretudo do cheiro da sardinha ou do bacalhau assados ao ar livre. "São uns invejosos", explica António. "São racistas?", perguntamos. "São", responde o chefe de família, que não se considera racista a si próprio. "Dominar os muçulmanos é uma questão de sobrevivência da França", explica.
Nas torres dos guetos todos são contra a nova lei: "Eles consideram que é mais uma medida de estigmatização e marginalização", explica Ahmed, dono de um café na zona de transição entre o gueto e o centro da vila. Os líderes muçulmanos têm a mesma opinião. "Esta medida vai agudizar os problemas", explica um dirigente franco-árabe do Movimento contra o Racismo e pela Amizade entre os Povos.
No centro de Montfermeil, numa discoteca portuguesa, os africanos não são bem-vindos. "Soirée privada", dizem, mentindo, aos indesejáveis, prática comum noutras discotecas.
A discriminação ao facies é ilegal em França, mas é regra na noite parisiense. "Os árabes criam sempre problemas, por isso lhes recusamos a entrada", explica, pedindo o anonimato, o diretor português de uma discoteca. A guerra ao véu islâmico é apenas a face visível de uma grave gangrena francesa.
Texto publicado na edição do Expresso de 24 de julho de 2010