Vive no quinto e último andar. Onde nos idos de 60 havia verde e veredas, a paisagem é dominada pela cúpula da Mesquita de Lisboa. "Tenho de um lado o Teatro Aberto e do outro um banco que nem sei se já fechou", diz o locatário, Raul Solnado de seu nome.
É uma paisagem inesperada...
Pois é. Já estive dentro da mesquita e até sou amigo do sheik. Hoje é sexta-feira e as orações... parece um ver se te avias. Devem ir de fim-de-semana para fora... Aqui para nós, são todos um bocadinho feios, da mesma maneira que a mesquita é um bocadinho "kitsch". Mas é boa gente, muito boa gente.
Mundo fora celebra-se o 90.º aniversário do fim da Grande Guerra de 1914-18. Ainda não vimos ninguém festejar o centenário da "Guerra de 1908". Há alguma razão?
Qual centenário? Ah, pois é, nem me lembrava! Tenho de usar essa.
Foi coincidência que o texto aparecesse na revista "Bate o Pé", em Outubro de 1961, logo a seguir ao eclodir da guerra no chamado Ultramar português?
Coincidência não foi, que naquela altura tudo era político. Mas nunca esperei que fosse um êxito tão grande e que ainda hoje, passados quase 50 anos, haja gente a falar nisso. A culpa é toda do Gila.
Miguel Gila (1919-2001) foi o autor de "Ida à Guerra". Conheceu-o bem?
Sim. Vi-o pela última vez num dos seus espectáculos na Catalunha, pouco tempo antes de ele morrer. Estava mal e não era só de saúde. Deu que pensar. Depois de o ver decidi que nunca mais havia de fazer a "Guerra de 1908".
O disco "O Irresistível Raul Solnado ",uma compilação de dez monólogos e duas canções, é um dos trunfos deste Natal. É o melhor que já fez?
Não sei. Tenho-me na conta de alguém que é divertido... às vezes. Mas preferia que não tivesse sido destruído o registo televisivo de "O Valente Soldado Schweik", que fiz no Maria Matos. De resto, a digressão de mais de dois anos à volta das minhas memórias, com um elenco composto por mim, uma mesa, uma cadeira e um computador, deu-me um prazer muito grande.
Artigo publicado na Revista Única de 27 de Dezembro de 2008.